Sociedade

Pedro Strecht: "Há muitos adultos que dizem que não falaram porque acharam que ninguém ia acreditar"

Lidera a comissão que está a investigar os abusos sexuais de menores na Igreja. Vinte anos depois do escândalo Casa Pia, onde ouviu os relatos das crianças mais novas violentadas, diz que a reparação do passado é ainda mais difícil quando a dor foi calada durante anos. E admite que, como aconteceu, poderá haver uma tentativa de descredibilização.


Pedro Strecht, pedopsiquiatra que se tornou conhecido pela intervenção no caso Casa Pia, coordena a comissão criada pela Conferência Episcopal para receber e investigar denúncias de abusos sexuais na Igreja. Em entrevista, revela que a comissão já fez denúncias ao Ministério Público, mesmo de casos que estão prescritos. E admite que ele próprio precisa de fazer terapia para poder lidar com o seu trabalho no dia-a-dia. Sabe que as classes se defendem e que, à semelhança do que aconteceu na Casa Pia, a comissão e os testemunhos das vítimas podem vir a ser descredibilizados: «Os processos são sempre os mesmos. Na Casa Pia, começaram por desacreditar as vítimas, depois a equipa e os investigadores. Tentaram desmantelar por etapas tudo aquilo que era uma evidência.»

Faz este ano duas décadas que veio a público o escândalo Casa Pia, em que interveio como médico dos menores que tinham sido abusados. Acha que foi por ter participado nesse processo de pedofilia que foi convidado pela Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) para presidir a esta comissão independente?

Penso que, provavelmente, me convidaram pelo todo da minha experiência profissional – e a Casa Pia, de facto, faz parte dela. Em comum existe o tema dos abusos sexuais, no entanto, são processos completamente diferentes. Na altura, havia processos-crime a decorrer, com pessoas em prisão preventiva, e eu era o médico das vítimas mais novas. Tinha os miúdos à minha frente. Neste caso, as vítimas têm uma origem e uma estrutura completamente diferente. Ou seja, do ponto de vista médico, há uma interface; do ponto de vista do processo e da intervenção, são coisas distintas.

Quer dizer que há uma diferença muito grande, do ponto de vista terapêutico, entre tratar menores que foram abusados recentemente e vítimas que foram alvo de abusos há décadas?

Claro! Quando tenho crianças ou adolescentes à minha frente que estão a ser alvo de abusos, sinto que os posso ajudar no momento e que ainda posso mudar alguma coisa nas suas vidas. Aqui, com vítimas que foram alvo de abusos há 30 ou 50 anos, apesar de estarmos a falar também da sua infância e de certa forma ser a criança que temos à nossa frente, sei perfeitamente que a possibilidade de reparação do passado é muito mais difícil e complexa. É difícil de gerir o sofrimento destas pessoas justamente porque já não são crianças.

Durante o processo Casa Pia, foi ameaçado e andou com segurança durante três anos. Não tem receio que o mesmo se repita?

(risos) E tive porque sou humano. Aliás, quando fui abordado, a minha primeira resposta foi não. Os meus filhos tinham crescido naquele clima, com a segurança atrás e a minha primeira resposta foi não. Mas depois refleti com calma, ouvi a família e amigos e, como as coisas eram diferentes, aceitei. Pedi tempo para pensar e o que me levou a dizer que sim foi o facto de me terem dado carta-branca para eu escolher a equipa que quisesse. Senti-me bastante mais protegido, no sentido em que somos um todo: eu sou o coordenador, mas há muito mais pessoas aqui a trabalhar no dia-a-dia e esta questão de trabalharmos em equipa reparte o mal e o bem por todos. Em termos de Justiça, estamos a lidar com casos prescritos, mas se surgirem situações recentes, em que estejam envolvidos menores, compete-nos apenas sinalizar o que há a sinalizar para quem de direito, ou seja, ao Ministério Público.

O que foi mais difícil de enfrentar na altura do processo Casa Pia?

Desde logo a violência que foi exercida em termos de abusos sobre aqueles menores. Depois, a profundidade e a extensão dos abusos. Viemos todos a perceber que, do ponto de vista institucional, as coisas duravam há décadas. Depois, os nomes que foram apontados pelas vítimas e as suas ramificações. E à medida que as coisas foram andando, chocou-me, claro, a interferência entre poder político e o poder judicial. Viu-se que o poder judicial não é autónomo do poder político e ainda não é.

Manteve o contacto com as vítimas?

Não. Mas ainda há pouco tempo fui surpreendido por um desses rapazes no meu consultório. Como vinha de máscara, não o reconheci. Como procedo habitualmente, primeiro vejo a criança e só depois falo com os pais. Quando chegou a sua vez, ele percebeu que não o reconheci e baixou a máscara. Aí, vi logo quem era. Disse-me uma frase que me tocou bastante: «Lembra-se, eu sempre lhe disse que ia continuar a ouvir falar de mim?».

