Sociedade

Pequeno Jardim. A florista com 100 anos que dá cor à Rua Garrett

Este ano, a florista mais antiga de Lisboa comemora o seu centenário e fomos perceber como é que dentro de uma das últimas lojas que funcionam num vão de escadas cabe um “jardim inteiro”.


Ao passearmos no coração de Lisboa, deparamo-nos com vários recantos que parecem saídos de cenários cinematográficos. Os elétricos amarelos que passam, os azulejos tradicionais que caracterizam os edifícios, os fados que se ouvem vindos da entrada de algumas lojas, as estreitas ruelas com roupas coloridas penduradas nos estendais, as igrejas que embelezam as ruas… São muitas as imagens que, de repente, são capazes de nos transportar para telas de cinema, para os postais que se vendem nas lojas de souvenirs ou, por outro lado, para o passado, dando a sensação de que nos encontramos noutra época. Mas há uma que se destaca de todas as outras há já 100 anos. Evidenciando-se entre o cinzento dos prédios que lhe servem de fundo, um conjunto de flores de todas as cores e feitios salta à vista de quem passa na Rua Garrett. Sejam crianças, adolescentes, adultos ou seniores, é difícil que alguém aqui passe sem que seja atraído pelos distintos cheiros a campo, ou as diversas cores que pintam um quadro no meio da urbe.

Reza a história que no início do século XX um francês que passeava por Lisboa se apaixonou pela delicadeza da capital e, no centro do Chiado, no número 41, fundou o “Petit Jardin”, em português “Pequeno Jardim” , num vão de escadas. Agora, esta é a última florista do Chiado, e também um dos últimos estabelecimentos que resistem num vão de escadas da entrada de um prédio que preserva o seu estado tradicional. A montra em ferro velho e esverdeado com resquícios Arte Nova, apresenta no seu letreiro em vidro pintado na fachada, o nome do seu fundador, Carlos dos Santos. “Daquilo que eu sei, terá sido um senhor francês que fundou a loja. Depois, o proprietário oficial terá sido o senhor que dá nome ao letreiro: Carlos dos Santos. Depois dele, um senhor que trabalhava para si, acabou por ficar com o estabelecimento. Era o senhor Virgílio Gante, que ficou cá cerca de 80 anos a trabalhar. Começou a trabalhar em tenra idade para o senhor Carlos! Tinha apenas 8 anos!”, começou por contar ao i Elisabete, atual dona da loja. Conhecido por “Virgílio das Flores” e pela sua simpatia e bom humor, tornou-se dono desta pequena loja onde cabe “um jardim inteiro”, nos anos 50.

Segundo a proprietária, não existem muitas informações sobre o francês que idealizou o espaço. “Aliás, é um trabalho de investigação que pretendo fazer, para perceber se realmente essa história tem algum fundamento, ou não. Várias pessoas já escreveram sobre isso, eu também quero investigar!”, admite. Contudo, o mesmo não aconteceu com o senhor Virgílio.  “Sempre gostei muito de flores. Comecei a fazer alguns trabalhos com flores secas há 20 anos atrás e fazia alguns trabalhos à consignação ao senhor Virgílio. Entretanto, ele adoeceu mais severamente e eu acabei por ficar com o espaço. Das flores secas, passei depois a ter plantas e flores frescas!”, lembra. Elisabete entrou na loja em 2003. Nessa altura, revela, a loja “já estava com alguma decadência”. “O senhor Virgílio já não tinha certamente a mesma energia e postura de antigamente. Peguei na loja e tentei dinamizá-la, dar-lhe todo este aspeto exterior que não tinha na altura. Tentar fazer novos clientes e manter os antigos”, explica a dona do estabelecimento em redor de uma oferta diversa de flores naturais, plantas em vaso e penduradas, flores de corte e bouquets.

 

Um espaço pequeno para um jardim inteiro

A espalhar beleza e os mais intensos aromas desde 1922, este ano a loja comemora o seu centenário e, todas as manhãs, as funcionárias montam a montra no exterior. “É preciso fazê-la todos os dias e tirá-la todos os dias. Esse é sempre o primeiro passo. A não ser que já tenhamos clientes à porta… Quando assim o é, damos-lhes prioridade”, elucida Elisabete, acrescentando que o espaço “é extremamente pequeno”, por isso, quem lá trabalha “tem de tentar que tudo funcione e que tenha o seu ciclo normal”. De acordo com a proprietária, está tudo montado em pequenas “peças”, se assim não o fosse, “seria difícil movimentar minimamente as coisas”. Relativamente à montra, esta vai “variando”: “Desmontamo-la completamente duas vezes por semana, mas como recebemos flores quase todos os dias vamos sempre repondo quase tudo. Dependendo das interrupções, a montagem demora cerca de duas horas a ficar completamente montada! No mínimo!”, afirma entre uma gargalhada de quem tem de “puxar” pela criatividade regularmente para que o cenário se mantenha “chamativo”. 

