No meio de nós

Um debate paradigmático!

Achei, por isso, ser oportuno, aproveitar o entusiasmo de alguns políticos pelos discursos do Papa Francisco para sugerir quer leiam mais do que a imigração e a economia.


Curiosamente o argumento religioso voltou ao debate público e, parece-me, pelas melhores razões. Primeiro, a líder da estrema esquerda, Catarina Martins, cita, por duas vezes, o Papa Francisco para dizer que esta economia mata. Depois, o líder do Partido Social Democrático, Rui Rio, diz não defender a prisão perpétua, como católico não crente. Não sei bem o que significa um católico não crente. Posso até entender que seja apenas católico culturalmente falando. Porém, de seguida, remata dizendo que um cristão não pode aceitar essa situação. Logo, parece que ele se considera católico e cristão, o que significa seguir não só de uma cultura, mas uma pessoa – Cristo. 

Não fiquei propriamente espantado de ver o tema da religião a tornar-se presente no debate público. Primeiro, porque há um candidato, André Ventura, que não esconde, pelo contrário, evidencia a sua própria filiação religiosa; depois, porque no futuro o tema da religião será, sem dúvida, um dos temas mais importantes na gestão da coisa pública. Não há disso a menor dúvida. Mesmo que Marcel Gauchet ou o Max Weber tenha preconizado a saída da religião ou, noutra expressão, o desencantamento do mundo, não há volta a dar. A secularização não está a ser o que muitos sociólogos tinham profetizado.

Achei, por isso, ser oportuno, aproveitar o entusiasmo de alguns políticos pelos discursos do Papa Francisco para sugerir quer leiam mais do que a imigração e a economia. Sim, porque há mais vida para além da economia!

Vou apenas tomar como ponto de partida algumas frases tiradas da encíclica de Francisco, Laudato Si, sobre o cuidado da Casa Comum, para poder dar alguns tópicos que possam ser debatidos publicamente. 

Este artigo que agora apresento, de forma breve, foi parte integrante de um trabalho que preparei para o curso de doutoramento que estou a fazer. O trabalho visava seguir o pensamento de Jürgen Habermas que pretende exigir ao discurso religioso uma tradução cultural para que o mesmo seja admitido no debate público contemporâneo. E foi isso mesmo que eu procurei na encíclica: alguns tópicos fundamentais que nos permitam discutir publicamente com crentes e não crentes as razões que nos movem. 

No número 909 Francisco diz assim: «A ecologia humana implica também algo de muito profundo que é indispensável para se poder criar um ambiente mais dignificante: a relação necessária da vida do ser humano com a lei moral inscrita na sua própria natureza: A aceitação do próprio corpo como dom de Deus é necessária para acolher e aceitar o mundo inteiro como dom do Pai e casa comum; pelo contrário, uma lógica de domínio sobre o próprio corpo transforma-se numa lógica, por vezes subtil, de domínio sobre a criação».

Mas há mais! O número 877 diz que seria necessário voltar a propor Deus como um Pai criador para que haja fraternidade: «A melhor maneira de colocar o ser humano no seu lugar e acabar com a sua pretensão de ser dominador absoluto da terra, é voltar a propor a figura de um Pai criador e único dono do mundo; caso contrário, o ser humano tenderá sempre a querer impor à realidade as suas próprias leis e interesses».

Apenas tenho espaço para colocar estes dois números, mas seguramente haverá matéria na própria encíclica do Papa para ser levada ao debate público que toca os homens, o ambiente e Deus – a casa comum: «Não se pode propor uma relação com o ambiente, prescindindo da relação com as outras pessoas e com Deus». 

Se quisermos ser justos, não podemos só ler o que o Papa escreve sobre economia…, mas sobre tudo… e não nos podemos furtar ao debate público sobre todo o seu pensamento. 

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