Desporto

Rui Costa. O rapazinho que tinha uma luz nos pés

Uma vez, em Florença, na sala grande de um palacete que tinha uma vista infinita sobre a cidade, como no filme de James Ivory, espreitando o Arno e os ciprestes de Santa Maria Annunziata, disse-me enquanto se entretinha num puzzle de milhares de peças: «O meu sonho é ser presidente do Benfica». Cumpriu-o.


Costumo dizer: a amizade não se agradece. Costumo escrever: na vida, como no futebol, há pessoas que são o 10. Ser 10 exige muita coisa. Em primeiro lugar exige coragem: o 10 assume-se; é o 10 e ponto final. Há 10 que levam mais do que ponto final; levam ponto de exclamação! Na vida, como no futebol, o 10 está lá quando é preciso. Às vezes não se nota, não se pressente, e de repente é ele próprio: a frase, o gesto, a decisão; o passe, o remate, o golo. Quando falo em coragem, também quero dizer: o 10 tem de ser 10 para si próprio e para os outros. E, se for necessário, contra os outros e contra si próprio.

Quando era miúdo, o meu pai ensinou-me que havia sempre um poema para cada momento da vida. Quando o Rui marcou aquele golo contra a Inglaterra, em 2004, lembrei-me de um poema de Alexandre O’Neill: «De um momento para o outro pode entrar/Um pássaro que levante o céu».

Não me lembrei do poema logo. Lembrei-me depois. Naquele minuto exato pensei que era golo e nada mais. E pensei que esse nada mais era mesmo nada mais. Não foi. Depois do nada mais ainda chegou, inesperadamente, uma catadupa de emoções. Mas um pássaro já tinha levantado o céu.

Todos os números têm o seu tamanho, e o tamanho dos números não corresponde ao seu lugar na tabela dos algarismos. Na vida, como no futebol, há números que são bem maiores do que outros, embora não pareçam. Vou dar um exemplo: o 9 é maior do que o 55. O 9 é avançado-centro, o 55 pode ser qualquer coisa e coisa nenhuma. O 9 pode até nem marcar golos e não lhe dar nem de bico. Mas a gente tem-lhe respeito. É o 9. O 55 pode dar toques de calcanhar e pontapés de bicicleta. Mas não passa do 55. É anónimo e não inspira confiança. Quem usa o 55 tem mais no que pensar do que em fazer o seu trabalho dentro do campo.

Dir-me-ão: há jogadores que fazem os números. Pois há. O 14 só passou a ser número depois do Cruyff e o 13 depois do Eusébio. Absorvem apenas a personalidade de quem os usa. Na história do futebol podem escrever-se capítulos inteiros sobre o Cruyff ou o Eusébio. Podem escrever-se capítulos inteiros sobre o 10. Mas dificilmente se escreverá mais do que um parágrafo sobre o 14 ou o 13.

Três letras; dois algarismos: Rui; 10. Dificilmente outras letras e algarismos ficariam melhor juntos.
Em 1991, na final do Mundial, em Lisboa, o Rui tinha o 5 e, apesar disso, já estava cinco números acima. No segundo em que partiu para a bola e marcou o «penalty» decisivo já era o 10. Em 2004, na final do Europeu, em Lisboa, o Rui trocou a alegria pela tristeza e os risos pelas lágrimas. Ou não trocou e destino trocou-os por ele. A vida não tinha o direito de fazer certas coisas connosco, pois não? Mas faz. «Foi fantástico! Nunca irei esquecer, por cem anos que viva, a viagem de autocarro do hotel para o estádio, as pessoas na rua aplaudindo, acenando, um país todo inteiro a acreditar em nós, a entrar em campo connosco, a levar-nos ao colo até ao título de campeões do Mundo. E nós todos, no autocarro, cantando a nossa canção, vivendo intensamente aqueles momentos que nunca se irão repetir porque, naquela idade, as coisas sentem-se de outro modo, de uma forma mais intensa». Uma vez escrevi: o 10 não fica no banco! E não fica. Por vezes chega é um pouco mais tarde porque esse é o privilégio do 10. No futebol e na vida, o Rui pode chegar sempre um pouco mais tarde porque quem o conhece sabe bem que, de um momento para o outro, ele levantará o céu.

