Retratos Contados

Pelos Caminhos de Portugal


Por Nélson Mateus e Alice Vieira 

 

Querida avó como estás?

Como tem corrido essa estadia pela Ericeira?

Tens visto as notícias? As coisas pelos aeroportos têm estado caóticas.

Imensa gente que veio de férias, a Portugal, que agora estão horas no aeroporto para realizarem as viagens de regresso. Uns porque os voos são cancelados (por falta de pessoal), outros porque estão horas para fazer os testes à Covid-19… tem sido bastante complicado.

Por falar em aeroportos que saudades tenho de viajar!

Como sabes, temos sido muito solicitados para realizar Tertúlias em Portugal Continental e Ilhas. Nessas tertúlias, através do nosso livro, levamos os participantes a uma viagem às memórias de Portugal, falamos sobre valorização dos mais velhos, envelhecimento ativo e muito mais. 

Para além de levar a cabo essa missão, estas viagens vão servir também para conhecer melhor o nosso país, as nossas tradições e as diferenças entre as regiões.

Agora lembrei-me da canção do Mário Gil “Pelos caminhos de Portugal”.

Nessa canção, que marcou uma geração, Mário Gil levava os ouvintes a uma viagem a Portugal, onde referia várias vezes “Pelos caminhos de Portugal, Eu vi tanta coisa linda, Vi um mundo sem igual.”

Começava por referir cidades da região da Grande Lisboa depois levava-nos a dezenas de cidades de todos os pontos de Portugal continental e ilhas, como não podia deixar de ser.

Realmente, apesar de ser um pais tão pequeno, é uma pais com imensa coisa para descobrir e com diferenças abismais entre regiões.

Um pouco daquilo que pretendo fazer este ano com as Tertúlias. Indo a menos locais! Não que não tenhamos fôlego, e vontade, mas não conseguimos ir a todos os locais que gostaríamos em apenas um ano.

Estou aqui a pensar que será interessante ir partilhando essas viagens no nosso “Diário”. Desta forma partilhamos locais com interesse, tradições e muito mais.

O que te parece?

Vens a Lisboa antes das eleições?

Bjs

 

Querido neto,

Pois é, há muito quem viaje, há quem fique em casa, como dizia a minha avó, cada um é como cada qual.

Antes da pandemia eu não parava em casa. Agora, o mais longe que fui foi a Torres Novas, onde vive o meu filho. E só uma vez. Ericeira-Lisboa e já me chega.

Em miúda também viajava muito: o tio que me criava adorava visitar países diferentes-e sempre de carro, porque tinha um medo pavoroso de aviões. É claro que às vezes as viagens eram um pouco rápidas demais. Lembro-me de termos chegado a Turim, de ele perguntar-como sempre fazia- onde era o centro da cidade, chegar lá, sair do carro, olhar em volta e dizer “está visto”. E seguimos logo para outra cidade, que não se podia perder tempo.

Mas uma das viagens que eu gostava mais de fazer era a Mondariz, na Galiza. O meu tio tinha um grande amigo, galego, que lá vivia e, de vez em quando, lá íamos. Ficávamos num hotel minúsculo onde a D.Clara, a dona, tocava piano ao jantar. Aquilo era uma desafinação completa mas todos batíamos muitas palmas. 

Foi desde essa altura que fiquei sempre com vontade de fazer o Caminho de Santiago (e havemos de fazer, vais ver!). Havia caminheiras que chegavam ao nosso hotel, apoiadas  a um bordão, e eu ouvia-as fascinada. Contavam tudo o que tinham visto. E o que ainda haviam de ver. Lembro-me de pensar “ hei-de ir com elas!”

Mas depois ia brincar com o meu amigo Lalo, ligeiramente mais velho que eu e que, para minha grande inveja, vivia lá sempre. O Lalo também era criado por um tio-o tal senhor galego muito amigo do meu.

Os anos passaram, as nossas vidas tomaram outros rumos, Mondariz tornou-se apenas um lugar esquecido no mapa.

Só o Lalo continuou meu amigo. 

Começou a trabalhar na televisão. Resumindo e concluindo: é o nosso amigo Eládio Clímaco, que tu conheces. E que, para mim é e há-de ser sempre o Lalo.

Apesar de ires em trabalho, aproveita ao máximo essas viagens. Pelos caminhos de Portugal vais encontar coisas sem igual!

Fica bem. Bjs