Fome no Iémen pode agravar-se por 30% do trigo vir da Ucrânia

A “guerra na Ucrânia levará a choques nas importações, aumentando ainda mais o preço dos alimentos”, lê-se no relatório do PMA.

Aproximadamente 16,2 milhões de pessoas, mais de 50% da população do Iémen, vive em insegurança alimentar. Destes, 47 mil vivem com fome, sendo que “o acesso limitado aos alimentos é agravado por vários fatores, incluindo o conflito em curso, os efeitos dos baixos rendimentos, a depreciação da moeda iemenita”, a incerteza de acesso aos portos do Mar Vermelho, a existência de famílias numerosas, desemprego elevado e irregularidade no pagamento dos salários.

Esta era a realidade, segundo um relatório do Programa Alimentar Mundial (PMA), em janeiro. Volvidos dois meses, a Organização das Nações Unidas (ONU) noticiou que “a crise de fome no Iémen está à beira de uma condição catastrófica”. De acordo com uma análise feita por várias agências da ONU, “atualmente, 17,4 milhões de pessoas no país dependem de assistência alimentar, mas a situação poderá piorar entre junho e dezembro”.

No que diz respeito ao segundo semestre do ano corrente, a organização internacional – juntamente com estruturas como a Unicef – prevê que 19 milhões não tenham nada para comer e que “até ao fim do ano, é possível que 7,3 milhões de iemenitas caiam num nível emergencial de fome”.

O impacto da invasão da Ucrânia A desnutrição infantil atinge níveis cada vez mais preocupantes, pois atinge 2,2 milhões de menores de cinco anos, “sendo que a desnutrição aguda severa, que pode levar à morte, é confirmada em quase um milhão de crianças”. Por outro lado, 1,3 milhão de grávidas e lactantes também enfrentam esta escassa ingestão de nutrientes.

O coordenador humanitário da ONU no país, David Gressly, avançou que se afigura essencial encontrar uma “resposta para milhões de pessoas, não só na parte nutricional, mas também para que a população tenha água potável, proteção e saúde”, acrescentando que as partes do conflito – os separatistas do sul e as forças leais ao governo de Abd Rabbuh Mansur Hadi, com sede em Áden que se opõem aos Houthis e às forças leais ao ex-presidente Ali Abdullah Saleh – devem levantar todas as restrições para que a população não sofra devido às sanções. 

Este conflito teve início a 19 de março de 2015 e, sete anos depois, os contornos do mesmo podem ficar mais negros devido à invasão da Ucrânia pela Rússia. No relatório, lê-se que a “guerra na Ucrânia levará a choques nas importações, aumentando ainda mais o preço dos alimentos, sendo que o Iémen depende quase completamente de importações de comida, com 30% do trigo proveniente da Ucrânia”. 

Relativamente aos “níveis catastróficos de fome”, a ONU estima que o total subirá de 31 mil para 161 mil civis a partir de junho. O diretor-executivo do PMA, David Beasley, esclareceu que se o país não tiver qualquer financiamento, “haverá fome em massa”, mas se forem tomadas medidas agora, será possível “evitar um desastre e salvar milhões de pessoas”. 

O PMA, em dezembro do ano passado, reduziu as porções servidas nas refeições para 8 milhões de pessoas devido à falta de fundos, tanto que muitas famílias recebem quase metade do tamanho padrão da cesta básica entregue pela agência.

Em abril de 2017, a ONU asseverava que “2,5 milhões de habitantes que correm maior risco de fome” seriam “beneficiados com uma cesta básica mensal” que cobriria “100% das necessidades alimentares” destes agregados familiares.