Sociedade

"Há duas Ucrânias: a que está a ser fustigada pelos ataques russos e a que vive uma quase normalidade"

Durante 23 dias, o professor e investigador Nuno André esteve na Ucrânia. De regresso a Portugal, conta aquilo que viveu.

"Há duas Ucrânias: a que está a ser fustigada pelos ataques russos e a que vive uma quase normalidade"

Decidiu ir para a Ucrânia assim que teve conhecimento da invasão do país pela Rússia?

Não. A ideia surgiu numa conversa em família durante o jantar. Aliás, foi a minha mulher que fez referência à ideia de ir até lá. Como temos dois filhos, era importante um de nós ficar em Portugal, então decidimos que iria eu e ela ficava a dar apoio à distância. Entretanto, com a ajuda de amigos e familiares criámos um grupo informal para apoiar esta causa e assim surgiu a página de instagram todos_por_u.

Como é que decorreu o percurso da equipa que liderou e integrou?

Podemos marcar a diferença ao trabalhar sozinhos, mas, porque somos mais eficazes quando o fazemos em equipa, acabámos por aceitar que se juntassem a nós mais voluntários que tinham o mesmo objetivo e outras valências, como foi o caso dos dois jovens tradutores que me acompanharam. Entretanto, já na Polónia, encontrámos outros jovens que queriam ajudar. A partir daí passámos a trabalhar em rede, ainda que informalmente. Alguns jovens acabaram por apanhar o avião e foram ao nosso encontro depois de terem conhecimento do nosso trabalho. Isso ajudou a reforçar a equipa. Quanto à liderança: todos foram líderes e todos foram liderados. Neste contexto, esta fórmula resultou.

Na sua opinião, quais estão a ser as consequências mais graves e imediatas do conflito que se instalou?

A grande tragédia ucraniana é, acima de tudo, humanitária. Corre-se o risco de acabar com uma cultura, tradições, costumes, sonhos, formas de pensar… Isto baseado na ideia de que quem sai de um país e chega a outro da Europa, e se consegue integrar – aprendendo a língua, encontrando um emprego e ganhando autonomia – dificilmente quererá regressar tão cedo a um território destruído, empobrecido e ainda mais isolado. Talvez seja esta uma das fortes razões que têm levado Zelensky a pedir insistentemente que as pessoas não abandonem a Ucrânia, antes se refugiem numa região do país mais segura. Devemos refletir: quando estes milhões de pessoas regressarem à Ucrânia, será que não vamos ter uma Ucrânia completamente diferente com toda a influência, alterações, mudanças de paradigma inerentes àquilo que foi apreendido, conhecido e absorvido pelas crianças e mulheres que passaram tanto tempo fora do seu país?

O que pensa da atuação do Presidente Zelensky? Os órgãos de informação internacionais e nacionais, incluindo o i, têm-no definido como “o novo herói da Europa”.

Se estivermos a falar da coragem que demonstrou ao decidir ficar na Ucrânia junto dos seus, num confronto equiparado ao de David e Golias, considero que seja um herói. Quanto à governação da Ucrânia, enquanto Presidente, teríamos de avaliar o trabalho que fez desde 2019 e concluir algo mais caso ele continue no poder. Tenho sérias dúvidas de que outros governantes mundiais tivessem a mesma audácia.

Quase todos os países têm vindo a unir-se para dar a mão aos ucranianos. Qual é a sua opinião acerca do modo como este auxílio tem sido oferecido?

Preocupa-me a forma desorganizada e desconcertada como os países europeus estão a prestar ajuda. Por exemplo, as pessoas saem de Portugal sem a mínima noção daquilo que se passa no terreno e, quando lá chegam, são surpreendidas.

Como assim?

Julgam que vão resgatar pessoas a morrer de hipotermia, famintas, feridos de guerra… Contudo, isso não existe para cá das fronteiras da Ucrânia. Existindo, no limite, estas pessoas encontram-se nas cidades fortemente bombardeadas que ficam a centenas de quilómetros das ditas fronteiras. Enviam-se camiões com comida, bens essenciais, vestuário, medicamentos: tudo isso é descarregado às portas da Ucrânia. Mas a questão é que estas ajudas aí não fazem falta porque, por exemplo na Polónia, os campos de refugiados já têm todo o apoio logístico. O que não deixa de contrastar tristemente com o que se passa para lá da fronteira, já que, na Ucrânia, nas cidades que foram destruídas, há falta de medicamentos, alimentos, vestuário, enfim, de tudo. Por isso, é urgente que aqueles que querem apoiar estejam efetivamente dentro do país, reúnam esforços e, de forma segura e concertada, consigam levar aquilo que é preciso para onde é preciso.

