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Conheça o armamento que travou os russos (com Foto)

Ucranianos têm usado de forma mortífera armamento soviético e sistemas mais modernos enviados pela NATO. Foram equipados na expectativa de uma guerrilha, mas o seu sucesso no campo de batalha fez o Ocidente quebrar o tabu de enviar tanques, apesar do medo de represálias da Rússia.


Há semanas que o Governo de Volodymyr Zelensky implora à NATO por armamento mais pesado, como caças, tanques e artilharia de longo alcance. Até agora, a resposta dos estados membros, receosos da retaliação russa, tinha sido “não”. Mas a República Checa, discretamente, decidiu enviar para a Ucrânia cinco velhos tanques soviéticos T-72, mais cinco blindados para transporte de tropas, soube-se esta terça-feira, no rescaldo dos massacres de Bucha. Parece coisa pouca, mas o presente checo pode abrir um precedente para os restantes estados membros, que já tinham mandado enormes quantidades de armamento para as forças ucranianas. E que estas têm usado com eficácia mortífera e surpreendente contra os invasores russos.

As forças ucranianas têm recorrido a um arsenal que mistura velho armamento pesado dos tempos soviéticos com os mais modernos sistemas ligeiros à disposição do Ocidente (ver infografia ao lado). Países da NATO têm enviado tudo o que possa ser qualificado como “defensivo”, sendo a mais recente aquisição do Governo de Kiev os mísseis antiaéreos britânicos Starstreak.

Estes sistemas, que podem ser utilizados por um soldado de infantaria ou montados em veículos ligeiros, começaram a chegar há pelo menos duas semanas, tendo o Reino Unido enviado uma equipa para treinar militares ucranianas no seu uso, recorrendo a simuladores numa localização secreta num país vizinho.

Não há mísseis ligeiros com uma velocidade comparável aos do Starstreak, bastando ao utilizador apontar com uma mira laser para manter os três dardos de tungsténio disparados a seguir o seu alvo. E já foram utilizados para abater um helicóptero de ataque Mi-28 russo que sobrevoava Luhansk, mostrou um vídeo divulgado pelo Ministério da Defesa da Ucrânia este fim de semana. Nas imagens vê-se um esquadrão de helicópteros russos a tentar fugir dos dardos disparados, sendo um deles atingido e quase partido ao meio, com o rotor a ir para um lado e o cockpit para o outro. A Thales, a multinacional francesa que fabrica os Starstreak no Reino Unido, certamente está a esfregar as mãos de contente com esta demonstração real do potencial do seu novo sistema.

“É vital que a Ucrânia mantenha a sua capacidade de voar e suprimir ataques aéreos russos”, salientou o secretário da Defesa britânico, Ben Wallace, o mês passado, citado pela Reuters, explicando a decisão do seu Governo de enviar os Starstreak para a Ucrânia. “Acreditamos que este sistema continuará dentro da definição de armas defensivas, mas permitirá às forças ucranianas defender melhor os seus céus”, considerou.

O Kremlin, receoso de ver as suas pesadas perdas – apenas reconhece ter sofrido 1 351 baixas, mas as estimativas da NATO andam entre os sete mil e os 15 mil, números comparáveis aos mortos soviéticos durante dez anos de guerra no Afeganistão, com o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) a apontar que a Rússia pode ter perdido um quarto da sua força de combate inicial – contra um inimigo militarmente inferior aumentarem ainda mais, naturalmente não concordou com avaliação de Londres.

O envio dos Starstreak “exacerba a situação, tornando-a ainda mais sangrenta”, acusou o embaixador russo no Reino Unido, Andrey Kelin, à agência Tass. “As nossas forças armadas verão-as como um alvo legítimo se estes fornecimentos atravessarem a fronteira ucraniana”, ameaçou Kelin. “Aparentemente, estas são novas armas de alta precisão”.

 

Da guerrilha à guerra convencional

Na prática, os Starstreak cumprem a mesma função dos Stinger americanos, só que com maior alcance e precisão. Estes lança-mísseis de ombro são velhinhos, mas de provas dadas contra helicópteros de fabrico russo. Os mujahidin do Afeganistão – alguns dos quais fundariam os talibãs e a Al Qaeda – receberam enormes quantidades de Stingers dos Estados Unidos nos anos 1980, condenando a invasão soviética.

As remessas iniciais de armamento vindas da NATO indicavam que a expectativa era que a invasão da Ucrânia seguisse um rumo semelhante. Ninguém esperava que as forças convencionais ucranianas conseguissem travar as forças russas, o cenário previsto era que o país caísse nas mãos de Moscovo e se seguisse um conflito de guerrilha. Os milhares de mísseis antitanque enviados pelo Ocidente eram ideais para isso como os mísseis britânicos NLAW ou os Javelin, que têm maior alcance. São fáceis de usar com pouco treino e ótimos para combate urbano, podendo ser disparados dentro de casa com relativa segurança.

Já o envio de drones para a Ucrânia deixava antever uma espécie de guerrilha de nova geração, ameaçando as colunas russas pelo ar com os Baykar Bayraktar TB2 turcos – estes drones equipados com mísseis deram aos azeris a sua vitória sobre a Arménia na guerra de Nagorno-Karabakh, em 2020 – ou os Switchblade, drones suicídas produzidos pelos EUA, feitos para caçar tanques. Que também têm sido utilizados para reconhecimento aéreo, dando uma letalidade sem precedentes aos antigos lança-mísseis Grad ou S-300 soviéticos ainda usados pelas forças ucranianas.

De facto, o sucesso inesperado da Ucrânia no campo de batalha, combinando a defesa convencional de estradas estratégicas com sucessivas emboscadas lançadas das florestas, contra a retaguarda das colunas russas, pode incentivar países da NATO a enviar armamento ofensivo, mais pesado. Até agora, os ucranianos, que usam sobretudo tanques T-64 de design soviético, apenas têm reposto as suas perdas capturando blindados aos russos. Têm a sorte que estes também usam bastantes tanques de modelo soviético, semelhantes aos que forças ucranianas estão treinadas a usar.

As perdas russas têm sido tais que a Ucrânia chegou a possuir mais tanques no final do mês passado que no início da guerra, avançou a Forbes. Ainda assim, na prática, os ucranianos “estão a combater numa guerra convencional contra a Rússia”, lembrou Justin Crump, analista da Sybilline à Business Insider. ”E não os equipámos para isso”.

 

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