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Debate entre os líderes com representação parlamentar: Costa orgulha-se da sua "história", mas adversários não querem que esta se repita

Durante duas horas, os nove líderes confrontaram-se sobre a estabilidade do próximo governo e possíveis acordos, crescimento económico, investimento no Sistema Nacional de Saúde. Este debate marcou-se pela forma como o primeiro-ministro se refugiou na história que escreveu ao longo dos seus governos e pelos ataques dos outros candidatos, principalmente a António Costa, mas ainda assim houve espaço para atiçar outras rivalidades, por exemplo, entre PAN e CDS.


 

Nesta noite de segunda-feira, decorreu o último debate televisivo das eleições legislativas de dia 30 de janeiro, no qual estão presentes os líderes dos partidos com representação parlamentar: António Costa (PS), Rui Rio (PSD), Catarina Martins (BE), João Oliveira (CDU) no lugar de Jerónimo de Sousa, Francisco Rodrigues dos Santos (CDS-PP), João Cotrim de Figueiredo (IL), Inês de Sousa Real (PAN), Rui Tavares (Livre) e André Ventura (Chega). 

Durante duas horas, os nove líderes confrontaram-se sobre a estabilidade do próximo governo e possíveis acordos, crescimento económico, investimento no Sistema Nacional de Saúde. Este debate marcou-se pela forma como o primeiro-ministro se refugiou na história que escreveu ao longo dos seus governos e pelos ataques dos outros candidatos, principalmente a António Costa, mas ainda assim houve espaço para atiçar outras rivalidades, por exemplo, entre PAN e CDS.

Para arrancar com o frente-a-frente, o moderador Carlos Daniel lançou o primeiro tema quanto à estabilidade governativa, levando António Costa, primeiro-ministro, a admitir que a "melhor solução" para o país é ter maioria absoluta, através de votos no PS. "Esta crise política é uma crise que se somou a uma crise pandémica. O país precisa de estabilidade para virar a página da pandemia. (...) Não havendo um melhoria estável, [vamos] andar de crise em crise", disse o secretário-geral do PS, ao afirmar ainda "com certeza" que sairá da liderança do PS caso perca as eleições. 

Já o presidente do PSD, Rui Rio, disse que vai "ganhar com uma maioria relativa". "Para o pais não andar em sucessivas eleições [tenho] de ter espírito democrático (...) e negociar a governabilidade. Mas se for eu a ganhar, sem maioria absoluta (que é o mais provável), quero que os outros tenham disponibilidade para negociar", apontou o líder do PSD. 

Do lado do Bloco de Esquerda, Catarina Martins disse que "não há uma escolha de primeiro-ministro", mas sim para uma opção de votar "para o Parlamento". "Ninguém vem pedir uma maioria absoluta. Mesmo o doutor António Costa não conseguiria assinalar uma maioria absoluta", asseverou a coordenadora do BE. 

No lugar de Jerónimo de Sousa, o representante parlamentar da CDU João Oliveira disse que "cada voto e cada deputado da CDU são um contributo para garantir a estabilidade do Governo. Não há Governos mais estáveis do que os de maioria absoluta, mas as vidas das pessoas ficam mais instáveis", garantiu. 

Para o líder do Livre Rui Tavares, "se houver uma maioria à esquerda", o seu partido será "parte da solução", mas "se houver à direita", será "parte da oposição". "Uma eco-geringonça é qualquer geringonça onde o Livre esteja presente", adiantou Rui Tavares, admitindo ainda que "as pessoas não querem uma maioria absoluta" por sentirem a necessidade de pluralidade no Parlamento. 

Já em relação a um entendimento à direita, o presidente do CDS, Francisco Rodrigues dos Santos, antes de responder a esta possibilidade, decidiu antes de mais provocar o primeiro-ministro: "Seria bom que António Costa, para responder a estas perguntas, trouxesse Pedro Nuno Santos para este debate". "Os portugueses já perceberam que o voto útil acabou. Um voto no CDS é um voto certo para quem quer uma maioria de direita no Parlamento [e] é um voto contra António Costa e a extrema-esquerda", afirmou Rodrigues dos Santos, ao mostrar-se disponível para participar num governo de maioria direita.

