Sociedade

Corrida ao iodo já chegou às farmácias portuguesas e há pouca informação

Farmacêuticos relatam aumento de pedidos. Infarmed não esclarece se existe reserva. 


Os receios em torno da ameaça nuclear a Leste já se fazem sentir nas farmácias portuguesas. Esta sexta-feira vários farmacêuticos relataram nas redes sociais os pedidos que estavam a receber ao balcão, mostrando a falta de informação quer dos utentes quer nas próprias farmácias perante a corrida a comprimidos de iodo que se está a sentir por toda a Europa, com os stocks a esgotar. «Cinco atendimentos assim, até que expliquei que não se sabe em que dosagem, não se sabe se não fará mais mal do que bem», resumia um farmacêutico.

Em causa, a indicação para a toma de iodeto de potássio numa situação de exposição a radiação nuclear, o que médicos ouvidos pelo Nascer do SOL explicam que só deve ser feito numa situação de risco iminente de exposição e não a título preventivo. E sempre por indicação explícita das autoridades de saúde, até pelo risco para doentes  com hipertiroidismo, estranhando-se a ausência de informação clara por parte das autoridades perante esta situação.

Trata-se de um medicamento que sobrecarregando a tiroide de iodo, minimiza o risco de absorção de iodo radioativo. Em Portugal os comprimidos de iodo comercializados mediante receita médica e não são de resto vendidos nas dosagens indicadas para uma situação desse género mas em doses inferiores, explicou ao Nascer do SOL um especialista nesta área, já que aos adultos está recomendada uma dosagem de 130 mg por dia de exposição a radiação (ou dois comprimidos de 65 mg) e às crianças de 60 mg, sendo inferior para as crianças mais pequenas e as dosagens a venda são de microgramas, o que implicaria manipulação e capitação para isso.

Luís Cunha, diretor técnico da Farmácia Duque de Ávila, no centro de Lisboa, confirma ao Nascer do SOL o aumento da procura de comprimidos de iodo, com mais de uma dezena de atendimentos, a que a resposta tem sido de que o medicamento não é dispensado sem receita, já tendo atendido um utente com prescrição. «As pessoas chegam com receio e não sabem que é preciso receita ou como se utiliza», explica.

Não sendo pedidos comuns nas farmácias, os stocks não são elevados e nos fornecedores a indicação já era ontem de indisponibilidade. O Nascer do SOL questionou o Infarmed sobre este aumento de procura e se existe stock na reserva estratégica de medicamentos e dispositivos, tendo o regulador respondido que até à data «não se verificou um aumento da prescrição/dispensa de medicamentos contendo iodeto de potássio». O Infarmed reforçou que estes medicamentos  apenas podem ser dispensados mediante prescrição, não esclarecendo se existe ou não iodo na reserva nacional estratégica. Também questionada, a Direção Geral da Saúde não respondeu se vai ser emitida alguma norma de atuação ou esclarecimento.

A Bélgica, com centrais nucleares e onde os comprimidos de iodo são de entrega gratuita nas farmácias desde 2018, é um dos países onde se regista uma procura elevada, com mais de 30 mil embalagens levantadas, mas a agência nuclear já advertiu para o risco de toma sem indicação. Também o ministro alemão do Ambiente e Segurança Nuclear esclareceu ontem que os suplementos podem ser úteis num raio de até 100 quilómetros de uma central nuclear, mas só tomados imediatamente antes ou depois do contacto com iodo radioativo. 

No caso de danos num reator na Ucrânia, o risco de exposição em Portugal é reduzido, não sendo conhecidos os planos das autoridades numa situação de um acidente de maiores proporções ou conflito nuclear. No passado já tinha havido apelos à disponibilização de iodo às populações que vivem mais perto da central de Almaraz, a 100 quilómetros da fronteira portuguesa. 

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