Mariana e mais 8 mulheres

Nove mulheres e oito homens são as escolhas de António Costa para o próximo Governo, que, desta forma e contando com o primeiro-ministro, será absolutamente paritário, pela primeira vez na história da democracia portuguesa. Mariana Vieira da Silva será a número dois do Governo, cabendo-lhe substituir António Costa nas suas ausências (tal como, aliás, aconteceu…

Mariana e mais 8 mulheres

Presidência
Mariana Vieira da Silva

É um dos nomes que se posiciona no futuro do PS e sempre na órbita do líder. Mariana Vieira da Silva começou como secretária de Estado Adjunta do primeiro-ministro, foi promovida a ministra de Estado e da Presidência e aí se mantém. Agora reforçada como superministra, acumulando o Planeamento, a coordenação política do Governo e a Administração Pública. Socióloga, filha do antigo ministro José Vieira da Silva, foi como assessora de Maria de Lurdes Rodrigues, ministra da Educação do primeiro Executivo de José Sócrates que debutou na política. Braço direito de António Costa, foi uma das coordenadoras do programa eleitoral do PS nestas legislativas, autora e porta-voz da moção de estratégia global do secretário-geral no último Congresso do PS.

Negócios Estrangeiros
João Gomes Cravinho

João Gomes Cravinho troca a pasta da Defesa pela dos Negócios Estrangeiros, muito por força da oposição do Presidente da República à sua continuidade à frente da reforma das Forças Armadas. Sai da Defesa mas não do Governo. António Costa fez a vontade a Marcelo Rebelo de Sousa mas optou por promovê-lo no Executivo. Filho de João Cardona Gomes Cravinho, antigo ministro do Equipamento, Planeamento e Administração do Território no XIII Governo Constitucional, João Gomes Cravinho conhece bem as Necessidades. Diplomata e professor universitário na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra,  regressa a uma casa onde já foi secretário de Estado (dos Negócios Estrangeiros e Cooperação), no XVII e no XVIII Governos Constitucionais, entre 2005 e 2011.

Finanças
Fernando Medina

O derrotado das últimas eleições autárquicas foi ‘premiado’ com a pasta das Finanças. Fernando Medina, o nome escolhido por António Costa para suceder a João Leão, não terá uma tarefa fácil: entra numa altura de desafios, como é o caso da guerra na Ucrânia, a normalização da política monetária, a dívida elevada e a inflação a acelerar. Tem um perfil mais político do que técnico, ao contrário de Centeno e de Leão, o novo ministro, que já tem experiência governamental no currículo, terá como primeira tarefa a elaboração e entrega da proposta do Orçamento do Estado para 2022. Para já, garantiu que a descida de impostos em sede de IRS não será esquecida, garantindo que este compromisso político do programa eleitoral do PS fará parte já do próximo Orçamento.

Assuntos Parlamentares
Ana Catarina Mendes

Ana Catarina Mendes é a nova ministra Adjunta e dos Assuntos Parlamentares, chegando finalmente ao Governo depois de quatro importantes anos como líder da bancada socialista na Assembleia da República e de uma longa carreira na política portuguesa. A ministra terá, agora, de equilibrar a responsabilidade pela coordenação entre Executivo, grupo parlamentar e partido. Há quem aponte o nome de Ana Catarina Mendes à sucessão na liderança do Partido Socialista, mal chegue o dia da saída de António Costa. Dela, e de vários outros ministros, aliás. A agora ministra conta uma larga carreira na política e no PS, sendo deputada eleita há 27 anos consecutivos. O percurso começou na ‘jota’ socialista, e, dentro do partido, foi secretária-geral adjunta entre 2015 e 2019.

Economia e Mar
António Costa Silva

António Costa Silva é o rosto do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) – ou também chamado ‘pai da bazuca’ – português e assume agora um cargo de importância vital no Governo. Numa altura em que o país está obrigado ao crescimento económico, o ex-gestor da Partex é uma estreia no Executivo e assume a pasta da Economia e do Mar, substituindo Pedro Siza Vieira. Apesar de ter vasta experiência em empresas, não se lhe conhece qualquer experiência política. Nasceu em 1952, em Angola. Aos 28 anos, entrou para a petrolífera Sonangol, começando a trabalhar, quatro anos depois, com a Companhia Portuguesa de Serviços. Esteve também na Compagnie Générale de Geophysique (CGG) em Lisboa e depois mudou-se para o Instituto Francês do Petróleo (IFP). Foi gestor da petrolífera Partex, da Gulbenkian.