O que queria ele dizer com isso?

Que havíamos de nos reencontrar numa situação completamente diferente, em que ele estaria com a sua história muito mais apaziguada: agora ele era pai e estava preocupado com outra criança que era a sua. 

Achou-o bem?

O estar bem é sempre relativo. Mas há uns indicadores que são sempre positivos. Tem uma vida estável, emprego, uma família, é autónomo, mantém uma relação com uma rapariga de há anos e tem dois filhos que me pareceu que trata com afeto e carinho, o que, em termos de evolução, é indicativo.

Como é que reage hoje quando os arguidos ainda dizem que é um dos responsáveis pela ‘cabala’ e que destruiu a vida de muita gente?

Coitado de mim, não me dou essa importância. É sempre uma confusão que as pessoas fazem e que é bastante injusta. Quem deduz acusações e faz arguidos ou condenados é o sistema judicial, não é o médico ou o psicólogo, nem os profissionais de medicina legal que observaram aqueles miúdos.

A Casa Pia dividiu a sociedade portuguesa. Como sempre, as classes defendem-se e há ainda muita gente que ainda proclama a inocência de algumas destas pessoas, incluindo os que foram condenados. O facto de existirem figuras públicas, políticas, envolvidas no processo contribuiu para isso. Acha que vai acontecer o mesmo em relação à Igreja ou, pelo contrário, esses mesmos setores que fizeram a defesa cega dessas pessoas terão mais facilidade em a condenar?

É difícil de prever, mas acho que também pode acontecer. Trata-se de uma entidade com muito peso na sociedade e, como tal, que pode vir a ser atacada. Não sabemos. Mas a comissão também pode vir a ser visada como aconteceu na Casa Pia. Porque há pessoas, com as mesmas crenças religiosas, que estão nos diversos espetros partidários. Os processos são sempre os mesmos. Na Casa Pia, começaram por desacreditar as vítimas, depois a equipa e os investigadores. Tentaram desmantelar por etapas tudo aquilo que era uma evidência.

Receia, então, que estas vítimas também possam vir a ser descredibilizadas?

Podem vir a ser usados os mesmos argumentos: como é que sabemos que estes depoimentos são verdadeiros? Como é que sabem que as pessoas não estão só a preencher inquéritos por preencher, etc. Mas o que nós sentimos, até no inquérito online, é o imenso sofrimento que aquelas pessoas transportam. E, no entanto, haverá sempre quem diga ‘mas as pessoas se calhar até estão a fingir esse sofrimento’, ou porque estão zangadas com o mundo ou com a própria igreja, e usa-se isso como argumentação. Por isso, não me espanta se isso se repetir. E até pode ser que não. Felizmente, as sociedades também evoluem... (risos) Veremos.

As vítimas de abusos sexuais, normalmente, não falam por vergonha, medo e também por receio de virem a ser descredibilizadas como aconteceu na Casa Pia. As pessoas que têm dado o seu testemunho têm mostrado esse receio?

Neste processo dos abusos sexuais na Igreja Católica há muitos adultos que ainda dizem que não falaram porque achavam que ninguém ia acreditar. E há muitos que dizem que, quando falaram, houve pessoas, e até pessoas próximas, que ou não acreditaram ou aconselharam-nas a calar-se. Ouvimos uma pessoa com 50 anos que nos disse que nunca falou dos abusos com ninguém. Agora, até deu autorização para divulgar o seu testemunho. E não é o único.

A maioria das vítimas são homens ou mulheres?

Se tivéssemos tido esta conversa há três semanas dir-lhe-ia que, pelo número de pessoas que responderam ao inquérito online e as pessoas que optaram por serem ouvidas presencialmente, os casos estavam mais ou menos equiparados. Neste momento, os homens ganham vantagem. Estamos muito no início e é normal que aconteçam estas oscilações. Vamos ver como vai evoluir e que leituras são possíveis de extrair desses dados.

Estes casos acontecem mais nas grandes cidades ou fora dos meios urbanos?

Fora das grandes cidades. Mas ainda não tivemos tempo de fazer uma análise aprofundada e esse estudo vai ser muito interessante.

Até aqui, tem-se falado muito de vítimas de sacerdotes ou de leigos que trabalham em instituições ligadas à igreja. Não há religiosas entre os abusadores?

Sim, também temos vítimas abusadas por religiosas.

Estes predadores sexuais têm abalado, por todo o mundo, os alicerces da Igreja. Só em França existem mais de 300 mil vítimas. Em que locais ocorrem estes abusos para que ninguém dê por isso?

