Opiniao

Biblioteca Pessoal: 2022, plano de leituras

O ano é de celebrações de centenários:da morte de Proust, da descoberta do túmulo de Tutankhamon, da independência do Brasil. Mas há que deixar margem para a surpresa.


Nunca tive muito o hábito de fazer promessas, listas de desejos ou resoluções para o ano novo. Em 2022 não foi diferente. Mas, no domínio das leituras, já tenho algumas ideias firmes de como tenciono ocupar o meu tempo.

O centenário da morte do escritor francês Marcel Proust, no dia 18 de novembro, levou-me a estabelecer como objetivo para este ano a leitura da monumental biografia de Jean-Yves Tadié publicada pela Gallimard em 1996. Antes de me abalançar à tarefa, para tentar perceber se não seria demasiada areia para a minha camioneta, folheei-a ao acaso. Eis os títulos de alguns capítulos apanhados ao sabor das páginas: ‘Como Proust se tornou dreyfusista’, ‘Proust e o dinheiro’, ‘A Condessa Greffulhe ou a inútil beleza’, ‘Um outono à procura de editor’. Fiquei absolutamente convencido e entusiasmado com os pequenos excertos que li. Assim que terminar as leituras que transitaram de 2021, deito literalmente mãos à obra.

Outra biografia que tenciono ler em 2022 é a de Fernando Pessoa por Richard Zenith, que já foi publicada em inglês e cuja tradução para português, na Quetzal, aguardo com expectativa. A última tentativa do género pertenceu ao brasileiro Cavalcanti Filho, em 2012. Não li – o que foi escrito pela crítica, justa ou injustamente, desencorajou-me.

Em 2022 comemora-se também o centenário da descoberta do túmulo de Tutankhamon, por Howard Carter. Se tiver tempo, lerei o relato que o arqueólogo escreveu em 1923, do qual possuo uma tradução francesa, La fabuleuse découverte de la tombe de Toutankhamon. «Minuto raro na vida de um explorador. Sozinho com os meus trabalhadores, encontrava-me talvez, depois de ano de esforços relativamente improdutivos, no limiar de uma importante descoberta». Promete.

Ah, e a 7 de setembro celebra-se o bicentenário da independência do Brasil, o que certamente gerará um importante fluxo de publicações.

Mas de modo algum permitirei que as minhas leituras andem exclusivamente a reboque das efemérides. Tem de haver espaço para a surpresa, para a imprevisibilidade e, já agora, para as idiossincrasias pessoais e o livre-arbítrio. Agora mesmo estou a olhar para um tentador estudo sobre Camões que não estava nos meus planos e afinal poderá bem vir a ser a minha primeira leitura de 2022.

O facto é que há sempre livros que se intrometem e nos baralham os planos. São como aqueles automobilistas afoitos que se metem à frente de toda a gente mesmo quando perdem a prioridade. Mas se na estrada nos exaspera, na literatura este atrevimento é muito bem-vindo. Venham eles, estou ansioso por conhecê-los.

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