Internacional

"Heróis da Ucrânia". A derradeira coragem de 13 guardas costeiros que perderam a vida para defender o país

Os russos identificaram-se e instruíram os soldados ucranianos a capitularem. "Isto é um navio de guerra. Isto é um navio de guerra russo. Sugiro que deponham as armas e se rendam para evitar derramamento de sangue e baixas desnecessárias. Caso contrário, serão bombardeados", ameaçaram. Do outro lado, a resposta recebida foi "Navio de guerra russo, vá-se f****".

 

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"Herói da Ucrânia": ei-lo, o título nacional mais elevado que pode ser conferido a um cidadão pelo Presidente daquele país. Criado em 1998 por Leonid Kuchma - que dirigiu aquela nação dos Balcãs entre 1994 e 2005 -, fora atribuído, até 14 de dezembro de 2021, a 496 galardoados entre a Ordem de Estado Civil e a Ordem Militar da Estrela de Ouro. Agora, será a vez de 13 guardas costeiros serem condecorados com o mesmo.

No primeiro dia da invasão russa, por volta das 18h, hora local, na quinta-feira, os guardas fronteiriços do Estado Ucraniano anunciaram que a Ilha das Serpentes, localizada em águas territoriais ucranianas no Mar Negro, havia sido atacada por navios da Marinha Russa. O cruzador de batalha Moskva e o barco de patrulha Vasily Bykov estavam envolvidos no ataque, recorrendo às suas armas de convés. Importa referir que o primeiro, a 3 de julho de 2020, concluiu um processo de manutenção e foi noticiado que permaneceria na frota da Marinha até 2040. A primeira saída, após as reparações, estava prevista para agosto daquele mesmo ano, mas somente foi para o mar há um ano, em fevereiro de 2021. Já o segundo foi oficialmente reconhecido a 26 de fevereiro de 2014 em Zelenodolsk na República do Tartaristão, Rússia, e foi para a água a 28 de agosto de 2017. A 20 de dezembro de 2018, na Base Naval de Novorossiysk, tornou-se parte da Frota do Mar Negro.

Alvo de uma disputa fronteiriça entre a Roménia e a Ucrânia, nos anos compreendidos entre 2004 e 2009, durante a qual o primeiro país contestou a definição técnica da ilha e das fronteiras que a rodeiam, a também denominada de Fidonisi acabou por ter os seus limites territoriais definidos pelo Tribunal Internacional de Justiça. Há apenas um dia, de acordo com o áudio compartilhado pelo jornal online Ukrayinska Pravda, posteriormente verificado pelo governo ucraniano, os russos identificaram-se e instruíram os soldados ucranianos a capitularem. "Isto é um navio de guerra. Isto é um navio de guerra russo. Sugiro que deponham as armas e se rendam para evitar derramamento de sangue e baixas desnecessárias. Caso contrário, serão bombardeados", ameaçaram. Do outro lado, a resposta recebida foi "Navio de guerra russo, vá-se f****".

Segundo informações veiculadas pelos serviços da guarda costeira ucraniana, citados pela CNN, as infraestruturas na ilha – de apenas 0,17 km² – foram destruídas após um ataque aéreo e de artilharia. É importante mencionar que, ao final daquela noite, o Serviço de Guarda de Fronteiras do Estado declarou que a comunicação com a ilha havia sido perdida e, pelas 22h (meia-noite em Kiev, 1h em Moscovo), anunciou que as forças russas já haviam tomado posse da ilha. Como os guardas não se renderam, e os russos não aceitaram tal desfecho, perderam a vida no território desmilitarizado desde 1997. Atualmente, podia lá ser encontrada a povoação de Bile que reforçava o estatuto da ilha como habitada.

De acordo com os últimos dados apurados, existiam aproximadamente cem residentes permanentes: a maioria membros da guarda fronteiriça ucraniana e trabalhadores da estação meteorológica e dos serviços de monitorização e sinalização do tráfego aéreo e marítimo e as famílias destes. Por outro lado, há 19 anos, acolhia igualmente uma estação de estudos marinhos ligada à Universidade Nacional de Odessa. “Na nossa ilha de Zmiinyi, defendida até ao fim, todos os guardas morreram heroicamente, mas não desistiram. Vão ser galardoados postumamente com o título de Herói da Ucrânia. Memória eterna para aqueles que dão a sua vida pela Ucrânia”, garantiu o presidente Volodymyr Zelensky.

