Opiniao

Não é o que temos. É o que nos distingue

Viseu: o que nos distingue? Aquilo que nos deve distinguir: a experiência. Porque na verdade já não ‘vendemos’ património pelo património.  Nem vinho pelo vinho. Nem beleza natural pela beleza natural. ‘Vendemos’ experiências

Não é o que temos. É o que nos distingue

por Fernando Ruas
Presidente da Câmara Municipal de Viseu

Muitas vezes, quando discutimos a questão do turismo em Viseu, discutimos, o que temos para oferecer. E a conversa invariavelmente passa pelo património, pela gastronomia, pelas belezas naturais ou pela tradição vitivinícola.

Mas mais do que discutir o que ‘temos’ devíamos discutir o que nos distingue. Verdade tão aplicável à realidade de Viseu como à realidade do país. Cada vez mais, aliás. E é um erro deixar que o nosso apego às ‘nossas coisas’ nos tolde a visão.

Podemos olhar para o património edificado. Mas a verdade é que existem outras regiões e outros concelhos com património edificado.

Podemos olhar para a gastronomia. Mas há outras regiões do país a louvar a sua própria gastronomia e a fazer da gastronomia um eixo estratégico dos seus planos promocionais.

Podemos olhar para a beleza natural da nossa terra. Mas pergunto se há alguma região que não o faça.

Podemos até enfatizar a produção vitivinícola. Mas há outros a fazê-lo. Com igual propriedade, mas, provavelmente, com mais recursos.

O que nos distingue então? Aquilo que nos deve distinguir: a experiência. Porque na verdade já não ‘vendemos’ património pelo património.  Nem vinho pelo vinho. Nem beleza natural pela beleza natural. ‘Vendemos’ experiências. Do hotel onde ficamos, ao museu que visitamos passando pelo restaurante onde jantamos. Esta ideia de experiência não é só uma preocupação mais local, é uma tendência cada vez mais transversal e cada vez mais global. É, verdadeiramente, o que distingue um destino do outro, uma oferta da outra. E também deve ser a nossa característica distintiva. A grande aposta para uma região como o Dão/Lafões. Sabendo de antemão que seguir este caminho é aumentar o nível de exigência para todos os intervenientes.

Em primeiro lugar porque exige uma política colaborativa entre as diferentes entidades públicas. Assumir uma promoção conjunta, mas também assumir que a nossa oferta pode e deve ser complementar. Pode e deve ser pensada como um todo.

Em segundo lugar porque exige capacidade de resposta dos nossos serviços públicos nas mais diferentes áreas. A aposta no turismo significa sempre uma carga assimétrica nos serviços públicos. Dos postos de turismo aos transportes passando pelos serviços de limpeza.

Em terceiro lugar porque exige uma capacidade reforçada dos nossos empresários e empreendedores. Capacidade de oferecer mais do que produtos e serviços. Trata-se de oferecer experiências. E qualidade. Muitas vezes complementando e acrescentando a iniciativas existentes.

Não é por acaso que encontramos em Viseu um destes exemplos de experiência e de excelência. Refiro-me à antiquíssima e moderníssima Feira de São Mateus – que regressa este ano depois da pandemia. A Feira de São Mateus está longe de ser apenas um certame ou mais um evento. Distingue-se pela sua história, pela sua autenticidade e pela capacidade que tem de envolver diferentes entidades, promotores privados e até instituições. Por outras palavras, distingue-se pela experiência que oferece. Uma experiência genuína.

E sobre isso importa desfazer equívocos. É esta genuinidade que, todos os anos, atrai milhões de visitantes a uma das mais antigas Feiras Francas de toda a Europa. Alterar a sua natureza seria comprometer o valor intrínseco da experiência. É também esta genuinidade que nos permite sonhar em ir mais além da nossa região. Permite pensar, com realismo, nos milhões de potenciais visitantes que, do outro lado da fronteira, estão a menos de uma hora de viagem de Viseu. E uma hora, duas horas de viagem, é imenso para um português. Mas não é nada para a escala europeia onde estamos inseridos. E há temas em que é necessário ‘pensar em grande’. Este é um deles.

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