Internacional

Kremlin investe centenas de milhões de euros em desinformação, dizem especialistas

“Não foi a primeira vez que se usou propaganda em tempo de guerra. Não foi a primeira vez que se procurou disseminar informação falsa, no meio de um conflito. Estas práticas são usadas há muito tempo, apenas se têm vindo a apurar, tornando-se mais sofisticadas”, explicou a diretora do Instituto Internacional Republicano.


O Kremlin chega a gastar centenas de milhões de euros por ano na disseminação de informação falsa para impor os seus interesses, uma ação que se intensificou durante as últimas semans com a tensão da Ucrânia, dizem esta quarta-feira especialistas durante uma conferência virtual organizada pelo Departamento de Estado norte-americano, a que a Agência Lusa assistiu.

Nina Jankowicz, investigadora do Wilson Centre e autora do livro “Como perder a guerra da informação: Rússia, ‘Fake News’ e o futuro dos conflitos”,explicou que as autoridades russas estão a disseminar quatro grandes falsas narrativas sobre a crise ucraniana. “A primeira narrativa é a de que há um grupo de oligarcas ucranianos interessados em prejudicar os interesses russos. A segunda narrativa culpa a NATO pela crise nas fronteiras da Ucrânia. A terceira narrativa atribui o conflito aos lóbis da energia e das armas. A quarta narrativa imputa responsabilidade pela crise ao Governo de Kiev”, disse Jankowicz. Todas as quatro versões estão a ser espalhadas em vários meios de comunicação social diferentes, inclusive nas redes sociais."O Kremlin tem vindo a aumentar o seu orçamento para estas operações, há mais de uma década. E trata-se de um orçamento multimilionário, na ordem das centenas de milhões de dólares, que se espalha por todo o mundo", disse ainda Jankowicz.

Já Joanna Rohozinska, a segunda investigadora a participar na conferência, diretora do Instituto Internacional Republicano, em Bruxelas, quis salientar que este cenários não são novidade. “Não foi a primeira vez que se usou propaganda em tempo de guerra. Não foi a primeira vez que se procurou disseminar informação falsa, no meio de um conflito. Estas práticas são usadas há muito tempo, apenas se têm vindo a apurar, tornando-se mais sofisticadas”, explicou Rohozinska. A Rússia, continua, já tinha ensaiado táticas idênticas durante a anexação da Crimeia, em 2014, embora nessa altura as técnicas utilizadas fossem “muito mais rudimentares”. Durante esse ano, a especialista recordou que Rússia usou ferramentas de desinformação mais básicas, como por exemplo criar perfis falsos nas redes sociais, para criar pressão sobre opiniões críticas do Kremlin.

“Os especialistas russos perceberam que as pessoas estão agora mais alerta para estas estratégias e as próprias empresas que controlam as redes sociais como o Facebook ou o Twitter filtram estas situações e identificam e eliminam os perfis falsos. Por isso, desta vez estamos a assistir à disseminação de informação através de contas oficiais no Telegram ou o recurso aos ‘media’ tradicionais para reforçar mensagens”, disse ainda.

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