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Ucrânia. Rússia atingida

Kiev tem evitado atingir a Rússia, para não provocar uma escalada. O ataque a Belgorod pode mostrar que os ucranianos não estão derrotados nos céus.

Ucrânia. Rússia atingida

Forças ucranianas, que até aqui se tinham limitado a defender o seu próprio território, destruíram uma cisterna de combustível em Belgorod, na Rússia, esta sexta-feira, queixou-se o Kremlin. Enquanto bombeiros russos tentavam extinguir a coluna de chamas que se ergueu nos arredores da cidade, a uns meros 80 km de Kharkiv, o Governo de Kiev manteve-se calado, não confirmando nem desmentiu o ataque. Vídeos mostram depósitos de combustível a ser atingidos por mísseis, que se pensa terem sido disparados pelos helicópteros Mi-24, ou Hind, mais conhecidos como os «tanques voadores».

Costuma dizer-se que «quem vai à guerra, dá e leva». A questão é porque é que a Ucrânia ainda não atingira alvos em território russo – exceto em Donbass, visto como quase russo pelo Kremlin, mas não pela comunidade internacional, Donetsk tem sido rotineiramente bombardeada – e o que pode ter mudado agora.

«Quando ouvi essa notícia fiquei muito perplexa», admite Sandra Fernandes, professora de Relações Internacionais na Universidade do Minho, especializada nas relações entre a Rússia e a Europa, ao Nascer do SOL.

«Neste momento só temos a Rússia a acusar. E temos de ser muitos cautelosos», realça. «Pode ser um pretexto para intensificarem a violência ou usar outro tipo de armamento», avalia a investigadora. «Não seria a primeira vez», recorda, referindo-se ao início da invasão da Ucrânia, precedida por alegações russas de que sabotadores ucranianos tinham cruzado a fronteira, ou imagens da misteriosa explosão do carro do chefe da polícia de Donetsk.

Aliás, a ausência de sortidas ucranianas até agora «tem a ver com o potencial de resposta do outro lado. Porque já foram ameaçando com as armas químicas, nucleares», considera Maria Raquel Freire, investigadora do Centro de Estudos Sociais (CES) e professora de Relações Internacionais na Universidade de Coimbra.

«Essa será uma das principais razões», explica a investigadora do CES. «A par da Ucrânia não ter capacidade militar, até em termos da aviação disponível, para retaliar na mesma medida que os russos atacam. Tem que usar as suas forças para a defesa», nota.

Já o recente ataque a Belgorod pode indicar que a Ucrânia – apesar das suas pesadas perdas nos primeiros momentos da guerra, em que as suas infraestruturas militares foram devastadas por mísseis de precisão russos – não está totalmente derrotada nos céus. A missão terá sido levada a cabo por helicópteros a voar de noite, a baixa altitude para escapar aos radares e defesas aéreas russas, infiltrando-se em profundidade no território do inimigo.

«Experienciei as capacidades extraordinárias dos pilotos militares ucranianos em 2018 – a voar a poucos metros acima do arvoredo e dos postes de eletricidade»,escreveu Jonathan Beale, correspondente para a Defesa da BBC, acrescentando que «têm feito exatamente isso há anos, no Donbass, no leste da Ucrânia».

«Este alegado ataque sozinho não vai dramaticamente alterar a batalha», avaliou Beale. «Mas pode mostrar que a Ucrânia conseguiu manter a sua força aérea a funcionar e dar um enorme impulso à moral dos militares ucranianos».

 

Negociações

Moscovo tem tentado mostrar o contrário, garantindo que a sua superioridade aérea na Ucrânia «é um facto absoluto», nas palavras do porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov. Que se queixou que o ataque ao depósito de combustível de Belgorod «claramente não é o que poderia criar condições para mais negociações», avançou a Tass, na quinta semana de uma invasão que já levou mais de quatro milhões de refugiados a fugir da Ucrânia.

De facto, a aposta nas negociações é apresentada como um dos motivos pelos quais os ucranianos não têm atingido o território russo. Aliás, Kiev, apesar do seu surpreendente sucesso militar que tem tido contra a invasão russa, já ofereceu algumas concessões, com Volodymyr Zelensky disposto a negociar a neutralidade da Ucrânia perante a NATO, uma das principais exigências do Kremlin antes da sua invasão.

«A Rússia tem tido muitas perdas, problemas na logística. Mas a capacidade militar russa é muito grande», lembra Maria Raquel Freire. «Os ucranianos sabem bem dessa desigualdade face ao gigante russo, apesar do apoio que têm recebido do Ocidente. Portanto Zelesnky também tem noção de que, para que o país não seja arrasado, é importante ir encontrando alguns equilíbrios, ir-se defendendo e fazendo algumas concessões».

Seja como for, o rebentamento do depósito de combustível de Belgorod deu aos habitantes desta cidade uma pequena – incomparavelmente pequena – amostra do que se vive ali ao lado, em Kharkiv. Com o incêndio nos tanques, e os receios de que escasseasse o combustível, surgiram filas de carros nas gasolineiras, tendo o Kremlin assegurado que ia fazer tudo para repor o fornecimento. O ataque obrigou à evacuação de residências nos arredores e dois feridos, avançou a Interfax, mas não provocou qualquer morte.

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