Fundo? Agora só pode ser para cima

Os jogos estão feitos!

Pergunta de um milhão de dólares (não apenas aos candidatos, mas também aos moderadores e comentadores): a prioridade para a escolha eleitoral não devia ser a discussão sobre as políticas que podem alterar esta dramática situação? Porque não o foi então?


Estamos a poucas horas de saber se a crise política que, sem razão plausível e de forma irresponsável, os partidos da ‘geringonça’ criaram estará , finalmente, ultrapassada.

As eleições que o Sr. Presidente da República antecipou, com aviso próprio, só terão sentido e poderão ser aceites pelos portugueses se servirem para ultrapassar essa crise.

Mas será que é isso que vai suceder? A campanha eleitoral foi tudo menos clara, exceto num ponto: afinal parece que estas eleições, que a Constituição da República Portuguesa consagra como sendo destinadas a escolher projetos políticos e os deputados que lhes darão conteúdo, só serviu para ajudar a escolher quem será o próximo primeiro-ministro.

E, realisticamente, todos sabem que a escolha só pode ser feita entre o atual primeiro-ministro e o líder da oposição.

Os temas prioritários da política nacional foram completamente menorizados e, nalguns casos, foram mesmo ignorados.

Ora como é difícil, ou mesmo impossível, ler as centenas de páginas que contém os diversos programas eleitorais, o eleitorado não conhece, como devia, as propostas de cada força política para aumentar a produtividade da economia, combater o inverno demográfico, reduzir e requalificar a despesa pública, sustentar a dívida externa (pública ou privada), e criar condições para Portugal se aproximar do nível de desenvolvimento dos países da União Europeia, sem necessidade de recorrer a truques estatísticos.

Por isso e embora os prognósticos só se possam fazer no fim do jogo, como dizia uma figura do desporto, as perspetivas não são as melhores e não é preciso ser-se pessimista, irritante ou informado, para temer o pior.

E o ‘pior’ é que na próxima semana o país se confronte com uma situação semelhante à que era suposto ultrapassar ou seja que se inicie um novo período de pântano político, o que, nas atuais circunstâncias, seria terrível e anteciparia uma nova consulta eleitoral num período pouco superior a dois anos.

Este dilema só será ultrapassado numa de duas hipóteses: ou uma maioria absoluta atribuída ao partido socialista (uma vez que está excluído, e bem, um cenário de bloco central) ou uma vitória do principal partido da oposição, clara mas não necessariamente absoluta.

Na primeira hipótese, o PS deixa de estar refém dos dois partidos da esquerda que sustentaram, com danos assinaláveis e provavelmente irrecuperáveis, o governo cessante, e dessa forma fica liberto para aplicar, na política doméstica, as medidas e as reformas que defende e até patrocina a nível europeu. Foi aliás essa duplicidade que paralisou o desenvolvimento (relativo) nos últimos seis anos que constitui o verdadeiro legado negativo da geringonça.

A segunda hipótese ‘obrigará’ o primeiro-ministro a cumprir o que prometeu, abandonando a liderança partidária, o que criará condições para uma verdadeira modernização e recentragem do PS, enquanto partido essencial à concretização das reformas estruturais de que o país necessita e acentuará o património de liberdade de opinião e de diversidade ideológica que foram elementos fundadores e garantes do sucesso do partido que Mário Soares fundou.

Ironicamente, o líder da oposição não necessita de uma maioria significativa no parlamento, pois é inconcebível que o grupo parlamentar socialista, que integrará algumas personalidades de indiscutível bom senso, permitisse, como foi anunciado por um putativo candidato à liderança futura, que a solução ‘geringôncica’ fosse mais do que um simples, inexplicável e pernicioso parênteses que verdadeiramente só serviu o exercício do poder pessoal de uma minoria de protagonistas.

Sendo certo que a esperança é a última coisa a morrer, não é espectável que, após 30 de janeiro, as coisas fiquem mais fáceis e, finalmente, os verdadeiros problemas do país passem a ser encarados.

Não foi animador nem promissor que nesta campanha não se tivesse falado no famoso Plano de Recuperação e Resiliência, (bazuca) que era, até há bem pouco tempo, o alfa e o omega da nossa salvação coletiva e até serviu para acelerar a marcação de eleições para o período mais grave da atual onda pandémica , situação que todas as evidências científicas davam como praticamente certo.

Imagine-se como estará de espírito o eng. Costa e Silva, autor ‘pro bono’ do essencial do PRR, que, depois de ter sido nomeado ‘salvador da pátria’ se encontra agora esquecido e vê as suas propostas deturpadas ou ignoradas.

Recentemente o ex-ministro das Finanças de um governo socialista, Teixeira dos Santos (bem vindo ao espaço público porque ainda há muitas histórias para contar) afirmava que, mantendo-se tudo com está, serão necessários mais de 290 anos para que a produtividade da economia portuguesa possa atingir a média da produtividade europeia, acrescentando também que «há 50 ou 60 anos estávamos na cauda da Europa e agora, apesar de todo o progresso que se registou, continuamos no fim da tabela».

Pergunta de um milhão de dólares (não apenas aos candidatos, mas também aos moderadores e comentadores): a prioridade para a escolha eleitoral não devia ser a discussão sobre as políticas que podem alterar esta dramática situação? Porque não o foi então?

É simples, não o foi porque uma classe política incompetente, viciada e egoísta, que hoje já é maioritariamente recrutada nas juventudes partidárias e tomou de assalto as estruturas dos principais partidos, se preocupa apenas em manter os seus empregos no aparelho do estado e não tem ‘mundo’ para compreender que as opções tem de mudar, até porque se não mudarem a bem, mudarão seguramente a mal.

Terá o eleitorado português compreendido que as próximas serão, provavelmente, as mais importantes eleições da democracia portuguesa.

No próximo domingo saberemos, mas ‘les jeux sont faits’.

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