A maioria destes abusos foi efetuada no espaço físico da igreja. Também há muitos casos nos seminários, em instituições, religiosas e espaços de férias. Houve um caso recente que me impressionou: uma das vítimas contou que, durante uma viagem, ficou com mais dois rapazes num dormitório e ele foi o primeiro a ser chamado ao quarto do padre. Nas noites seguintes, foram os colegas. E ele teve de consolar o choro do mais pequeno quando regressou. Contou a sua história para que estes casos não se voltem a repetir, para que o filho dele não passe pelo mesmo.

Como é que estas pessoas conseguem silenciar as crianças?

Porque a maior parte das vezes as vítimas já conhecem o abusador que não é propriamente o lobo mau que vai atrás do capuchinho. São pessoas em quem têm confiança e com quem criaram empatia. Mesmo quando tentam fugir, não conseguem, devido à culpa e à vergonha dessa situação. E os abusos vão-se repetindo porque a criança não se consegue defender e aí temos de voltar a noções muito antigas, até da própria psicologia e psiquiatria, porque uma das coisas já identificadas é a paralisia física e psíquica numa situação dessas.

Como é que isso se explica a um cidadão comum?

Por exemplo, um miúdo que é um acólito e que foi abusado: à partida, não quererá voltar à igreja na semana seguinte. Mas como explicará ele aos pais essa falta? Não consegue. Volta e vai-se repetir o mesmo.

E há ameaças?

As piores forças de coação são mesmo as internas. Mais do que as ameaças físicas são as ameaças emocionais, o medo e a vergonha. Ou o abusador inverte os papéis e diz à vítima ‘se fores contar isto, vou contar aos teus pais o que tu me fizeste’, como se a criança fosse a culpada. É um ataque à estrutura da criança enquanto vítima.

Há situações de violência física?

Há casos, sim. Mas coisas sádicas, no contexto do abuso.

O período histórico estabelecido para o trabalho da comissão abarca casos que vão de 1950 até aos dias de hoje. As queixas recebidas até agora preenchem todo esse período?

Sim e temos até um caso de 1933. O mais recente é de 2006, trata-se de um rapaz com 16 anos. Este jovem fez questão de ser ouvido presencialmente.

O caso dele não se encontra prescrito. A comissão já denunciou casos ao Ministério Público?

Sim, mas não tem nada a ver com uma notícia do Correio da Manhã que implica um padre de Bucelas. O que não era normal era ficarmos quietos.

Se no decorrer do vosso trabalho, apesar de os crimes estarem prescritos em relação a uma determinada pessoa, se ela ainda estiver ao serviço da Igreja, qual será o vosso procedimento?

Temos de comunicar o caso ao MP. Porque o facto de um crime poder estar prescrito não significa que a pessoa referenciada não esteja a repetir os mesmos crimes. Não somos ingénuos, com alta probabilidade será mesmo o que está a acontecer.

A comissão já denunciou casos ao MP? 

Sim. Não seria normal estarmos quietos. Há até um caso de um seminarista, hoje padre, que denunciou outro sacerdote que o abusou.

Se as vítimas fizerem referência a outras que tenham sido suas contemporâneas, a comissão segue-lhes o rasto ou, como não tem competências de polícia, essa não é a sua missão? 

Vamos investigar. Pode haver vítimas que digam, por exemplo, que têm a certeza de que todos os colegas de um dormitório foram abusados, ou quem diga que todas as meninas daquele grupo da catequese foram vítimas, vamos tentar perceber até onde chegaram os abusos. Se bem que, para mim e para os outros membros da comissão, é cada vez mais nítido que este trabalho vai ser uma porta de entrada para outros trabalhos que vão ter de lhe suceder. É muito semelhante àquelas caixinhas com as matrioskas: abre-se uma e está lá dentro outra e por aí adiante. 

Não vão ter tempo para todo esse trabalho, pois ficou estipulado que a comissão apresentaria resultados ao fim de um ano. Ou esse timing pode ser alargado?

Eu disse logo à CEP que poderia precisar de mais tempo. Mas achei que o prazo deveria ser curto para que isso fosse um fator mobilizador, ou seja, para que as pessoas não pensassem ‘tenho tempo para contar a minha história’ e iam adiando. Não queremos ser como certas comissões que levam anos a investigar e acabam por não produzir nada. 

Numa entrevista recente, disse que as vítimas procuram mais desabafar do que responsabilizar criminalmente alguém. Mas de certeza que há pessoas que não abdicam disso, como se tem visto noutros países.

Com certeza que temos casos semelhantes. Mas o que predomina até este momento é uma necessidade das vítimas de que alguém as reconheça como tal e de que acreditem nelas. É mais a necessidade de falar do que procurar alguém que as ajude a processar criminalmente essa pessoa. Parece que somos todos...

Bonzinhos?