Simplesmente uma crónica
Esta não é a história de Rui Manuel César Costa. Até porque a sua história ainda se está a escrever com a abertura de um capítulo novo. Esta é um longa crónica sobre Manuel Rui Costa, como sempre os italianos gostaram de chamá-lo, a crónica de muitos momentos que vivi com ele, desde que era um rapazinho com uma luz nos pés até se tornar o homem que é. 

Talvez tudo tenha começado no Estádio da Tapadinha, num domingo de manhã, num jogo para o Campeonato Nacional de juniores entre o Sporting e o Benfica. Era em Junho, acho. Não, era certamente em Junho. Não acho, afirmo. Junho de 1990. Já lá vão trinta e dois anos passados a correr, os anos passam todos a correr, só os dias é que passam devagar. O Rui é de 29 de Março (havia de se habituar a fazer sempre anos na selecção nacional, 29 de Março era sempre data de jogos da selecção nacional), ainda mal tinha 18 anos e, de repente, eu vi aquela luz indefinível que se misturou com os raios do sol à hora da sombra mais curta, aquela luz que lhe brotava dos pés, e fiquei ali sem tempo nem espaço para escrevê-la como deve ser, não há problema, escrevo agora, nunca é tarde para se escrever a luz. A bola saiu-lhe do pé direito em elipse, a sua trajetória era tão clara e tão límpida como os olhos da Michele Pfeiffer, a gente sabia, de saber por dentro, que seria golo antes de ele o ser, e depois foi mesmo, golo lindo, estarrecedor, irretocável. É curioso: do outro lado estava outro dos meninos que vi crescer ao longo dos anos, sempre próximo, chama-se Luís Filipe Madeira Caeiro Figo, mas não me recordo como jogou. Desse jogo guardei na memória sobretudo o sol e a luz.

Como dizem os brasileiros, vou cortar as folhinhas do calendário. Junho outra vez, mas 12 anos mais tarde. Macau – estava um calor tão bruto e tão húmido que seria capaz de dissolver a fachada das ruínas de São Paulo. E até o Hotel Lisboa, na altura só o antigo. A selecção nacional fazia estágio para o Mundial da Coreia do Sul e do Japão. Há mais de um mês que o telemóvel do Rui não se encontrava «raggiungibile». Precisava de lhe falar e era sempre impossível. Ele soube-o por vias travessas e, talvez por isso, veio ao meu encontro, antes de um treino, com o ar comprometido de um menino apanhado em falta. E depois do abraço que trocámos, perguntei-lhe: «Não te lembras do Nicolau da Académica, pois não? És muito novo para isso». Ele riu-se e eu expliquei: o Nicolau era um avançado muito alto e muito desajeitado, o que fazia dele uma figura de opereta. No tempo em que colecionávamos os cromos que serviam de embrulho para os rebuçados de alcaçuz, o Nicolau ficou conhecido como o-mais-difícil-dos-bonecos-da-bola. Porque saía raramente e deixava incompletas muitas das nossas cadernetas. Por isso, concluí: «Estás a ficar uma espécie de Nicolau. Ninguém te apanha». Mas eu sabia que o Rui andava triste. A expectativa de ir para o Milan era grande, sonhava com os títulos que andaram a fugir-lhe ao longo da carreira. Continuo a dizer e a escrever, onde for preciso, que se tivesse ido para o Barcelona de Cruyff, que o queria muito, em vez de ter ido para a Fiorentina, teria sido maior do que Zidane e ganho Bolas de Ouro como Figo. A transferência falhou e ele sabe porque razão. Tal como eu também sei. Nunca quis contá-lo publicamente, e voltou a não fazê-lo na recente entrevista que deu, mas eu não tenho amarras que me impeçam de, aqui, nestas páginas, dizer que a decisão teve que ver com o dinheiro que o Benfica iria receber de um e de outro clube, comissões ao barulho e o diabo a quatro. E o Rui foi para Florença não porque fosse melhor para ele, mas porque era muito melhor para o Benfica e para quem o dirigia.

