Sociedade

'Em humanidade, a Rússia já perdeu esta guerra'

A arquidiocese de Évora encerrou este fim de semana, com uma missa no domingo em Vila Viçosa, as comemorações dos 375 anos da proclamação da Nossa Senhora da Conceição como padroeira de Portugal.


Em entrevista ao Nascer do SOL esta sexta-feira em Fátima, dia em que o Santuário se ligou ao Vaticano numa oração pela paz, o arcebispo de Évora e organizador do ano jubilar, D. Francisco Senra Coelho, lembra que a ligação de Portugal a Nossa Senhora vem desde a fundação e que o pedido de proteção esteve presente nos momentos mais difíceis da história do país, como os que se vivem agora na Europa.

Como começa a história de proclamação de Nossa Senhora como padroeira de Portugal, que recordaram nestes dias num congresso internacional organizado em Fátima?

A História de Portugal é marcada nas suas diferentes etapas por uma aliança muito forte com Nossa Senhora. A primeira aliança que conhecemos documentalmente é com o primeiro Rei de Portugal, em forma de promessa: que se Portugal fosse reino e não apenas ducado lhe oferecia algo como ação de graças. D. Afonso Henriques fez a consagração de Portugal a Nossa Senhora de Oliveira, em Guimarães. Em 1179, o Papa reconheceu a independência de Portugal e a grande oferta do Rei foi um mosteiro dedicado aos cersticienses em Alcobaça. A segunda grande figura desta história é D. João I, mestre de Avis. Quando tivemos a grande crise de 1383-1385, o mestre de Avis pediu novamente em Oliveira, Guimarães, a mesma graça da independência de Portugal. Ele era alguém proposto pelo povo para rei mas a coroa estava em perigo sob a ameaça de Castela. D. Nuno Álvares Pereira, o grande Condestável, chefe do exército português, vence a 15 de agosto de 1385 a batalha de Aljubarrota. E aí temos dois novos momentos de ação de graças: o Rei D. João I, mestre de Avis, edifica o mosteiro da Batalha a Nossa Senhora da Vitória e D. Nuno Álvares Pereira faz uma obra de melhoramento numa pequena igreja dentro das muralhas de Vila Viçosa com a imagem de Nossa Senhora do Castelo, que era celebrada a 15 de agosto, dia da Senhora da Assunção. Nesse momento, resolve trazer de Inglaterra uma imagem esculpida em pedra para pôr nessa capela. Em Inglaterra vivia-se já intensamente a grande devoção à Nossa Senhora da Conceição e essa imagem traz por baixo esculpido N.S.A., Nossa Senhora dos Anjos.

O que mudava com a veneração a Nossa Senhora da Conceição?

Foi a primeira imagem de Nossa Senhora da Conceição na Península Ibérica. É preciso vermos que no primeiro milénio a veneração dedica-se sobretudo a Nossa Senhora da Assunção, a sua subida ao céu. Aqui passa a evocar a concebida sem pecado. Não fazemos o bem que queremos e fazemos o mal que não queremos, com a mesma mão acariciamos e damos um estalo. Somos capazes de usar bem ou mal a nossa liberdade. Odiamos e sentimos vergonha do que fazemos. Esse desequilíbrio é o pecado original e a pessoa é tanto melhor quando mais equilibrada é, sendo livre e fazendo o que quer. A opção lógica de uma pessoa inteligente é a beleza, o amor, o humanismo, a filantropia, a justiça, a caridade, a solidariedade, a fraternidade. Certamente uma pessoa sensata, saudável e inteligente não escolhe o horror, não escolhe a guerra, não escolhe a violência como vivemos neste momento. E a Senhora da Conceição é essa figura que nos inspira, uma pessoa absolutamente livre que foi sempre capaz de escolher a luz e nunca as trevas, nunca a degradação.

Há a ideia de uma relação especial entre Portugal e a veneração de Nossa Senhora desde as aparições de 1917 em Fátima, mas vem então desde a fundação.

É verdade, mas pensar isso é uma pobreza histórica. A Igreja tem 2000 anos, Portugal tem 900 anos. O primeiro ícone que se conhece de Nossa Senhora está em Roma e é do ano 120. Nossa Senhora é venerada ao longo do primeiro milénio e o concílio de Éfeso no século V, em 431, proclama Nossa Senhora Theotokos, mãe do filho de Deus. Em Portugal, Fátima é uma coisa recentíssima, é das venerações mais modernas. Nossa Senhora do Sameiro é mais antiga, Vila Viçosa, Senhora da Nazaré, a Batalha.

Em que momento é proclamada padroeira de Portugal?