Foi isso que tentou fazer durante os 23 dias que passou na Ucrânia?

Sim, pois não havia outro caminho senão o cumprir o verdadeiro sentido de ajudar, ainda que este signifique mudar os planos e correr riscos.

Além dos estrangeiros, também os ucranianos se entreajudam.

As famílias mais novas que não querem sair do país continuam a dar apoio ao exército e aos civis de formas variadas, embalando e enviando alimentos ou construindo redes de camuflagem. Recolhem roupa quente e sacos de cama e enviam-lhes.

Nos media têm sido abordadas questões menos agradáveis relacionadas com o apoio humanitário, como a probabilidade de nem todos os produtos chegarem a quem deles necessita.

Situações ambíguas têm conduzido a caminhos de desonestidade como o tráfico de medicamentos, de alimentos, de bens essenciais. Já existem redes organizadas que, com a promessa de que vão levar os mantimentos ao interior da Ucrânia, introduzem os bens no mercado negro. Quem manifesta atitudes intrinsecamente más não converteu o seu coração para o bem de um dia para o outro. Logo, não podemos esperar um desfecho diferente.

Pode explicar mais detalhadamente aquilo de que tem conhecimento acerca do tal mercado negro que mencionou?

Aquilo que posso afirmar é que muitos dos mantimentos que eram esperados em alguns pontos de recolha, na Ucrânia, não chegaram ao destino final, sendo que quem os levou da fronteira garantiu que seguiriam para determinada morada. Se tivesse acontecido uma vez, acreditava que tivesse existido um imprevisto, mas, ao saber que estas situações se repetiam consecutivamente, não posso concluir outra coisa que não esta: há desvio de mantimentos.

Outro dos problemas que mais têm sido debatidos prende-se com o abuso sexual de mulheres e crianças, bem como o tráfico. Por exemplo, há aproximadamente 20 dias, a Sky News noticiou que uma jovem de 19 anos que fugira da Ucrânia havia sido violada na Polónia, em casa de um homem de 49 anos que lhe tinha prometido alojamento. Entretanto, foi detido pelas autoridades polacas. Que outros casos o preocupam?

Uma mulher com os seus filhos num país que não é o seu, à procura de um sinal de esperança, torna-se demasiado vulnerável e um alvo fácil para os predadores que gostam de se aproveitar deste tipo de contextos para atacar. É completamente desumano. Eu próprio senti que o facto de termos voluntários homens fazia com que as mulheres tomassem atitudes defensivas. Elas conhecem estes riscos. Infelizmente, todos sabemos que quando a sua segurança está posta em causa, o futuro torna-se opaco, havendo lugar para os que delas se querem aproveitar. Vi vários homens a fotografar mulheres e crianças, a quererem levar refugiados nos seus carros particulares sem deixar qualquer tipo de registo – provavelmente para que não existisse pista alguma. Por que razão prefere um benfeitor salvar loirinhas de olhos azuis e elegantes a salvar corpos e rostos desgastados e marcados pela vida? Chegam a oferecer dinheiro a estas mulheres, prometendo casa, trabalho e muitas facilidades. Afirmam representar empresas ou associações das quais não existe o mínimo registo. De forma descarada, estes monstros devoram a esperança destas pessoas que guardaram a sua vida numa mochila.

Notou o envolvimento de algum cidadão de nacionalidade portuguesa num destes esquemas?

Nunca me apercebi de que houvesse algum português envolvido nessas redes, mas posso afirmar que o nosso grupo sinalizou algumas dezenas de situações de potenciais criminosos estrangeiros. Havia esquemas montados: gente que circulava com falsas credenciais que lhes davam livre acesso aos refugiados.

Como é que isso acontecia?

A equipa portuguesa instalou-se num centro comercial recém-convertido em centro de acolhimento de refugiados: lá dentro, só entrava quem tivesse pulseira de refugiado, voluntário ou de motorista. Na primeira semana, qualquer pessoa entrava lá dentro. Depois, os militares polacos começaram a dar apoio na gestão e organização dos recursos humanos e a criar regras. Percebemos que os criminosos estavam a contornar as regras inscrevendo-se, por exemplo, como voluntários ou refugiados.

Assistiu a alguma tentativa ou consumação de ilícitos por parte destas pessoas?