Na tarde abafada de Macau ficámos a recuperar a conversa em atraso. Era o seu primeiro Mundial, e foi também o último. O único. Puxei por ele, pelo entusiasmo enorme que rodeava a selecção que, dois anos antes, enchera o Europeu da Bélgica e da Holanda com um futebol tão raro que parecia feito de túlipas negras. Perguntei-lhe se sonhava em ser campeão do mundo, ele que fora campeão do mundo de sub-20, em Lisboa, 1991. E disse-me de um folgo: «Ainda há pouco, num treino, no momento de fazer um remate à baliza, vi-me de repente na fase final do Mundial, isolado frente ao guarda-redes. Chuto... e é golo. Fechei os olhos por um segundo e fiquei arrepiado. Tu bem sabes como quero repetir aquele momento do Mundial de Lisboa. Mas agora, melhor ainda. Quero ser campeão do mundo, mas tenho um certo medo de o dizer alto».

A confidência tem tantos anos que pode ser aberta como um documento da Torre do Tombo. Dois anos mais tarde, o Rui continuava desiludido com a equipa do seu país. Na Coreia, depois do primeiro jogo e da derrota contra os Estados Unidos, o 10 sentou-se no banco. O 10!!! O 10 que nunca pode estar no banco, seja nos confins da Conchinchina, nas faldas das montanhas do Pamir ou no Estádio da Tapadinha, onde dei início a esta história. Dois anos mais tarde, no Europeu português que fez alegre o País Triste, o 10 foi titular contra a Grécia, no Porto, e voltou ao banco. Levantou o céu, frente à Inglaterra, naquele golo aprimorado como um quadro de Rubens, e voltou ao banco. Era banco de mais para o 10. Na véspera da final, combinámos, eu (que era assessor de imprensa da selecção nacional), ele e o Fernando Couto que iríamos os três à conferência de imprensa que projetaria o desafio. O Fernando disse: «Porquê nós dois, Afonso? Dois suplentes?» E eu respondi como pude: «Não sei que equipa vai jogar. Vou eu e dois capitães». Fomos. O Rui avisara-me, numa conversa longa pela madrugada – o quarto dele, em Alcochete, ficava ao lado do meu – que iria anunciar a sua renúncia à selecção. Pedi-lhe que, perante as circunstâncias do jogo, não o fizesse. A conferência foi divertida. Mas o 10 desabafou: «Jogue ou não jogue, será a última vez que visto esta camisola». Era o adeus. Um aceno final do número dez como Portugal não voltou a ter outro.

Para trás e para a frente
Novo rewind: 1994, Torneio de Toulon. Nove jogadores com menos de 22 anos atravessaram o Atlântico nesse final de Maio, com a selecção A, para uns jogos nos EstadosUnidos, mas alguns dos jovens mais prometedores, como Rui Costa, Hélder, Capucho, Abel Xavier, Nelson ou Jorge Costa são emprestados à selecção de Esperanças que, sob o comando de Jesualdo Ferreira, em Toulon, vence de forma brilhante, só com vitórias, o torneio internacional mais conceituado para jogadores abaixo dos 21 anos. Também estive lá; também vi o Rui marcar um golo à Jugoslávia igual ao que marcara na Tapadinha.

Tudo parecia correr às mil maravilhas para esta selecção nacional que tentava apurar-se para a fase final do Europeu de 1996, em Inglaterra, e que tirava agora proveito do estado adulto dos seus «meninos de ouro», juntando no meio-campo o futebol dinâmico de Sousa, recuperador e passador exímio, à largura do jogo de Rui Costa, um número 10 tão completamente dez. 

No dia 15 de Novembro de 1995, num Estádio da Luz a abarrotar, Portugal recebeu a Irlanda e afirmou a sua superioridade, abrindo o caminho para a vitória expressiva (3-0) com um golo extraordinário de Rui Costa – «Foi o melhor golo da minha vida!» –, num remate em arco, de muito longe, que sobrevoou o guarda-redes Kelly, fazendo a bola bater na trave antes de se anichar na baliza irlandesa. Essa chuvosa noite de Novembro mereceria, para mim, o título de A Bola:  «Quando o Rui, à sua maneira, atravessou a Mancha de balão». A alegria era esfuziante. Trinta anos depois da saga dos Magriços, Portugal regressava a Inglaterra.

O público e a imprensa inglesa, que se haviam, «in illo tempore», fascinado por Eusébio, Coluna, Simões e José Augusto, deixavam-se agora encantar pela nova geração de jogadores da equipa das quinas. O The Guardian não lhes poupava elogios: «Na questão de mérito artístico e técnico, os portugueses, na verdade, mereceram ganhar. Às vezes, o seu futebol fazia suspender a respiração». E o Daily Telegraph notava: «Portugal poderá ser a grande equipa do Euro 96 e Rui Costa o maior entre os maiores jogadores dessa equipa». A luz que brotava dos pés do Rui iluminava a Europa.