Defesa
Helena Carreiras

Helena Carreiras sucede agora a João Gomes Cravinho, numa dupla estreia: é a primeira mulher a ficar à frente da Defesa Nacional e é também a primeira vez que integra um Governo. Sem experiência nas lides políticas, é especialista em sociologia militar e professora associada no ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, nas áreas da Sociologia, Políticas Públicas, Segurança e Defesa. Entre 2017 e 2019, foi presidente da European Research Group on Military and Society, tendo também integrado o Conselho do Ensino Superior Militar de 2011 a 2012. Atualmente, é diretora do Instituto de Defesa Nacional (IDN), mas na legislatura que se inicia terá  pela frente a árdua tarefa de gerir a pasta a par do ressurgimento de uma guerra na Europa e da preparação do contributo português na NATO.

Administração Interna
José Luís Carneiro

José Luís Carneiro, formado em Relações Internacionais, regressa ao Governo, mas pela primeira vez como ministro. E numa pasta recheada de polémicas e onde nem sempre é fácil manter os governantes por legislaturas inteiras. Apesar disso, a Administração Interna não lhe é totalmente estranha. Entre 1999 e 2000, chegou a ser assessor no gabinete do secretário de Estado Adjunto do Ministro da Administração Interna,  então Carlos Zorrinho. Já entre 2015 e 2019, foi secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, tendo abandonado o cargo para dar mais atenção ao PS, como secretário-geral ajunto, a pedido de António Costa. Curiosamente, é um reconvertido ao ‘costismo’, já que Carneiro nunca escondeu a afinidade com o ex-líder socialista António José Seguro.

Justiça
Catarina Sarmento e Castro

O Ministério da Justiça ficou órfão de Francisca Van Dunem, que se jubila como conselheira do STJ, e para o seu lugar vai Catarina Sarmento e Castro, a quem a política – e o socialismo – corre nas veias. Afinal de contas, o seu pai,  Osvaldo de Castro, foi deputado à Assembleia da República pelo PS, entre a VII e a XI Legislaturas (tal como na I, e na II, mas nesta com as cores do PCP). Catarina Sarmento e Castro é uma cara conhecida do Tribunal Constitucional, onde foi juíza conselheira de 2010 a 2019 – isto depois de à primeira tentativa ter sido chumbada pelo Parlamento –, algo inédito em democracia. Em 2019, passou a ocupar o cargo de secretária de Estado de Recursos Humanos e Antigos Combatentes do XXII Governo Constitucional de Portugal. Agora, sobe a ministra.

Cultura
Pedro Adão e Silva

Pedro Adão e Silva é, talvez, um dos ministros mais polémicos do novo Executivo. Não porque conte na sua biografia algum elemento que tenha causado crítica social forte, mas sim porque foi alvo de contestação aquando da sua nomeação para coordenador da comissão encarregue de organizar as comemorações dos 50 anos do 25 de Abril. Com a nomeação para o Gabinete de Costa, Adão e Silva acabou por abandonar o cargo de comissário, mas isso não impediu que a sua nomeação para o Ministério da Cultura tenha feito muita gente torcer o nariz. Adão e Silva é conhecido dos portugueses através da televisão, onde faz, frequentemente, comentário político. É professor universitário no ISCTE, desde 2007, e foi militante do PS desde os 18 anos mas saiu quando Ferro Rodrigues deixou a liderança do partido, em 2004.

Ciência e Ensino Superior
Elvira Fortunato

Foi prémio Pessoa 2020, é uma das investigadoras portuguesas mais reconhecidas a nível internacional,  com um contributo de destaque na área da eletrónica de papel, e agora será ministra independente no Governo de maioria absoluta do PS. Licenciada em Engenharia dos Materiais pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa e doutorada em Microeletrónica na mesma instituição de ensino superior onde se mantém como professora catedrática e investigadora, irá assumir a pasta da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. Inicialmente mais chegada a personalidades do PSD, como Cavaco Silva ou Carlos Moedas, Elvira Fortunato aproximou-se nos últimos meses do PS, tendo participado no Fórum Nacional dos socialistas como oradora.

Educação
João Costa

João Costa já conhecia os corredores do Executivo de António Costa, mas agora passará de secretário de Estado da Educação – cargo que ocupou nos XXI e XXII Governos Constitucionais – para ministro da mesma pasta. Doutorado em Linguística em 1998, na Universidade de Leiden, na Holanda, João Costa é professor catedrático de Linguística na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, tendo sido diretor desta mesma faculdade entre 2012 e 2015. Costa é escuteiro – como diz que sempre o foi e sempre o será. Com ele vêm acoplados os valores do escutismo – incluindo a ligação à Igreja Católica. A Educação corre-lhe no sangue e há anos que se dedica ao setor, com especial ênfase em temas como a inclusão e o ensino especial.