Sim! Mas, de facto, há razões que favorecem este comportamento. Por um lado, passou muito tempo e, mal ou bem, as pessoas integraram a situação de uma maneira passiva. Depois, porque como durante décadas omitiram isso da família, dos amigos, no seu trabalho, não querem agora expor-se publicamente. Não podemos esquecer que há muitas pessoas que estão a contar isto pela primeira vez mesmo.

O que fazem hoje essas pessoas?

Já conseguimos dizer que há muita gente que tem uma qualificação académica superior – que permite uma análise interessante porque é um tipo de crime que sempre associamos a classes sociais mais desfavorecidas. Pelo menos até agora a maioria das respostas chegam ou por correio eletrónico ou inquérito online. Por isso, agora estamos a sensibilizar as câmaras locais e rádios para podermos chegar a pessoas que possam não utilizar este tipo de meios e que queiram também dar o seu testemunho.

Com os dados que recolheram até ao momento, já é possível fazer uma leitura histórica do que aconteceu no seio da Igreja?

Acho que há análises que já se conseguem esboçar. As crianças hoje, com a educação sexual na escola, têm outra noção dos abusos e defendem-se melhor. Antigamente, e isso também surgiu na Casa Pia, havia práticas que os miúdos não consideravam abuso. Por outro lado, após o 25 de abril, com as melhorias económicas, sociais e culturais, quem vai para o seminário já não são os filhos dos pobres que ali encontravam a única forma de terem acesso à educação e a comida na mesa, vai-se mais por vocação. E isso pode ter mudado o cenário radicalmente. A pobreza sempre atraiu pedófilos e as classes mais desfavorecidas não podem recorrer a causídicos peritos em expedientes dilatórios. Há 50 anos, o cenário deveria ser muito parecido ao descrito na Manhã Submersa de Vergílio Ferreira. Há relatos variados dessa época. A pobreza era imensa, havia um padre que se oferecia para ajudar miúdos pobres a entrarem no seminário, obrigando-os a determinadas práticas. Mas também temos padres que denunciam outros.

Há pouco disse que os danos provocados por estes abusos, por oposição aos menores que acompanhou na Casa Pia, são impossíveis de reparar. Como é que isso se refletiu nas suas vidas?

As pessoas em geral falam do impacto psicológico que isto teve sobre elas, dos estragos na sua vida afetiva e sexual e, nalguns casos, com a sociedade e com a Igreja em particular. Há pessoas que se zangaram definitivamente com a Igreja e deixaram de acreditar nela. 

A Igreja francesa já tornou público que pretende indemnizar as vítimas, independentemente de os crimes estarem prescritos ou não. No final do estudo da comissão, esta pode ser uma das vossas recomendações?

Não pensamos nisso. E tenho receio que surja a crítica de que as pessoas estão a dar depoimentos porque querem é ganhar algum dinheiro com isso – e isso não é verdade. 

A comissão, apenas uma semana depois do início dos seus trabalhos, tornou público que validara 102 testemunhos. Isso não é uma forma de lançar a Igreja para a fogueira e deixá-la a arder em lume brando até ao final do estudo?

Fizemos isso porque percebemos que as pessoas necessitavam de sentir que não estão sozinhas. E isso foi muito motivador porque nós, no início, estávamos muito hesitantes em falar de números. Para os elementos da comissão interessa mais a história das pessoas do que cálculos e percentagens, ou seja, não estamos a trabalhar para um número. O que é muito e o que é pouco? E, mais do que isso, o que é que isso representa em termos de sofrimento de cada uma dessas pessoas? A Igreja portuguesa partiu atrasada para isto. As instruções do Papa Francisco já tem três ou quatro anos. Em França, a comissão independente partiu para o terreno em 2018. Partiu atrasada, mas partiu – e isso já é bom. Em Espanha foi pior e está a ser muito difícil, pois a Igreja espanhola continua em negação. 

Se houvesse agora uma mudança de Papa, acha que o trabalho das comissões independentes se manteria?
Acho que ia ser muito difícil voltar para trás. A maior parte dos cardeais que hoje votariam em Concílio já foi eleita por este Papa. Regredir seria um ato suicida para a Igreja e acho impossível que venha a acontecer.

Tem lidado com histórias horríveis, com o lado mais obscuro do ser humano. Como é que limpa a cabeça de todo esta miséria humana e mantém a sanidade mental?

No processo Casa Pia, tive de fazer terapia uma vez por semana. Por enquanto, de uma forma formal, ainda não foi preciso, mas falo bastante com pessoas da área porque isso ajuda bastante. Pessoas que têm de fazer um esforço muito intenso têm de ter uma preparação física diferente. Nós temos de ter um suporte mental autónomo ou exterior para nos aguentarmos sãos no meio de tanta insanidade. 

 

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