Um mundo às avessas

O nosso mundo fake. O circulo ocidental

O que e devia distinguir uma democracia é principalmente os seus valores que devem ser inegociáveis

O nosso mundo fake. O circulo ocidental

Por João Maurício Brás

A ideia que o apogeu de uma sociedade e de uma civilização é o mercado livre global e que este resolverá do melhor modo todos os problemas mundiais e da natureza humana está na origem do nosso relativismo total. Outro fracasso reside na crença que qualquer problema seria facilmente resolvido no âmbito jurídico. O estado de direito e o primado da lei são pilares fundamentais das democracias, mas se não estão escorados num fundo ético resultam apenas numa tecnicidade vazia. 

A ideia que todos os domínios da sociedade devem decalcar-se do funcionamento do mercado dito livre e que a paz e a prosperidade material são inevitáveis é outra ficção.

Imaginemos que podemos escolher entre receber 3 mil euros por mês ou afirmar na prática noções (efetivas, não mera proclamações) como dignidade, justiça, compaixão, solidariedade, capacidade de nos colocarmos no lugar do outro? Nós já escolhemos. Os 3 mil são uma metáfora, há quem receba biliões, e nós, no Ocidente, podemos comprar muitos objetos e ter uma prosperidade material relativa e a certeza de consumo permanente.

O que devia distinguir uma democracia é principalmente os seus valores que devem ser inegociáveis. A dignidade da pessoa e de uma sociedade regida pelos valores da democracia e da liberdade nunca, mas nunca devem ser secundários ou alienados como moeda de troca em negócios. O Ocidente vendeu a alma ao negócio amoral. Não nos podemos queixar de choques brutais com quem não quer ser dominado pelo nosso modelo de negócio e quer impor o seu. Estamos desarmados da mais letal das armas, a decência de facto, que claro também necessita de armas e exércitos a sério. A democracia não se defende com proclamações e belos discursos, e muitos menos com hipócritas.

Em 2022 realiza-se o campeonato do mundo no Qatar, país que não respeita os direitos fundamentais das pessoas independentemente do seu sexo e da sua orientação sexual. Os países democráticos estarão presentes.

Em 2018 realizou-se o mundial de futebol na Rússia; alguns anos antes, este país anexara uma parte do território da Ucrânia. A Alemanha, enquanto a Rússia seguia a sua política na Ucrânia e na Síria, assinou contratos e tornou-se cada vez mais dependente da energia russa.

Na composição anual do Conselho de Direitos Humanos da ONU para 2021-2023, encontramos a Rússia, a China, Cuba e Senegal. Quantos partidos da oposição existem nesses países? Em 2020-2022, encontrávamos nesse conselho a Venezuela, a Líbia e o Sudão.

Enquanto isto suceder a nossa democracia é falsa e nós somos cúmplices.

A civilização Ocidental é agora unicamente um modelo de negócio e caracteriza-se pelo hiperliberalismo predatório, uma invenção americana, um capitalismo amoral e pratica uma falsificação do progresso. Este não é sobre valores, mas sobre show e eventos festivos, como é o caso sobre os problemas ambientais, os géneros, as raças e as linguagens inclusivas e neutras. 

A Ásia e África são, por exemplo, um paraíso para as empresas ocidentais que procuram lucro fácil, trabalho mal remunerado e sem direitos e infração de normas ambientais básicas. No Ocidente podem sempre sinalizar a virtude afirmando-se gay e eco friendly.

Vivemos de facto num mundo e só nos podemos queixar de nós próprios. Os ativismos, as ONU’s e similares, por exemplo, não passam também de agências de produção de eventos. Não vale a pena fingir. 

Os comentários estão desactivados.