Um dos casos que me marcaram imenso foi o de uma mulher que ia ser levada, juntamente com os seus dois filhos, para um autocarro que, disseram-lhe, estaria a cerca de 3 quilómetros do campo de refugiados. Ao perceber que ela ia ser levada por um voluntário desprevenido, tomei a liberdade de me oferecer para transportar aquela família na minha carrinha. Ao chegar ao local combinado, vi apenas um carro estacionado. Nem sinal de autocarro ou de passageiros. A senhora telefonou para o suposto motorista que lhe assegurou que a pessoa que estava no carro a levaria ao seu encontro. Sem hesitar, dei meia-volta e levei-a para o campo de refugiados novamente, onde não se inscrevera por acreditar que ali teria de passar vários dias sem quaisquer condições ou apoio. Levei-a à presença de um dos nossos tradutores que nos ajudou a sinalizar o caso junto da polícia. Entretanto, o motorista desligou o telefone e nunca mais se conseguiu contacto. Está aqui o exemplo de um “modus operandi”. Infelizmente, segundo as conclusões que nos foram transmitidas pelas autoridades, uma mulher bonita, mãe de uma filha de 16 e um filho de 3 ou 4 anos presta-se com eles ao tráfico de pessoas e órgãos. A crueldade, aqui, não tem limites. Não só não há barreiras como o objetivo é tirar partido destas pessoas: para se conseguir isso, vale tudo. Deplorável.

Alguma vez ponderou juntar-se ao exército ucraniano? Desde o início, vários portugueses demonstraram vontade de o fazer.

Não me alistei na Legião Internacional porque acredito que podemos fazer muito mais salvando uns em vez de matar outros. Contudo, é de louvar a bravura dos voluntários de guerra e condenar os mercenários baratos que, travestidos de corajosos, não passam de oportunistas frustrados. Também há os vigaristas que encenam cenas heroicas fingindo lutar em nome da Ucrânia em território polaco ou em territórios decorados com árvores e silvados. Vão para lá, dizem que estão na guerra, tiram fotografias, mas nunca chegam a entrar – fazem figuras tristes, são pessoas completamente desequilibradas e oportunistas. Existem os verdadeiros voluntários, discretos e bem-intencionados, que se alistam sem nada dizer. Alguns acabam por desistir ao lerem uma das cláusulas que os obriga a permanecer na guerra enquanto esta durar. Passam a ser carne para canhão por tempo indeterminado e sujeitam-se às ordens do exército ucraniano, o qual passam a servir sem privilégios especiais.

O que tem a dizer sobre os militares russos e ucranianos? Os primeiros, a título de exemplo, movimentaram-se lentamente numa fila de 64km de veículos de guerra e, posteriormente, começaram a parar.

Os russos não estão com a moral em alta para lutar: os mais novos, principalmente, não querem fazê-lo. E, por isso, têm boicotado algumas das ações militares, estão a passar frio e fome e, muitas das vezes, não cumprem as ordens que lhes são dadas. Do lado da Ucrânia, temos gente muito convicta de que não tem nada a perder e que acredita que o país sairá vitorioso. É a sua liberdade que está em causa. É uma questão de honra. E, mesmo que haja um bombardeamento em massa, resta-lhes essa mesma honra. Sente-se isto nos seus olhos, nas suas palavras, nas suas ações. É quanto basta para continuarem de pé.

Esta é a primeira guerra que estamos a viver “em direto”, como um entrevistado explicitou em entrevista à LUZ. Aquilo que nos é transmitido através das redes sociais e dos órgãos de informação corresponde à realidade?

Há duas Ucrânias: a que está a ser fustigada pelos ataques russos e a que vive uma quase normalidade – como é o caso de Lviv, onde se pode ir a um restaurante, dormir num hotel ou passear num jardim. Em Lviv, por exemplo, comprei rolos de papel higiénico com a cara de Putin – uma mensagem clara para a Rússia. No entanto, ao desenrolá-lo, notei a falta de outros rostos que lá deviam estar. No território ucraniano sente-se um clima de medo e de desconfiança que leva a que qualquer desconhecido possa ser visto como um potencial espião. Eu próprio acabei detido pelo exército durante algumas horas porque não conseguimos comunicar devido à barreira da língua. Foi necessária a presença de uma tradutora – que demorou a aparecer – para poder justificar as dezenas de carimbos dos postos fronteiriços marcados no meu passaporte. Talvez, também por isto, tenha percebido que são poucos os jornalistas que cumprem uma verdadeira cobertura enquanto repórteres de guerra. Não é justo que a cobardia se sobreponha à verdade dos acontecimentos. Há exceções, tive a honra de as conhecer e orgulho em saber que algumas até são portuguesas.