Sábado, 6 de Setembro de 1997, Estádio Olímpico de Berlim. Apuramento para o Mundial de 1998, em França. Uma vitória portuguesa era tão necessária como a de dez anos antes, com o golo de Carlos Manuel. Estamos a vinte minutos do final do encontro. Sobre a esquerda da grande área alemã, Pedro Barbosa recebeu um passe de Rui Costa, tirou um adversário da frente e rematou imparável. O mais difícil estava conseguido. Estugarda repetia-se em Berlim, e a superioridade lusitana era de tal ordem que toda a gente acreditava mais facilmente no segundo golo português do que no empate alemão. Artur Jorge preparou uma substituição. Quis fazer sair o seu maestro, Rui Costa, estafado após uma exibição de esplendor. E, de repente, um pequeno francês careca chamado Mark Batta, torna-se a figura do jogo: enquanto Rui Costa se dirigia lentamente para a linha lateral, convicto de que o número 10 da selecção nacional está a queimar tempo, corre para lhe exibir o cartão amarelo que é o segundo. A expulsão é incrível e abalou os alicerces de um conjunto até aí consciente da sua força. Um dia, bem mais tarde, o Rui afirmou-me: «É pessoa a quem nunca apertarei a mão, encontre-o onde o encontrar». A luz dos seus pés não brilharia em França.

Em Eindhoven, no dia 12 de Junho de 2000, contra a Inglaterra, aos 18 minutos parecíamos estar condenados a uma derrota humilhante. Dois centros de David Beckham, na direita, ao seu estilo de não avançar para a linha de fundo e preferir lançar a bola de uma posição mais recuada, apanham, primeiro Paul Scholes, logo aos 3 minutos, e depois Steve MacManaman soltos no meio de Fernando Couto e Jorge Costa. Dois golpes terríveis nas nossas ambições. Portugal está desnorteado, dá a sensação de um boxeur atingido por dois diretos arrasadores, à beira do knock-out. Mas, de um momento para o outro, eis que surge em todo o seu esplendor a arte magnífica dos nossos enormes talentos. O esplendor de Portugal! Rui Costa é o primeiro a pegar na equipa. Terá, muito provavelmente, feito nessa noite extraordinária de Eindhoven a sua melhor exibição com a camisola das cinco quinas azuis. É ele que surge na zona onde os dois trincos, Paulo Bento e Vidigal parecem atrapalhar-se, e daí empurra os companheiros para a frente, com passes bem medidos, com movimentos bem imaginados. É ele que, num remate de longe, feito com a parte exterior do pé, obriga Seaman a uma grande defesa. É ele, finalmente, que rouba uma bola que entrega a Figo para um arranque imparável: o número 7 português corre vinte metros com ela colada aos pés e, subitamente, dispara com força e colocação ao ângulo superior da baliza inglesa. Um golo está feito, outros vêm a caminho. Ainda só estão decorridos 22 minutos de um jogo para a história, aceso, movimentado, entusiasmante, com requintes de pormenores técnicos espantosos. Como aquele de Rui Costa, na direita, segurando a bola entre os pés, como se a acarinhasse, metendo-a depois, colocada, perfeita, para o mergulho de cabeça de João Pinto. Faltam agora oito minutos para o intervalo e ninguém parece ter vontade de abrandar o ritmo frenético da partida. Nas bancadas, os ingleses cantam ainda, convencidos da vitória: «Britannia rule the waves». Mas o seu destino estava traçado. Portugal já não se contentava com o empate. A superioridade do seu jogo merecia melhor, a excelência dos seus jogadores exigia outra ambição. Será novamente a magia de Rui Costa a inventar o terceiro golo, o de Nuno Gomes. E, um fora-de-jogo duvidoso anula aquele que seria o mais bonito dos golos da noite, outra vez por Nuno Gomes, concluindo em mergulho, de cabeça, uma jogada em que a bola saiu dos pés de Vítor Baía para ser tocada, de um lado ao outro da longitude do campo, por quase todos os jogadores portugueses. Em Eindhoven tínhamos assistido ao momento mais alto e mais perfeito dessa geração de jogadores que prometera, desde o seu tempo de meninos, vir a ser a mais brilhante do futebol português. A luz, aquela luz de que vos falo desde que comecei a escrever este texto, quase cegava. Nunca o 10 fora tanto, tanto, 10!

