Fundo? Agora só pode ser para cima

Assobiar para o lado e no fim logo se vê

Enfim, um e outro sempre que falam, fixam-se em questões sobretudo laterais evitando afirmar que a invasão da Ucrânia é um crime contra a humanidade, que não pode ser explicado por nenhuns antecedentes, e ainda não condenaram, de forma inequívoca, as afirmações do BE e do PCP a propósito deste criminoso conflito.


A Europa vive num clima de terror que, desde há pouco mais de seis semanas, alterou as nossas vidas e criou as raízes para um futuro completamente diferente e não necessariamente melhor.

De repente, quase como num passe de mágica, as preocupações com a pandemia desapareceram, passou a ser indiferente a data de posse do futuro Governo (entretanto anunciada) bem como a sua composição e a famosa bazuca deixou de ser arma de arremesso e de propaganda política dos partidos.

Do primeiro ministro pouco se tem ouvido, aliás uma especialidade do dr. António Costa quando há sarilhos, e o principal líder da oposição anda ‘desaparecido em combate’ seguramente mais preocupado em prolongar, nem que seja por mais meia dúzia de dias, a sua ‘brilhante’ liderança à frente do PSD.

Enfim, um e outro sempre que falam, fixam-se em questões sobretudo laterais evitando afirmar que a invasão da Ucrânia é um crime contra a humanidade, que não pode ser explicado por nenhuns antecedentes, e ainda não condenaram, de forma inequívoca, as afirmações do BE e do PCP a propósito deste criminoso conflito.

Basta estar atento aos múltiplos debates que as televisões por cabo protagonizam, e nos quais participam dirigentes desses dois partidos, para compreender a ‘loucura mansa’ que se instalou em parte da classe política portuguesa.

Felizmente que se ouve, regularmente, o ministro dos Negócios Estrangeiros, que, com intervenções serenas mas firmes (honra lhe seja feita) tem cumprido o dever de informação ao país, aproveitando, de passagem, para construir uma nova imagem pessoal que lhe permita, em breve, presidir à Assembleia de todos os deputados.

Longe vão os tempos em que confessava que o seu desporto favorito era ‘malhar na direita’ e ainda bem pois o país, nesta situação delicada e perigosa, não precisa de ‘malhação’ interpartidária mas sim de lucidez e informação.

A invasão da Ucrânia pelas tropas russas, independentemente da duração do conflito e da natureza do seu desfecho, é um acontecimento que mudará o mundo, a globalização e o relacionamento entre os povos.

Esta não é, nem será, uma guerra qualquer pois é uma guerra de valores como, aliás foi anunciado, desde o início, pelo país invasor, através do ministro Lavrov quando declarou «vamos cortar a dependência com o Ocidente. Não nos enganarão outra vez».

O que está em causa é, assim, o confronto entre a opressão e a liberdade, entre o respeito pelos direitos humanos e pela escolha democrática dos povos e a imposição de sujeições territoriais e imposições civilizacionais, suportadas por inadmissíveis ‘zonas de influência’, que remetem para a guerra fria e para os mais negros tempos do estalinismo e da brutalidade.

Nos últimos anos intensificou-se o relacionamento económico (e respetiva interdependência) entre a Rússia e a União Europeia. Ora, esse crescimento da cooperação comercial é, em si, positivo e está, de resto, agora a permitir a utilização de sanções económicas, a única arma ao dispor do Ocidente, antes da indesejada solução final.

Mas é intolerável que esse acréscimo de comércio tenha sido obtido à custa de uma excessiva dependência do gás e do petróleo russos e, nomeadamente, que tenha sido alavancado, em boa medida, pela venda de armas e equipamentos estratégicos de uso essencialmente militar.

Uma opção desta natureza só teria sentido se corresse em paralelo com um processo de normalização política e democrática que ‘obrigasse’ a Rússia a aproximar-se de valores ocidentais.

Ficou a faltar, neste país, agora por estímulo externo, uma verdadeira Perestroika (reestruturação) e uma consequente glassnot (transparência) que o tornassem numa entidade confiável e estável nas relações globais com o mundo ocidental e no desempenho, a que tem direito, no quadro da geoestratégia mundial.

Agora vai ser necessário um enorme esforço financeiro e um grande sacrifício de pessoas, no seu bem estar e segurança, para resolver este grave confronto.

Ver-se-á, se a União Europeia já o percebeu e, em cooperação com os EEUU e a Grã-Bretanha, consegue formular uma conveniente resposta; já o fez com o combate às consequências da pandemia através da concretização do NextGenerationEu e terá de o fazer agora de uma forma ainda mais robusta e criativa.

O tema chave desta ‘nova recuperação’ é claramente o da energia e é para esse setor que devem ser orientadas a maioria das políticas, não excluindo a necessidade de alterar significativamente os objetivos do plano em curso, com um compromisso realista entre o desejo de descarbonização da Europa e a necessidade da reconstrução, ainda mais rápida, da economia europeia.

Mas é também no campo simbólico da política que este confronto se joga; perceberam-no muito bem os primeiros-ministros da Polónia, da Eslovénia e da República Checa, quando se deslocaram a Kiev para manifestar pessoalmente o seu apoio ao líder ucraniano e à sua população. Josep Borrel, o responsável europeu pelas Relações Externas, com a experiência acumulada na sua visita recente a Moscovo (onde foi praticamente ignorado), não faria mal se seguisse o mesmo caminho.

Assobiar para o lado, à espera que a onda passe, pode ser um suicídio.

O que está em causa é um bem supremo – a Liberdade – e com o exemplo dos últimos dias, também seria útil que a sociedade portuguesa se recordasse que a Revolução libertadora do 25 de abril, só não se perdeu, porque, no ano seguinte, houve a correção do 25 de Novembro.

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