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Que Sera Sera

Se tudo correr sem sobressaltos de maior, António Costa será primeiro-ministro e líder do PS quando – em 2024 – se colocar a questão da sucessão dos atuais titulares dos principais cargos europeus, entre os quais aquele para o lugar de quem António Costa poderia ter ido já em 2019, Charles Michel.

Que Sera Sera

E de repente meio mundo e alguns mais deram em discutir o que António Costa pensa fazer em 2024: passar a pasta de líder do PS em Portugal e partir para a sucessão do bababo Charles Michel, em Bruxelas, como presidente do Conselho Europeu? Ou continuar primeiro-ministro e preparar a candidatura a Presidente da República em 2026, candidatando-se a um inédito lugar na História como o primeiro a transitar diretamente de S. Bento para Belém? Ou, hipótese mais remota de quem disse um dia que ainda estava muito longe de meter os papéis para a reforma, cumprir a legislatura até ao fim e pendurar as botas? Ou ainda, porventura, continuar como primeiro-ministro para além de 2026 – Angela Merkel não esteve 16 anos como chanceler da Alemanha?

É verdade que dois anos passam num instante, mas, em política, são uma eternidade.

É por isso que, daqui até lá, não há quem para cá dos muros do Palácio de Belém esteja em condições de dizer o que vai passar-se no país, na Europa e no mundo. Regressemos aos exemplos vindos da Alemanha: por que deixou de ser chanceler Willy Brandt nos anos 70 do século passado? Por ter um espião russo no seu gabinete. Curioso, não é?

Também é um facto que, até hoje, ninguém saiu de S. Bento com boa imagem junto do povo português, muito menos com reais ambições de ganhar as eleições seguintes para a Presidência da República (Cavaco Silva tentou-o ao fim de 10 anos de Governo em 1996, quando perdeu com Jorge Sampaio, e só chegou a Belém depois de um período de nojo de 10 anos).

Curiosamente, o homem que pela primeira vez na história da democracia portuguesa chegou ao poder perdendo nas urnas é aquele que está em melhor condições para o conseguir vir a fazer, por muito que isso custe a muito boa gente.

António Costa tem um percurso eleitoral extraordinário.

Feito de algumas derrotas inesperadas, porque, apesar da aura mediática, sempre foi mau em campanhas eleitorais  e a conquistar o poder. E de outras vitórias não menos surpreendentes, como a mais recente obtenção da maioria absoluta em janeiro de 2022, porque é exímio na gestão do poder.

De tal forma que, uma vez apanhando-se na cadeira de quem manda, sempre teve melhor resultado quando voltou a sujeitar-se ao escrutínio das urnas.

Há uma exceção – que pode dizer-se que confirma a regra – nos idos 90 do século passado, e é interna: as eleições para a federação de Lisboa (FAUL), em que, sendo presidente, viu os guterristas juntarem-se aos soaristas e darem a vitória (por um voto) a João Soares contra si, na altura representante da ala sampaísta.

Pouco tempo depois, uma nova derrota eleitoral – desta vez em Loures (em que chegou a ser anunciado como vencedor mas em que o PCP conseguiu fazer valer os seus pergaminhos para manter a Câmara) – ia-lhe valendo, mesmo no PS, prognósticos de enterro político, que, como bem se comprovou, foram manifestamente precipitados.

No mais, conquistou Lisboa por pouco numas intercalares sem adversário de monta, mas ao fim de poucos anos de poder conquistou a maioria absoluta.

Já no país, depois de cometer a proeza de apear do PS um líder (António José Seguro) que até ganhara as eleições imediatamente anteriores (as europeias), acusando-o de uma ‘vitória por poucochinho’, perdeu as legislativas para a coligação liderada por Passos Coelho após quatro anos de um Governo PSD/CDS que pagou todo o ónus da troika e da austeridade inevitável para tirar Portugal da bancarrota herdada dos Governos do PS de José Sócrates e de... António Costa.

O resto é o que também se sabe. Deitou mãos à ‘geringonça’ para chegar a primeiro-ministro, mas uma vez lá foi sempre a subir: ganhou em 2019 com maioria relativa e agora com maioria absoluta.

Depois... logo se verá.

Não vale a pena grandes elucubrações.

Em junho de 2021, Fernando Medina afastava uma candidatura à liderança do PS porque tinha «um compromisso com os lisboetas». Contra todas as expectativas, menos de três meses depois perdia as eleições em Lisboa, e por isso o ‘compromisso’ com os lisboetas, mas perdia também as aspirações a ser candidato à liderança do PS. Ora, volvidos seis meses, aí está Medina ministro das Finanças e com renovadas ambições de um dia poder vir a ser candidato à liderança do partido.

Aliás, o próprio António Costa fez tabu de uma eventual recandidatura à liderança do PS e às legislativas que era suposto serem disputadas em 2023 – e foi para esta data que remeteu uma decisão pessoal, tomada em família, sobre o seu futuro político.

Entretanto, houve eleições antecipadas e o PS conquistou maioria absoluta e a questão da sucessão parece estar arrumada para as próximas eleições internas do PS, em 2023.

Ou seja, se tudo correr sem sobressaltos de maior, António Costa será primeiro-ministro e líder do PS quando – em 2024 – se colocar a questão da sucessão dos atuais titulares dos principais cargos europeus, entre os quais aquele para o lugar de quem António Costa poderia ter ido já em 2019, Charles Michel.

E, quando esse momento chegar, logo se verá.

Até lá, siga a marinha. Que o resto não passa de avisos à navegação, inúteis para a calmaria ou quando a borrasca já é grande.

 

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