Para o líder do Chega, André Ventura, o seu partido tem votos suficientes para fortalecer uma governabilidade à direita, apontou, ao indicar ainda os resultados das sondagens, que mostram o Chega como um dos partidos da direita democrática com alguma relevância. "A questão é se o PSD aceita o único partido que a poderá dar", deixou André Ventura a pergunta no ar.

João Cotrim de Figueiredo, líder da Iniciativa Liberal, começou por dizer a António Costa que "não é assim que se faz política", ao utilizar a "estabilidade como se fosse um bem em si". "Os portugueses sabem no que votam quando votam na IL, ao contrário de no PS. Sem a IL, pode faltar ao PSD o ímpeto reformista", sublinhou. 

Quanto ao PAN, a líder Inês de Sousa Real indicou que "uma maioria absoluta ou um bloco central não serve os interesses do país", no entanto, frisou que "o PAN é um partido que constrói pontes, em vez de muros", ao vincar que o seu partido "jamais viabilizará uma solução governativa que aprovará retrocessos, como a tauromaquia".

Em segunda instância, o jornalista Carlos Daniel colocou em cima da mesa o tema sobre o crescimento económico e a questão sobre o combate à pobreza. 

A primeira a intervir foi Catarina Martins, que disse que Portugal precisa de salário, sendo esta a "primeira forma de redistribuição de riqueza". "Provámos que se podia fazer um caminho diferente e provámos também como é importante apoiar quem está mais vulnerável. (...) O PS que não nos deu razão, acabou por corrigir o seu orçamento de 2021. (...) Foi com apoios direitos que se [impediu mais desigualdade]", apontou a coordenadora do BE, ao admitir que o partido quer "descer o IRS de quem trabalha" e ainda reduzir "o IVA de algo tão importante como a eletricidade".

Para Rui Rio, as reduções não devem ficar apenas pelo IRS e pelo IVA da eletricidade. "É preciso baixar o IRC, o IVA, o IMT, o IMI, tudo. Mas só podemos baixar o que o Orçamento permite. E as governações à esquerda só têm aumentado a carga fiscal", sublinhou o líder do PSD, ao explicar: "Quando distribuímos aquilo que não temos, ou dá inflação ou dá défice na balança de pagamentos e desequilibra isto tudo". "Um dia até foi preciso chamar a troika por causa disto. Não podemos criar a ilusão do momento. Temos de ter uma política coerente e para isso é preciso cuidar primeiro da produção. Se baixarmos o IRS é mais do mesmo, tratar da distribuição sem cuidar da produção", acentuou. 

De seguida, António Costa respondeu aos adversários através de factos: "Entre 2016 e 2019, a economia cresceu sete vezes mais do que nos 15 anos anteriores, (...) [o que] assentou no aumento do investimento privado" e apontar que a ambição do PS "é acelerar este crescimento, porque temos recursos disponibilizados pela UE para fazermos mais e melhor, (...) e dispomos de um sistema científico mais robusto (...) e de recursos humanos cada vez mais qualificados".

O primeiro-ministro fez questão de mencionar que "pela primeira vez neste século, Portugal cresceu acima da média europeia", adiantando ainda que o país não pode adiar para "2025 ou 2026 os escalões do IRS".

Passando a palavra para a IL, João Cotrim de Figueiredo explicou que "a forma mais rápida de subir salários líquidos é reduzir a carga fiscal sobre os salários", retrocedendo assim a vaga de emigração "que António Costa tanto se queixa".

Inês de Sousa Real aproveitou para responder a afirmação do presidente da IL: "É curioso ouvir a Iniciativa Liberal a dizer que devemos subir na vida a trabalhar, mas do grupo de pessoas que está em situação de pobreza, pelo menos 30% trabalha [e é pobre]. Temos de ter uma política social que estenda as mãos às pessoas". "O PAN defende a revisão dos escalões do IRS [e] taxar as atividades poluentes [e a criação de um Ministério da Economia e das Alterações Climáticas", enumerou a líder do PAN. 