O que pensa do modo como têm sido acolhidos os refugiados ucranianos?

Destaco, em primeiro lugar, a generosidade e a dedicação de milhares de pessoas – portuguesas e de outras nacionalidades – que tudo fizeram para garantir o transporte, o acolhimento e a integração dos refugiados. Contudo, entristece-me observar o aproveitamento que alguns acabam por fazer que, quando levado ao extremo, se transforma numa monstruosidade.

Isto significa que, tal como há pessoas que vão combater somente para terem protagonismo, há quem acolha com o mesmo fim?

Basta de caridadezinha e de tentativas de demonstração de solidariedade baseadas na ideia de ter um “refugiado de estimação”. Não é justo pegar num refugiado “só para a fotografia” ou como estratégia política/social e, depois, voltar-lhe costas descartando-o num abandono infelizmente comparável com o abandono dos animais de estimação.

Quer exemplificar?

Sim. Gente que encheu carrinhas com refugiados, na fronteira da Polónia, e que ao chegar a Portugal, os largou ou os deixou ao abandono sem qualquer acompanhamento de proximidade que lhes garantisse um lar e a estabilidade necessários para a sua integração. Parece-me oportuno repensar a forma como ajudamos e educamos as nossas crianças para que venham a ajudar. A melhor ajuda que podemos dar é entregar a quem precisa as ferramentas e o conhecimento para que, posteriormente, de forma livre e autónoma, possam seguir o seu caminho para o sucesso.

Há quem diga que as crianças e os adolescentes têm sido mais empáticos. Qual é a sua perspetiva?

Temos muito a aprender com os mais novos. Eu próprio, como professor, tenho consciência de que os meus alunos já me ensinaram mais a mim do que eu a eles.

Como é que eles reagiram quando regressou?

Houve uma grande emoção, abraços e aplausos. Senti que eles absorveram o sentido da missão e que lhes tinha ensinado uma matéria adicional que, não contando para a nota, contará para a vida. Tive a oportunidade de lhes dar aulas online enquanto estava na Ucrânia. Por isso, nunca chegámos a quebrar verdadeiramente o elo de ligação e acabaram por viver uma experiência quase tão próxima como eu a vivi, já que algumas dessas aulas foram lecionadas dentro de bunkers ou refúgios humanitários. Felizmente, tive todo o apoio das empresas com as quais trabalho – como a Paulinas Editora ou o Externato S. Vicente de Paulo – mas, acima de tudo, foram a paciência e a compreensão da minha esposa que constituíram uma mais-valia sempre que pensava na falta que podia fazer em casa.

Tem um filho de quatro anos e uma de dois. Como foi estar longe deles?

Tive muitas saudades e foram, para mim, uma preocupação constante. Confesso que me custou muito passar o Dia do Pai longe dos meus filhos. Mas, como as crianças são boas a encontrar soluções, fiquei mais descansado. Isto porque ele me enviou um vídeo a dizer que não havia problema por não estar com ele naquela data porque me daria o desenho que fizera quando eu chegasse.

Como está a decorrer a integração dos refugiados que resgatou?

Tenho acompanhado a grande maioria e sei que estão bem. Felizmente, Portugal, uma vez mais, demonstrou que é um exemplo no que toca a acolher e ajudar os que mais precisam. Aparentemente, tudo está a funcionar e aquilo que não funciona, por vezes, é só por uma questão de desinformação ou mal-entendidos.

Esteve em contacto somente com ucranianos ou também russos?

Não tive a oportunidade de contactar pessoalmente com civis ou militares russos. Tenho pena porque gostaria de ter ouvido outras versões da história. Consegui falar, via telefónica, com jovens russos que, supostamente, tinham desertado e esses afirmavam que a maioria dos jovens militares não quer que esta guerra aconteça e que, por isso, tem boicotado algumas missões, como tinha apontado anteriormente, para não perderem a vida já que não acreditam nesta guerra. Passam fome, têm frio e medo de morrer.

Qual é a maior reflexão que faz?

Como acontece sempre, a verdade tem vários ângulos e pode ser vista através dos mesmos. Neste caso, a verdade morreu ainda antes de a guerra ter começado.

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