Trabalho, Solidariedade e SS
Ana Mendes Godinho

Ana Mendes Godinho entrou no Governo em 2015 pela mão de António Costa para defender e trabalhar o turismo nacional. Mas, em 2019, com a mudança da legislatura, António Costa trocou-lhe as voltas e Ana Mendes Godinho passa de secretária de Estado do Turismo para ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, cargo no qual agora é reconduzida. Pela frente, a jurista enfrentou uma pandemia e, agora, uma guerra. Foi e continua a ser um dos principais rostos dos apoios às empresas e as famílias portuguesas. E ganhou créditos sobretudo no combate ao desemprego (começou mal, mas acabou bem). No currículo conta com passagens pelo Governo de José Sócrates, pelo Turismo de Portugal, pelo Conselho Geral do Fundo Imobiliário Especial de Apoio às Empresas, entre outros.

Saúde
Marta Temido

Marta Alexandra Fartura Braga Temido de Almeida Simões foi a cara do Governo português no combate à pandemia… e continuará a sê-lo. Com resiliência, a ministra perdurou ao longo de toda a legislatura e perdurará ao comando do Ministério da Saúde neste novo ciclo político. Este será, aliás, o seu terceiro mandato nesta pasta. É de esquerda, sem tirar nem pôr, e gosta de ouvir o hino da CGTP-IN (Internacional Socialista) quando está irritada. Marta Temido conta um variado background académico. É doutorada em Saúde Internacional, pelo Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade de Lisboa, e tem um Mestrado em Gestão e Economia da Saúde, da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. A mesma universidade onde completou uma licenciatura em Direito.

Ambiente e Ação Climática

Duarte Cordeiro

Duarte Cordeiro foi ganhando traquejo político, desde a JS_mas sobretudo a partir da sua experiência autárquica em Lisboa, quando tinha a tutela dos pelouros da Economia e Inovação, Smart Cities, Espaço Público, Desporto e Higiene Urbana. Chegou a um Governo pela primeira vez no início de 2019, para substituir Pedro Nuno Santos – com quem mantém uma amizade e ligações políticas de longa data – enquanto secretário de Estado Adjunto e dos Assuntos Parlamentares, tendo estado nos bastidores  das negociações com o BE e o PCP no final da ‘geringonça’. Premiado pela sua eficácia na conquista da maioria absoluta enquanto diretor de campanha de António Costa, o antigo líder da JS chega agora a ministro e com uma pasta cheia de desafios: o Ambiente.

Infraestruturas e Habitação
Pedro Nuno Santos

Numa altura em que o plano de reestruturação da TAP ainda continua a dar que falar, Pedro Nuno Santos mantém-se no Ministério das Infraestruturas e Habitação, pasta que assumiu em 2019, depois de ter passado pela secretaria de Estado dos Assuntos Parlamentares. Mas não é só a TAP que está nas suas mãos. Conta ainda com a localização do novo aeroporto de Lisboa (no Montijo) ou o Programa de Investimentos na Expansão e Modernização da Rede Ferroviária Nacional – Ferrovia 2020. Pedro Nuno Santos é licenciado em Economia pelo ISEG, passou pela JS, pela Federação de Aveiro do PS e foi ainda vice-presidente do grupo parlamentar do PS, além de coordenador dos deputados do PS na Comissão de Economia e na Comissão Parlamentar de Inquérito ao caso BES.

Coesão Territorial
Ana Abrunhosa

Reconduzida no cargo, Ana Abrunhosa vai continuar a gerir uma fatia dos fundos europeus e os programas regionais, mas ganha uma competência: a Administração Local e o Ordenamento do Território. Uma tarefa onde já deu cartas, uma vez que antes de ir  para o Governo era o rosto CCDR Centro. Em entrevista ao Nascer do SOL, garantiu que sempre tentou «fazer um trabalho de grande proximidade, de grande diálogo, de presença no terreno, para conhecer os problemas, conhecer os atores, gerar confiança». A forma como lidou com a reconstrução das casas destruídas pelos incêndios de 2017 mostrou a sua capacidade de trabalho e dedicação. «Guardo memórias muito dolorosas. Guardo, inclusivamente, cheiros que nunca esquecerei», disse.

Agricultura e Alimentação
Maria do Céu Antunes

Maria do Céu Antunes vai manter-se na pasta da Agricultura. No entanto, ganha novas funções: as Pescas, que até aqui estavam na tutela do Ministério do Mar, entretanto extinto. Apesar de ter fechado no anterior mandato, a reforma da PAC durante a Presidência Portuguesa do Conselho da União Europeia e a forma como conduziu o Plano Estratégico da PAC (PEPAC) têm sido alvo de críticas no setor, tendo a CAP chegado mesmo a recusar encontros com a governante. Agora, enfrenta novos desafios: a par da seca, terá ainda de encontrar soluções para reduzir o impacto da escalada dos custos de produção, agravada pela invasão da Ucrânia pela Rússia. Antes de ser ministra da Agricultura, desempenhou funções de secretária de Estado do Desenvolvimento Regional do XXI Governo Constitucional.