2002, Jeonju, Coreia do Sul, segunda-feira, 10 de Junho. Dia de Portugal. Dia do 10. António Oliveira, o seleccionador, procurava tornar a selecção nacional mais consistente no meio-campo para evitar o descalabro dos espaços concedidos aos jogadores dos Estados Unidos no chocante jogo da derrota inaugural (2-3). Havia que escolher um dos cinco jogadores da frente para se sentar no banco. Optou por Rui Costa, e aí terá voltou a cometer um erro crasso, que repetiria no jogo decisivo, com a Coreia do Sul. Já em Suwon, com a entrada de Nuno Gomes para o lado de Pauleta, Oliveira fizera sair Rui Costa, recuando João Pinto. Perante a pressão dos americanos, o futebol de transporte de João Pinto criava menos lances de apoio aos avançados do que o teria feito, com certeza, o futebol de passe do jogador do Milan. Em Jeonju, o problema foi idêntico, a despeito do golo de Pauleta, logo aos 14 minutos, concluindo um lance de repentismo na área polaca. Durante todo o primeiro tempo, Portugal não soube tirar proveito das debilidades da selecção de Jerzy Engel. Só a entrada de Rui Costa para o lugar de João Pinto desbloqueou a situação. O n.º 10 de Portugal revoltou-se contra o crime lesa-futebol que o mandou para o banco e passou a gerir de forma inteligente e eficiente os espaços abertos pela defesa polaca. A selecção portuguesa torna-se terrível na forma como explora essas fraquezas; o Figo meio triste que pairara sobre o campo como uma silhueta do verdadeiro Figo, ganha um repente de alegria e vai à direita oferecer o 2-0 a Pauleta. No minuto seguinte atira uma bola ao poste. A Polónia responde com um repente perigoso de Kryszalowicz, que surge solto na área portuguesa onde Baía lhe saiu arrojadamente aos pés. O jogo está bonito, entusiasmante, e Portugal é aquele Portugal que todos nos habituámos a conhecer. A chuva continua a cair sobre Jeonju, mas os jogadores parecem não a sentir. Capucho entra para o lugar de Conceição; Petit está à beira de novo golo com um remate de longe; Rui Costa tem um passe luminoso (só podia ser luminoso) a conduzir Pauleta para um terceiro golo soberbo. O público, tão devotadamente polaco, mergulha num silêncio encantado pela arte dos nossos mágicos. Os minutos escoam-se em direção ao final do encontro. Há, para o Rui, ainda tempo suficiente para dois momentos inebriantes: no primeiro, com uma troca rápida de bola com Capucho, faz o 4-0; no segundo, repete o movimento com Pauleta, mas depois de ultrapassar Dudek, remata contra os pés de Arkadiusz Bak. O único Mundial do Rui dissolvia-se em meia-hora de relâmpagos..