Na vez de André Ventura, o presidente do Chega disse que o lento crescimento económico reflete "o uso abusivo" dos apoios. "É muito importante olharmos para os números, porque tivemos António Costa a dizer que a história explica o nosso atraso económico. O PS é que explica o nosso atraso económico. Fomos ultrapassados nos últimos dez anos pela Lituânia, Letónia e Checoslováquia. É muito importante que haja produção e distribuição, mas é mais importante olharmos para as famílias - são os trabalhadores a quem temos de baixar impostos. Temos 300 e tal milhões de euros que gastamos por anos em apoios não contributivos, temos de fiscalizar", assinalou. 

Já para Rui Tavares "a progressividade dos impostos é uma questão de justiça". "Achamos que o IVA da energia deve ser reduzido e a família mediana deve pagar menos IRS", sublinhou. 

Do lado do CDU, João Oliveira indicou que Portugal precisa de "uma política económica e social que aponte perspetivas de desenvolvimento do país para o futuro" e para tal "o aumento do salário mínimo é a grande solução de fundo". "O Banco de Portugal estima um crescimento de 5,8%; isto significa que vão ser criados 12 mil milhões de riqueza. Se os salários não aumentam, vão parar aos lucros dos grupos económicos, dividendos dos acionistas e fora do país", notou. 

Francisco Rodrigues dos Santos considerou que "os anos da geringonça conduziram Portugal ao aumento brutal da carga fiscal, ao aumento da dívida pública para 135% do PIB, a diminuição do rendimento das famílias e mais, ao aumento do índice de pobreza", traduzindo-se numa "overdose de impostos sobre a economia que não resolve o problema estrutural do país", vincou o presidente do CDS. "No país das fadas de António Costa, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa, e de Inês Sousa Real a espaços, trabalhar já não compensa", acentuou. 

O grande tema a ser discutido de seguida foi o investimento na saúde. 

Rui Rio abriu o tema, ao afirmar que pretende colocar o Sistema Nacional de Saúde (SNS) "tendencialmente gratuito". "Público, universal, tendencialmente gratuito. Coisa diferente é nós termos a performance que temos no SNS, (...) [que] é o retrato dos serviços públicos em Portugal, [pelo que defende um] serviço público tão eficaz quanto aquilo que o privado consegue ser [com contratualização com o privado]", propôs. 

Já António Costa disse que na primeira legislatura repôs "tudo o que a direita tinha cortado [no SNS]", ao apontar que o SNS tem de "continuar a avançar". Como? Costa diz: "dotar os cuidados de saúde primários de meios complementares de diagnóstico, aplicar as parcerias que temos com o setor social para responder às necessidades de uma população mais envelhecida, temos de tornar mais atrativa a carreira de medicina geral e familiar". "Temos conseguido reforçar o investimento nos serviços públicos, ao mesmo tempo que vamos reduzindo os impostos. Temos de ter um SNS que seja público", assinalou. 

Francisco Rodrigues dos Santos voltou a atacar o primeiro-ministro na sua resposta: "Acabei de ouvir o doutor António Costa e parece que está tudo bem na saúde". "Não colocamos a ideologia das pessoas à frente da saúde. O que o CDS defende é a via-verde de saúde, que pode escolher um hospital com o Estado a pagar", frisou, acrescentando ainda que "todas as famílias devem ter opção de escolha [nas escolas]. Em Portugal, o sucesso escolar tem de estar ao alcance até das famílias mais pobres".

Para João Oliveira, "[O SNS] está a ser alvo de um processo de desmantelamento no dia a dia [pela falta de resposta a problemas]", ao apontar que "não há liberdade de escolha se não há resposta no SNS". Segundo candidato da CDU, "a questão da valorização dos serviços públicos tem de ser uma prioridade. (...) O SNS é que está em condições de garantir as pessoas que serão tratadas com a mesma dignidade".

Na ótica de João Cotrim de Figueiredo, "é preciso restruturar o SNS". "[Os portugueses devem aceder] a um sistema de saúde e não apenas a listas de espera", atirou. 