No entanto, não é esta a versão defendida pelos russos que, infelizmente, devido ao Executivo que se encontra em funções, têm vindo a habituar-nos à distorção e manipulação da realidade: “Guarnição ucraniana na Ilha das Serpentes rende-se às Forças Armadas Russas” é o título da notícia publicada, pela Agência de Notícias Russa TASS, na manhã desta sexta-feira. “A guarnição das Forças Armadas Ucranianas (UAF) de 82 militares na Ilha das Serpentes rendeu-se voluntariamente às Forças Armadas Russas, anunciou sexta-feira o porta-voz do Ministério da Defesa russo, major-general Igor Konashenkov”, foi partilhado. “Atualmente, eles estão a escrever votos para rejeitar a resistência militar. Serão devolvidos às suas famílias em breve", terá dito Konashenkov. “Segundo o porta-voz, 11 militares ucranianos da 53ª Brigada Blindada da UAF renderam-se perto de Nikolayevsk. Uma unidade de fuzileiros navais da 36ª Brigada de Fuzileiros Navais entrou em contacto com a Milícia Popular da DPR e solicitou um corredor para a república. Depois de entregarem as suas armas, poderão voltar para as suas famílias”.

"Assim que a situação na área de combate estiver estabilizada, todos os militares que se renderam serão liberados para voltar para casa", terá destacado o porta-voz ucraniano. Logo de seguida, num discurso, Vladimir Putin anunciaria que tomara a decisão de realizar uma operação militar especial para proteger as pessoas "que sofreram abusos e genocídio pelo regime de Kiev durante oito anos" O líder russo frisou que Moscovo não tinha planos de ocupar territórios ucranianos, porém, tal tem vindo a acontecer ao longo do dia. Ainda assim, o Ministério da Defesa da Rússia assegurou que as tropas russas não estão a atacar cidades ucranianas, estando alegadamente limitadas a atacar “cirurgicamente” e incapacitar a infraestrutura militar ucraniana. Ou seja, na ótica de Putin, não há nenhuma ameaça à população civil.

Pode ser feito um paralelismo entre os 13 “heróis da Ucrânia” e outros que não baixaram os braços perante as adversidades. A título de exemplo, Hiroo Onoda, que morreu em 2014 aos 91 anos, foi treinado como oficial de inteligência no curso de comando "Futamata" da Imperial Japanese Army Nakano School. A nove meses do fim da Segunda Guerra Mundial, a 26 de dezembro de 1944, foi enviado para a ilha Lubang, nas Filipinas.De acordo com uma nota escrita pelo Major Yoshimi Taniguchi, tinha de se manter vivo e este escrevera o seguinte: “Isso pode levar três anos, pode levar cinco, mas aconteça o que acontecer, nós vamos voltar até ti”. “Várias vezes Onoda e os seus três irredutíveis soldados tiveram notícias de que a guerra tinha terminado, mas não acreditavam. Liam e reliam folhetos que relatavam a rendição japonesa e acabaram concluindo que se tratava de falsidades da propaganda inimiga”, lê-se no seu perfil, escrito para o El País, em janeiro de 2014, pelo jornalista espanhol Jacinto Antón.

Um dos soldados rendeu-se em 1950 e os outros dois foram mortos em confrontos com moradores ou com a polícia filipina. Em 1972, Onoda ficou sozinho, sendo relevante apontar que havia sido declarado morto em 1959. Em fevereiro de 1974, o tenente deparou com um viajante japonês que tinha o objetivo de encontrá-lo, mas insistiu que não se renderia até receber ordens do seu superior. Depois de ter sido localizado pelo governo japonês, Taniguchi, a 9 de março de 1974, conseguiu que o militar se rendesse. Somente nesse dia depôs a espada e seu rifle de ferrolho Arisaka, “a arma padrão do Exército japonês, que conservava em perfeito estado”.

Pelas 20h, o balanço do número de mortos do segundo dia da invasão russa ainda não havia sido feito. Contudo, depois de ter sido anunciado que teriam morrido 57 pessoas e 169 feridos, Zelenskyy revelou que morreram 137 ucranianos, entre soldados e civis, no primeiro dia. É de realçar que o chefe do Executivo ucraniano decretou a mobilização geral da população masculina com idades compreendidas entre os 18 e 60 anos, isto é, todos os homens desta idade estão impedidos de sair do país e podem ser chamados a juntar-se às forças armadas a qualquer momento.