«Um deus passeando pela brisa da tarde»
Rui Costa passou 12 anos em Itália. Visitei-o muitas vezes, vi-o jogar em muitos campos. Em Bérgamo, frente à Atalanta, cumpriu o seu 200º jogo na Série A. «Classe, Divertimento, Fantasia, Talento, Magia, Spettacolo, Ordine: Manuel Rui Costa. Não precisa de tradução, pois não? Tratava-se da legenda de uma fotografia publicada no Guérin Sportivo. Raramente se encontra tamanha densidade de adjetivos por metro quadrado. Na imagem, o Rui toca a bola com o carinho de quem gosta dela como se gosta de um filho, com a ternura própria de quem sabe que ela é, afinal, o centro redondo da sua vida. Escrevi-o por mais do que uma vez: havia passes do Rui Costa que mereciam ter, por detrás, um fundo musical de Chopin ou uma ária de Puccini. Porque são perfeitos como nos filmes. Os italianos sabiam-no. Ah!, e como eles o sabiam! Sabiam como a bola obedecia cegamente ao ímpeto suave da sua imaginação, submissa e pronta, imprevisível e mágica, puxada pelos cordéis invisíveis da inteligência em movimento. Elipses perfeitas, bissetrizes inimitáveis, traços verticais e corretos. Classe, divertimento, fantasia, talento, magia, espetáculo, ordem. Sete adjetivos enfileirados para um homem só. Mas há mais. Muitos mais. Estávamos em casa dele, em Florença, uma vista sobre o Arno como no filme de James Ivory, A Room With a View. Quis saber qual o jogo que guardava na memória como sendo o da sua tarde ou noite mais brilhante. Ouvi uma resposta adivinhável: o de Parma, numa vitória da Fiorentina por 4-0, frente ao Parma de Paulo Sousa. O Corriere dello Sport fez manchete de primeira página com uma frase esclarecedora: «Rui Costa divino!» Eu estive lá e vi. Preferi roubar o título de um livro de Mário de Carvalho: «Um Deus Passeando Pela Brisa da Tarde. Vi o que o Rui foi capaz de fazer durante os oitenta e cinco minutos que esteve em campo, dois defeitos apenas: foi algo demasiado longo para se recordar de cor, lance a lance, segundo a segundo; foi algo demasiado curto para ser infinito. E os adjetivos voltaram a multiplicar-se pelas páginas dos jornais. Chamaram-lhe «S. Majestade, o futebol». Foi superlativo e inimitável, de um brilho intenso. Como só as estrelas o sabem ser. A luz que nascia nos seus pés foi sempre uma luz de estrelas... «Esse jogo de Parma, foi único. Não só porque marquei dois golos e realizei uma grande exibição mas também porque era um momento muito difícil da vida da Fiorentina. Estávamos no centro de uma enorme contestação, há muito tempo que não ganhávamos fora de casa, essa vitória teve para nós uma importância decisiva». Os ávaros jornalistas da Gazzetta dello Sport deram-lhe 8,5 de nota para a exibição que fez. O meu camarada Alessandro de Calò, escreveu assim do Rui: «Dos seus pés sai sempre qualquer coisa de importante. Jogou como um ‘fuoriclasse’ e matou o jogo. (...) A diferença entre as duas equipas foi feita por um Rui Costa de trato imperial. Joga por todo o campo, é insuperável nas coberturas e impossível de parar nas suas arrancadas». Havia mais: «O número 10 ‘viola’ sai do meio-campo com a bola controlada e cabeça alta tal como fazia Cruyff. (...) Como mereceu a ‘standing ovation’ do desportivíssimo público do Ennio Tardini». Veem?

O seu treinador, Giovanni Trapattoni também não lhe poupou elogios na Conferência de Imprensa que se seguiu ao jogo: «Rui Costa foi estrepitoso! Superlativo! Foi o melhor em tudo». Alberto Poverosi, do Corriere dello Sport, iniciou a sua crónica desta forma emocionada: «Quando, no minuto 40 do segundo tempo de uma partida histórica, Giovanni Trapattoni chamou Rui Costa, todo o Ennio Tardini se pôs de pé e acompanhou com aplausos intermináveis a saída de campo de Sua Majestade, o futebol!». Em Parma, as duas equipas entraram em campo ao som dos acordes da Marcha Triunfal da Ainda, de Verdi. Rui Costa tinha merecido sair de campo ao som da mesma marcha triunfal. 
Ele gostava de fazer puzzles. Daqueles com milhares de peças, uma mesa disponível só para o efeito. Conversávamos pela noite. Adorava o calcio: «A vivência que rodeia os jogos. Até mesmo antes deles começarem. Há uma celebração constante, os estádios estão sempre cheios, o público é vibrante e entusiasta. E isto mesmo quando as partidas são transmitidas pela televisão». Outros tempos. Já pensava no Milan: «É a equipa que mais gosto de defrontar. Porque sempre gostei muito do Milan, desde miúdo. Recordo-me da grande equipa que foi campeã da Europa, com Van Basten, Gullit e Rijkaard, e por causa disso dá-me prazer defrontá-lo. Além disso, esses jogos costumam correr-me bem e, geralmente, faço boas exibições». Uns dias antes a Fiorentina tinha batido o Milan por 4-0. E confessava: «Tenho o sonho de, um dia, ser presidente do Benfica. Mas não vás pôr isso na primeira página porque as pessoas vão julgar que eu sou maluco». Não pus. Pôs ele.

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