Já Catarina Martins afirmou que a direita "não apresenta contas para aquilo que propõem" no setor da saúde. "É bom sabermos quais são os problemas do SNS para sabermos quais são as soluções. [Os profissionais] não têm condições para trabalhar no SNS. A solução é concretizar a dedicação exclusiva, porque não podemos ter diretores de serviço do hospital público que vão a correr para o privado do outro lado da rua. A lei de bases da saúde já diz que quando o SNS não responde, [o privado pode responder]".

"Ouvir António Costa é como sentarmo-nos no sofá e vermos o filme da nossa vida", disse André Ventura. "Há hospitais em Portugal que o tempo de espera de uma consulta é de três anos", vincou o líder do Chega, ao dizer que o país não pode "ter enfermeiros que entram agora a ganhar o mesmo que os que lá estão há 25 anos. É possível reformar o SNS. Tem de haver um prazo máximo [para o que privado possa assegurar as consultas]".

Rui Tavares admitiu que "não troca o SNS" por nada, visto que "nos deu das melhores taxas de vacinação do mundo, com o civismo dos portugueses", e por isso, o líder do Livre avisou: "Não brinquemos com a vida das pessoas. No Reino Unido, só os mais extremistas, como Nigel Farage, é que querem trocar [o serviço público] por um sistema misto".

Para Inês de Sousa Real, "a pandemia veio-nos evidenciar que a saúde humana, do planeta e animal são uma só. É fundamental garantirmos o reforço do SNS, e o privado deve ser complementar".

E para terminar o debate que foi transmitido durante duas horas, cada partido fez a sua intervenção final, de modo a apelar ao voto dos portugueses. 

António Costa começou por dizer que o PS é "uma proposta de maioria de governo", ao contrário da "proposta da direita que é alternativa, mas é uma maioria de desgoverno". "Precisamos de estabilidade para os próximo quatro anos, para continuarmos a avançar e virar a página da pandemia", sublinhou. 

Já Rui Rio afirmou que Portugal precisa de "uma economia diferente, que garanta melhores salários às pessoas". "Temos de ter uma atitude de mais rigor e de menos facilitismo". 

Catarina Martins disse que o país "tem problemas e não os podemos negar". "O PS, com a maioria absoluta que pede, quer agudizar os problemas. Cada voto no BE vai ser um voto para uma solução no país", garantiu a coordenadora do partido. 

Na ótica de João Oliveira, "a CDU continua a ser uma força decisiva para essa resposta global. Cada voto na CDU é o contributo que o povo pode dar para garantir as convergências".

Francisco Rodrigues dos Santos aproveitou para invocar mais uma vez que "um voto no CDS é um voto conservador e democrata-cristão, para derrotar a maioria de esquerda no parlamento, mas também para não fazer acordos democráticos com o PAN, [que quer] destruir o mundo rural", revelou. 

Sem adiantar grande resposta, Inês de Sousa Real disse que o PAN "é e continuará a ser um partido relevante para a democracia portuguesa. No próximo dia 30 de janeiro temos de romper com este conservadorismo que tem marcado a governação" e transitar o país para uma "economia verde". 

João Cotrim de Figueiredo sublinhou que "a esquerda não tem a menor ideia de como pôr Portugal a crescer", ao apontar um exemplo: "[Se a privatização da TAP não tivesse sido chumbada], não teríamos necessidade de ter cada família portuguesa a pagar 1.200 euros. No fim deste debate vou entregar um cheque de 1.200 euros ao doutor António Costa", rematou. 

Já André Ventura tocou no tema da justiça, ao considerar que o país tem de realizar "uma reforma profundíssima". "Não podemos continuar a ser vistos como o país em que os bandidos 'gamam' e não vão para a prisão".

E por último, Rui Tavares afirmou que "[a] história é escrita pelo voto" dos portugueses. "O Livre oferece um caminho para sairmos dos nossos impasses. Portugal pode ser uma economia de vanguarda na União Europeia".

Notícia atualizada às 23h26

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