Essa imagem vinda de Inglaterra de Nossa Senhora da Conceição fica em Vila Viçosa e é então a primeira imagem na Península Ibérica da Imaculada Conceição, concebida sem mancha, sem pecado, um mistério da fé. Depois, D. Manuel promete que, se chegássemos à Índia, faria também um monumento a Nossa Senhora da Conceição, que são os Jerónimos erguidos a Nossa Senhora de Belém. Quando se dá a guerra da independência e há o movimento da restauração em 1640, o duque de Bragança, que assume o nome de D. João IV, escolhe para agradecer a liberdade de Portugal precisamente voltar a esse santuário pequenino, que tinha sido restaurado 300 anos antes por D. Nuno Álvares Pereira e que depois disso já tinha uma igreja maior mandada fazer por D. Sebastião, que não voltou da batalha de Álcacer Quibir. E foi ali que D. João IV tirou a coroa da sua cabeça, colocou-a em Nossa Senhora da Conceição e disse: tu és a Rainha de Portugal, és a nossa padroeira. O Papa confirmou e a partir daí nunca mais a dinastia dos Braganças usou coroa. No dia da coroação, a coroa ficava numa almofada aos pés mas nunca mais a ostentaram, isto até ao último Rei, que foi D. Manuel II, até 1910. Esse gesto de D. João IV aconteceu no dia 25 de março de 1646 e foi o que evocámos ao longo de todo este ano jubilar, que termina agora com o congresso científico e na parte religiosa com a eucaristia de domingo. Recebemos uma carta evocativa escrita e autografada pelo Papa, das poucas que existem no país ao longo da história.

Que significado acredita que tem hoje esta padroeira para os portugueses?

Todas as árvores têm raízes. Portugal é uma grande árvore que tem raízes e sem raízes uma árvore morre. As raízes da árvore portuguesa são compostas por muitas dimensões mas também pela dimensão cristã. Se morrerem as raízes, a árvore seca. Podemos mesmo falar do nosso hummus, Portugal nasceu cristão. A nossa Pátria, nos momentos mais difíceis, teve consciência que tinha uma Mãe que queria a sua liberdade, dignidade, autonomia e independência e os portugueses recorriam a essa Mãe com afeto. E, por isso, a palavra Mãe em Portugal tem uma dimensão muito profunda. É doce, é poética.

Com a separação entre Estado e Igreja, deixámos de ver pedidos de intercessão a Nossa Senhora, ainda que o Presidente da República seja católico praticante. Como vê esse testemunho de Marcelo?

Cada cristão é um cidadão, um advogado, um carpinteiro e leva consigo a sua fé. Creio que é um assunto a qualquer um tem direito, como ir ao futebol ou o que for. Existe uma separação entre a Igreja e o Estado, o que quer dizer que a Igreja não se anda a meter na política nem a política na vida religiosa, mas não podemos em nome da liberdade de proibir pessoas de exercer as suas opções. Mas coloco-o de outra forma: por que razão o Presidente da República é Marcelo Rebelo de Sousa? Porque foi eleito pela maioria, o mesmo motivo por que António Costa é primeiro-ministro. A religião dos portugueses é maioritariamente católica, portanto, se o Presidente da República representa os portugueses, deve estar presente nos grandes momentos que dizem aos portugueses. Dito isto, ninguém deseja que voltemos a ser a religião do Estado e ficamos muito contentes quando o Presidente vai à mesquita ou está com qualquer outra confissão. Somos absolutamente pela liberdade.

Mas, até por este congresso, gostava que esta história da relação entre Portugal e Nossa Senhora fosse mais conhecida?

Sim, não é uma história obsoleta, é uma história viva. Vimos milhares de pessoas em Fátima no 13 de maio, como vimos de novo esta sexta-feira no ato de consagração decidido pelo Papa Francisco.

Lembrava há pouco como os portugueses nos momentos mais difíceis se viravam para Nossa Senhora. Foi isso que viu na decisão do Papa?

Sim. É um ato que mostra que nós, cristãos católicos, sentimos que esta hora é eminentemente grave não só para a Ucrânia como para o mundo e pedimos a Nossa Senhora que interceda. A paz nasce no coração. Se tiver o coração cheio de rancor, de ódio e vingança não há paz, não há diplomacia que chegue. E a paz começa por nascer à volta de nós na família, na amizade, no nosso círculo de influência e ambiente humano. Eu sou uma semente de paz. E assim propaga-se a um país. Se não houver paz nos corações, os acordos internacionais têm muita dificuldade em vingar, porque a paz não vem de fora para dentro, vem de dentro para fora. Quem tem fé num Deus amor e abre o seu coração a esse amor, é capaz de receber a paz e amar com o amor com que se sente amado.

