Desporto

Portugal apura-se para o Qatar

O Qatar foi inevitável! A seleção nacional limitou-se a ter um jeito sereno de entorpecer um adversário sem capacidade nem inteligência para conseguir sequer equilibrar o jogo.


Não é possível escrever-se sobre este um tudo-nada estranho Portugal-Macedónia do Norte esquecendo por completo que, na verdade, estávamos todos à espera de ter tido, na suave noite de ontem, no Porto, um adversário bem mais poderoso e assustador que dá pelo nome de Itália, essa sempre empolgante squadra-azzurra já por quatro vezes campeã do mundo. O problema não foi nosso, foi deles, e com isso podemos nós bem, boa-noite e um queijinho de Azeitão, mas a questão é tão inamovível como um elefante liofilizado em pleno centro da sala das visitas.

Nestas coisas convém sempre olhar com atenção para os dois lados da questão. E, portanto, se do lado português não havendo Itália a questão deixou propriamente de ser, como se costuma adjetivar, de vida ou de morte, e passou a ser, por isso, mais urgente, o que justifica que Fernando Santos tenha avançado com o sistema-Turquia (que deu bem cedo bons resultados), há que convir que os macedónios, depois de terem ido limpar o sebo aos campeões da Europa, lá na Sicília, tenham sentido no seu íntimo que repetir a proeza em Portugal era um sonho perfeitamente exequível. Ora isso deu-lhes um atrevimento que não seria de esperar de antemão. E o que se viu, quando o jogo começou, foi uma tentativa dos rapazes dos Balcãs em chegarem à grande área portuguesa sempre que os espaços que se abriam na zona onde Moutinho surgia sem parceiro o permitiam. Não foram perigosos, é verdade, mas assumiram-se. E, assim, também facilitaram a vida à equipa nacional que num contra golpe combinado entre os dois jogadores do United, Ronaldo e Bruno Fernandes, fizeram o 1-0 pondo o Qatar cada vez mais perto.

O golo, ainda com cerca de quinze minutos da primeira parte para jogar, buliu com os nervos dos macedónios. Antepassados de Alexandre, sim senhor, mas não tão grandes assim. Com tanto tempo pela frente não servia de muito ficarem na expectativa. O problema é que o golo também sossegou suficientemente os portugueses para controlarem os acontecimentos. Era então tempo de perguntar, na segunda parte, que os macedónios copiassem os turcos que, depois de 0-2, não empataram por mera ação piedosa vinda de um gesto celeste do velho Beato António Estroncónio? Só que, entre o querer e o poder vai uma distância tão grande como da fome ao festim. E se a Turquia o pôde, a Macedónia (do Norte) deu logo ideia de não poder.

Naturalmente Parece que, sentindo-se cada vez mais diminuído, Ludwig van Beethoven, o Divino Surdo, quando compôs a Nona Sinfonia já nem se dava ao trabalho de usar o quarto de banho, fazendo as suas necessidades num bacio ao lado do piano. Eis a maneira como a urgência apressa o génio, de tal ordem conseguiu uma obra perfeita.

Convenhamos que, se já não havia urgência do lado português, quanto mais cedo se dessem cabo das esperanças macedónias, mais cedo podíamos gozar o espetáculo sem ficar de pinguinha na cueca, como aconteceu na quinta-feira passada, neste mesmo sítio. Ou seja. Nada do oito-oitentismo tão portuguesinho, benza-o Deus. Viesse de lá um sorriso rasgado ainda que, ao mesmo tempo que escrevia estas linhas, me tenha lembrado daquele inenarrável personagem queirosiano, o venerando conselheiro que no meio da algazarra alheia, suspirava: “Como posso eu sorrir, se a Polónia sofre?”. Trocamos Polónia por Ucrânia, e o dr. Gama Torres podia muito bem andar hoje em dia a perorar nas televisões de todo o mundo.

Distraio-me. Voltemos ao jogo. Para já não perderam nada, porque nada se passou. Portugal está à espera, a Macedónia está atrapalhada sem saber o que fazer. De concreto, nada nos chama verdadeiramente atenção. Uma espécie de futebol em cuidados paliativos e eu, pessoalmente, a supor que tanta inação poderia muito bem dar para o torto. Chato como a potassa, o confronto desenrola-se sem balizas. Quero dizer, elas estavam lá, mas ninguém lhes prestava grande atenção. Nem sequer os guarda-redes, imaginem, tão livres de preocupações iam vivendo o desenrolar dos minutos. Sentindo que a derrota começava a desenhar-se como inevitável, os macedónios tentaram a sua sorte e foi a sua desgraça. No primeiro lance em que invadiram o meio campo português com seis unidades, sofreram o contra-ataque assassino do segundo golo de Bruno Fernandes. Sabe-se há muito que este Portugal do Engenheiro não é dado à poesia. Foi, desta vez, dado à prática do homicídio com veneno. Cicuta, curare, o que vos der na gana. É a Menina Veneno da canção de Ritchie que, com um jeito especial para entorpecer adversários, sobretudo não muito inteligentes, como o de ontem. Um assassínio a frio. E, por isso, o Qatar foi inevitável!

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