Interrogada sobre a maneira como se gere o trabalho num espaço tão estreito, Elisabete respondeu, “com muita ginástica”. “Só podemos trabalhar com pessoas muito ‘elegantes’, não querendo ofender ninguém, claro! Mas é mesmo uma das premissas importantes para se conseguir passar e trabalhar naquele corredor. Às vezes está uma a passar com as flores, a outra a fazer o embrulho. É um espaço muito pequenino e, por isso, tem de se gerir bem”, conta. “Ao mesmo tempo, é interessante porque nos obriga a uma certa ginástica mental todos os dias. E é diferente! Acho que é por isso que a loja ainda chama muito a atenção. As pessoas gostam de ver, os comércios já desapareceram quase todos… Os antigos sapateiros, os carpinteiros que funcionavam nos vãos de escadas. Já desapareceu quase tudo. Enquanto pudermos manter, é isso que faremos!”, sublinha.

Entre a conversa, perde-se a conta daqueles que passam e param para olhar as flores, cheirá-las, ou mesmo tocar-lhes. E, para Elisabete, a magia das flores está logo à partida “na beleza natural que possuem”: “Nenhuma é igual à outra! Nenhuma composição é igual à outra, portanto nunca há essa monotonia de fazer um trabalho repetitivo”, defendeu, acrescentando que também os perfumes e a associação a datas de celebração, fazem desta profissão “muito especial”.

Por muitas voltas que se queira dar, conta a proprietária, “as rosas continuam a ser a flor de eleição a nível global”. Mas os pedidos de bouquets são sempre variados. Enquanto há pessoas que entram na loja e já sabem especificamente o que querem, tendo as lojistas de apenas torná-lo “real”, há outras que “dizem que não percebem nada de flores”, pedindo-lhes que sejam elas a idealizá-los.

 

100 anos cheios de histórias

A trabalhar na loja desde 2003, Elisabete perde facilmente a conta das histórias bonitas a que tem assistido, acreditando que a memória também a faz esquecer muitas delas. “Há muita gente que passa aqui e que diz que já é a terceira geração que cá vem comprar ramos de noiva, por exemplo. Essas coisas são muito frequentes. Como a casa já tem muitos anos, já a avó ‘casou cá’, já a mãe ‘casou cá’ e agora é a neta”, lembra. Uma outra história que recorda foi a comemoração dos 50 anos de um casal: “Tivemos um casal que tinha feito 50 anos de casados, tinham vindo cá comprar o bouquet para a cerimónia e depois ele trouxe-a cá nesse marco”. Além disso, revela, há situações mais engraçadas, do plano amoroso. “Há pessoas que nos pedem para escrever dedicatórias porque não sabem ser românticas, ou querem pedir desculpa e não sabem o que hão de dizer… Mais os senhores, quando se portam mal e não sabem como hão de dar a volta à situação. (risos) Nós fazemos o papel completo. E é fácil, porque já temos umas frases escritas que usamos sempre!”, admitiu. 

O momento mais marcante desde que se tornou dona da loja, foi, contudo, “toda esta situação da pandemia da covid-19”. Segundo Elisabete, olhando para o panorama geral dos comércios, a loja teve “sorte”, pois esteve inserida “numa cláusula de exceção”. “Poderíamos continuar a funcionar e ter a porta aberta. Mas acabámos por fechar porque não havia ninguém na rua. Não fazia sentido estar a ter gastos desnecessários!”, afirma. Apesar disso, as entregas ao domicílio continuaram. “Foi uma altura especial por isso. As pessoas sentiam saudades, necessidade de estar com as pessoas… Como não podiam, queriam fazer esses mimos. E acabavam por nos contar um bocadinho a dor. Foi um momento de grande emoção!”, acrescenta. 

Por isso, a florista mais antiga de Lisboa, parece, por um lado, não “ver” passar o tempo. Já que, apesar dos anos, o negócio parece ir de “vento em popa” e a proprietária acredita que assim continuará.  “Apesar de tentarmos acompanhar os tempos e estarmos também em plataformas online, acho que as pessoas não se cingem a comprá-las aí. Não se fartam das flores. Comprar flores no local é uma coisa prazerosa, tal como ir a um restaurante. As pessoas gostam de observar, tomar tempo. A experiência é diferente!”, reforça.

Devido à sua profissão, passa o dia “dentro do jardim” e aprecia cada uma das flores ou plantas que vende. “Nem sempre tenho flores em casa, mas tento ter. Às vezes levo aquelas que coitadinhas já estão mais engelhadas. Tenho pena de as mandar para o lixo, por isso levo-as comigo”, admite. Já quando desejaria receber flores, isso não acontece: “A mim já ninguém me oferece flores! Eu já disse que até gostava, mas não aparecem! (risos) Eu e as minhas colaboradoras sofremos todos do mesmo mal. Ninguém nos oferece flores!”, rematou. 

Em 2019, nasceu um projeto sem igual em Portugal, a primeira Flowertruck que veio compor o alternativo espaço LXFACTORY, em Alcântara. Expandindo o Pequeno Jardim numa Cintroen HY de 1970, conservando o estilo e antiguidade.

Os comentários estão desactivados.