Uma das leituras feitas do gesto de Francisco ao consagrar Rússia e Ucrânia a Nossa Senhora é se não poderá de alguma forma ser lida como uma provocação a Moscovo e à Igreja Ortodoxa, cujo patriarca tem apoiado a ofensiva de Putin.

Não há essa intenção certamente e o embaixador da Rússia foi convidado pela nunciatura apostólica como foi a embaixadora da Ucrânia. Queremos a paz, mais nada. É evidente que quem odeia a paz e não tem paz dentro de si é capaz de ver tudo como um espicaçar mas mesmo assim não acredito, porque faço a distinção entre os antigos soviéticos que vivem da nostalgia do império que tentaram construir e onde Putin talvez se situe e os russos. O povo russo vive neste momento um controlo severo de acesso a informação que nem perceberá bem o que se está a passar. O povo russo é um povo amável, cristão, de paz. Não é o povo russo que está em questão é uma mentalidade de tipo ideológico que diz que nem sequer existe o povo ucraniano, que nunca houve Ucrânia, que a Ucrânia é uma invenção.

O general Peskov usou esta semana numa entrevista a Christiane Amanpour a expressão a anti-Rússia.

Sim, que a Ucrânia é nazi. Se alguma coisa vemos é que o domínio nazi não é o da Ucrânia. Mas neste momento somos convidados não a ser da Ucrânia ou da Rússia mas a ser da paz, das crianças esmagadas, das maternidades bombardeadas, das mães que morrem a dar à luz, dos velhinhos que morrem sem saber porquê. De cidades que já nunca mais vão existir se não forem reconstruídas. O que está em causa é a Humanidade e, em humanidade, a Rússia já perdeu a guerra. Já vai ser muito difícil lavar este sangue e a Ucrânia neste momento já é um povo mártir. Já se está a repetir Aushwitz. E digo-lhe que até por ser historiador de formação, não tenho dúvidas do que estou a dizer. A Humanidade está a perder e essa perca tem alguém que é responsável e já perdeu. Não vai ser fácil o fim desta tragédia porque é muito custoso lidar com esse momento, é preciso ter uma profunda humildade para saber perder e fazer a paz. Diante disto, poderemos ver um ritmo alucinante de orgulho e de vingança que nos leve a uma guerra nuclear.

A oração feita ontem pelo Papa teme-o claramente. 

Sim, acho que qualquer pessoa o vê e que pede que haja um instante de luz em que se perceba o que está em causa.

Houve sempre alguma controvérsia em torno das aparições e sobre se o pedido de uma consagração pública da Rússia a Nossa Senhora foi ou não cumprido por nenhum Papa o referir explicitamente. Que visão tem um arcebispo historiador?

Acredito nas aparições, claro que conheço toda essa polémica, mas acredito absolutamente.

Acredita com o coração ou com o lado científico?

Com os dois lados. As aparições têm uma dimensão racional nos arquivos, nos relatos da comunicação social, nas fotografias do milagre do sol, não tenho a menor dúvida. E os acontecimentos não vêm do nada, há sempre um motivo. Mas por toda a coerência e acontecimentos posteriores que correspondem àquilo que foi predito e anunciado, como a Segunda Guerra, acredito. De facto, a Nossa Senhora pediu a consagração e o Papa João Paulo II veio aqui a Fátima em 1982 fazê-la.

Estava em Fátima nesse dia?

Estava. E o Papa disse várias vezes: ‘De uma guerra nuclear livrai-nos Senhor’. Imaginemos que não tenha dito União Soviética, não estou recordado e não tenho o texto, sabemos que depois foi a imagem da Capelinha das Aparições a Roma, onde o Papa fez a consagração em 1984. É dito que então alguns bispos não se juntaram a ele, porque não acreditavam ou não puderam ou não quiseram, com certeza por diferentes motivos porque há cerca de 3 mil bispos no mundo. Como era alguém que Nossa Senhora tinha pedido, não teria contado. Não imagino Nossa Senhora a pôr certo e a ver se estão os bispos todos. Isso é quase reduzir Deus a uma matemática e estatística. Penso que o Papa João Paulo II fez tudo por tudo e quando fazemos tudo por tudo, Deus faz o resto daquilo que não conseguimos. Acredito que foi aceite a consagração e houve sinais fortíssimos, como o fim do império soviético. O que o Papa Francisco faz agora é uma renovação, que é aceite, como o que fizemos foi aceite.

O facto de a terceira parte do segredo de Fátima falar de um atentado a um Papa pode explicar por que motivo não tem seguido alguns apelos para ir agora à Ucrânia?

Não. Já houve um atentado ao Papa. Acredito que logo que seja possível o Papa irá à Ucrânia, como foi ao Iraque.

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