Politica

Grandes derrotados fazem contas à vida sob ameaças de crise interna

Os parceiros da gerigonça tiveram perdas históricas. Com representação reduzida no Parlamento é altura de fazer análise ao resultado eleitoral. PCP reúne-se hoje e Bloco de Esquerda sábado. Também o PAN remete para a direção a reflexão para esta queda. 


Depois do fracasso eleitoral, com redução drástica do número de deputados é hora de fazer balanços. O PCP vai reunir hoje o Comité Central “para analisar a situação política e social, os resultados das eleições legislativas e a ação e iniciativa política do partido”. As contas também vão ser feitas pelo BE, mas alguns dias mais tarde. A Mesa Nacional bloquista vai estar reunida no sábado.

O chumbo do Orçamento do Estado para este ano e que levou à realização de eleições antecipadas terão ditado parte da perda de votos nas urnas. E uma futura liderança nos dois partidos poderá ser um dos temas em destaques destes encontros. 

A CDU registou o seu pior resultado em eleições legislativas, perdendo metade dos deputados, incluindo os pesos pesados comunistas João Oliveira e António Filipe, também o PEV ficou sem representação na Assembleia da República.

O partido comunista conquistou apenas 4,39% dos votos (correspondentes a um total de 236 635), elegendo seis deputados. Em 2019 tinha conquistado 6,46% (num total de 329 241) com 12 deputados. Feitas as contas, perdeu quase 93 mil votos. 

Foi o pior resultado desde 1976 e ficou pela primeira vez abaixo dos 300 mil votos. E repetiu o cenário do que se tinha já vivido nas eleições autárquicas – os comunistas perderam três bastiões, desde 1976: Montemor-o-Novo, Mora (Évora) e Moita (Setúbal). Um desses casos é Avis, em que a CDU perdeu pela primeira vez na história para o PS. Este concelho esteve sempre em mãos comunistas desde as primeiras eleições autárquicas e legislativas, após o 25 de Abril de 1974.

A juntar a esta pesada derrota há que contar que ficou pela primeira vez na sua história sem um deputado eleito pelo distrito de Évora. Também a freguesia Couço, do concelho de Coruche – um dos redutos comunistas na região do Alto Alentejo e Ribatejo e que foi sempre governada pelo PCP desde o 25 de Abril – conhecida por dar sempre grandes votações deu a maioria dos votos ao adversário socialista: 43,09% (567 votos) face aos 36,93% (486 votos).

Na noite de domingo quando questionado sobre uma possível saída da liderança do partido, Jerónimo de Sousa disse apenas: “As vitórias nunca nos descansam, as derrotas nunca nos tombam”, lembrando que as “decisões são coletivas” e foram para esta batalha de forma coletiva”. Mas se, muitas vezes, tem sido apontado o nome de João Oliveira como um dos seus sucessores e foi um dos dois dirigentes que substituiu o secretário-geral do PCP durante a campanha depois de Jerónimo de Sousa ter sido operado, a tarefa poderá ser agora mais complicada com esta derrota. Também em cima da mesa tem sido apontado o nome de João Ferreira e aqui os resultados têm sido diferentes. Nas últimas eleições autárquicas não só aguentou os dois mandatos que tinha no município como reforçou ligeiramente até a sua votação nominal. 

Há cerca de um mês que o atual líder do PCP tinha garantido que tinha a confiança do Comité Central para continuar à frente do partido – a mudança de líder até pode acontecer a qualquer momento porque quem a decide não é o congresso mas sim o comité – mas estes resultados poderão ditar um novo desafio à liderança do partido.

Do maior ao mais pequeno Nos últimos 16 anos, o Bloco de Esquerda passou do maior grupo parlamentar de sempre, ao mais pequeno e da terceira para a sexta força política. É preciso recuar a 2002 – quando o partido tinha apenas três anos de existência –, para encontrar um resultado pior do que aquele que domingo foi expresso pelos votos (nessa altura, tinha alcançado 2,75% e 149.543 votos).

Entre as duas legislativas em três anos, o BE perdeu mais de 250 mil votos: tinham sido 500 mil em 2019 e este domingo foram pouco mais de 240 mil. Em número de votos foi a quinta força política, à frente da CDU, mas os comunistas elegeram mais um deputado.

Os distritos de Braga e Aveiro foram bastante significativos nesta derrota bloquista: de dois deputados em cada um destes círculos em 2019, o partido não conseguiu eleger nenhum. No primeiro a queda foi de 8,88% para 3,75% dos votos. No total, foram menos quase 23 mil, tendo sido ultrapassado pelo Chega e pela Iniciativa Liberal. Em Aveiro passou de 9,96% neste distrito, para 4,58%.

Em números absolutos, foram menos de metade dos votos (35 068 em 2019 e 16 700 este domingo). O cenário não foi melhor em Coimbra, em que o bloquista José Manuel Pureza – até aqui era um dos vice-presidentes da Assembleia da República – falhou a eleição, tendo o seu mandato sido conquistado pelo PS, com Marta Temido como cabeça de lista neste distrito.

Leiria foi mais um distrito onde o BE perdeu o deputado que tinha, tendo esse mandato ido parar ao Chega. O mesmo aconteceu no círculo eleitoral de Faro, onde José Gusmão tinha entrado para cabeça de lista mas falhou a eleição, e pode ter acontecido também em Santarém (o mandato do Bloco foi conquistado ou pelo Chega, ou pelo PS).

Catarina Martins, que durante a campanha tinha convidado António Costa para uma reunião logo esta segunda-feira, dia a seguir às eleições, para negociar um acordo de quatro anos, acabou a ver o PS sem necessidade de diálogo e o Bloco a braços com uma possível crise interna. Tudo indica que Pedro Soares, ex-deputado e crítico da atual liderança, não irá facilitar a vida interna. Na última convenção do partido teceu duras críticas sobre a participação do Bloco na geringonça ao defender que tinha faltado “espírito crítico” e que “a meio era necessário ter sido colocado um novo desafio ao Partido Socialista”, algo que defendeu não ter acontecido.

PAN regressa à posição de 2015 O partido conseguiu mesmo à tangente eleger um deputado. Ao contrário dos resultados das últimas eleições, em que conseguiu eleger quatro, desta vez só conseguiu eleger a líder do partido, Inês Sousa Real. Em 2019 tinha conseguido obter 3,3% dos votos (174 511 votos) – tornando-se na sexta força política do país, abaixo do CDS e acima do Chega – mas agora ficou-se pelos 1,53% (82 250), ou seja, quase menos 93 mil votos. 

O partido chegou pela primeira vez ao Parlamento em 2015, quando conseguiu eleger André Silva, porta-voz do partido e cabeça de lista por Lisboa, com 75 140 votos (1,4%). Apenas quatro anos antes, na sua primeira candidatura à Assembleia da República, havia obtido 57 995 votos (1%).

No seu discurso após serem conhecidos os resultados, a atual líder do PAN admitiu que o desfecho não era o esperado e que a Comissão Política Nacional do partido tem agora de refletir sobre o resultado, deixando o futuro da sua liderança nas mãos dos “filiados” do partido. É certo que algumas figuras de maior destaque do partido não estiveram presentes, como Bebiana Cunha. Também André Silva esteve ausente das ações de campanha.

Uma situação que foi sendo desvalorizada pela líder ao justificar a falta de comparência dos membros do partido com o facto de a noite eleitoral do partido se ter espalhado pelas sedes do Porto, de Faro e das regiões autónomas dos Açores e da Madeira. Mas os resultados agora alcançados poderão ditar uma situação diferente.

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