Sociedade

Aula 1: quartzo, a primeira matéria-prima

Setas de sílex, a areia da Praia da Rocha, ametistas, a Livraria do Mondego. Todas têm o quartzo em comum. É o segundo mineral mais abundante. Doenças é que não afasta, diz Galopim de Carvalho: ‘Aconselhar alguém a trazer uma pedra azul porque lhe aumenta a inteligência ou faz bem ao fígado é falsa ciência’.

Aula 1: quartzo, a primeira matéria-prima

Depois dos entraves técnicos das aulas à distância deste século, como aquele momento em que se tenta partilhar a tela do ecrã lá de casa e a coisa teima em não querer funcionar à primeira, Galopim de Carvalho, que aos 90 anos migrou para o Zoom, deu início à apresentação que abriu esta terça-feira o novo ciclo de conversas sobre geologia organizado pelo Museu Nacional de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa. O tema: Quartzo, a primeira matéria-prima. Primeira porque foi deste material duro e ultrarresistente que os homens primitivos fizeram as suas primeiras ferramentas, ou não fosse o componente do sílex, que deu forma às pontas de seta e lâminas milenares que a arqueologia trouxe até aos nossos dias.

Hoje o quartzo continua a ter múltiplas aplicações, da bijuteria à relojoaria, onde dá o pulso que marca os segundos nos relógios, explicaria o professor, já que uma das suas propriedades é a piezoeletricidade, a capacidade de alguns cristais para gerarem tensão elétrica quando são comprimidos. Esta matéria há de ficar para uma próxima conversa, disse Galopim de Carvalho, e são 13 marcadas até 21 de junho, que aqui traremos em jeito de sumário e nesta primeira houve muito que não sabíamos.

 Galopim de Carvalho evocou o antigo autarca de Viseu Almeida Henriques, que fez um ano esta semana que desapareceu vítima de covid-19. Almeida Henriques foi um dos promotores do Museu do Quartzo, em Viseu, inaugurado em abril de 2012 ainda no mandato de Fernando Ruas, um projeto impulsionado pelo antigo professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Com uma razão simples: é em Viseu, no Monte de Luzia, que se encontra o afloramento de quartzo mais potente de Portugal, onde durante mais de duas décadas se extraiu esta pedra.

Mas o que é afinal o quartzo? É o segundo mineral mais abundante do planeta, mas Galopim de Carvalho sublinha que quando se pensa numa espécie única, pode ser considerado o mais abundante, pois o grupo dos feldspatos, que ocupam o primeiro lugar, são uma grande família. Infiltrou-se ao longo de milhões de anos a partir da sílica do corpo granítico em fendas menos ou mais alargadas abertas no granito. Em profundidade, no maciço, com temperaturas superiores a 500 graus, o quartzo dissolve-se e migra, aproveitando tudo o que são fissuras. O que vemos é exposto pela erosão ou extraído. E Viseu é um bom exemplo: «O granito foi arrasado pela erosão e o filão quartzo ficou em relevo. Sendo quimicamente inerte e fisicamente muito duro, resiste à chuva, aos ácidos, à presença de oxigénio, à humidade. E a prova é que só depois da erosão mecânica é que fragmentos de quartzo vão pelos rios abaixo, vão aparecendo nas praias. É raro ver calhaus de granito nas praias, mas na generalidade das praias há grãos de quartzo».

Sim, são as pedrinhas que reluzem, arredondadas pelo mar mas ainda brilhantes, ao contrário dos grãos de quartzo nas areias do deserto, picados pelo vento e uns pelos outros, comparou Galopim de Carvalho. Um exemplo familiar de muitos portugueses: a praia da Rocha, em Portimão. «A areia foi retirada há muitos anos do estuário do rio Arade, depois de estudos feitos pelo Laboratório de Engenharia Civil. Ainda me lembro de ir à praia quando a areia era muito mole, misturada com barro. Depois a água do mar foi lavando. Hoje é predominantemente quartzo e fragmentos de conchas e bicharada como berbigão. O tom amarelado das nossas praias é muito resultado disso».

Mas há mais quartzo à vista pelo país. Por exemplo na rocha que dá pelo nome de arenito, com os seus pontinhos brilhantes, a pedra que dá cor ao Castelo de Silves (grés ou arenito de Silves) ou que era usada pelos carpinteiros nos seus ‘rebolos’ para afiar instrumentos, dando fio ao ferro.

Outra rocha constituída por quartzo está presente em formações geológicas bem conhecidas. Galopim de Carvalho deu quatro exemplos de geosítios de quartzito, um deles facilmente associado a um ditado popular: água mole em pedra dura, tanto dá até que fura. A água mole é o Tejo e a pedra dura é o quartzito das Portas de Ródão, em Vila Velha de Rodão, que a custo o rio desgastou abrindo a garganta por onde passa.

Em Penacova, também é quartzito que aparece na formação geológica que por ser parecida – é preciso fazer um esforço, é certo – como uma estante de livros, foi batizada de Livraria do Montego.

Em Penha Garcia, também é em quartzito que ficaram preservados vestígios da passagem de bilobites, fósseis de animais e crustáceos. E para quem queira ir à caça de quartzito, há ainda as rochas do anticlinal de Valongo, que terão sido formadas há 500 milhões de anos, onde um dos pontos de atração é a dobra na Senhora do Salto, em Aguiar do Sousa, com as suas camadas de sedimentos em forma de arco.

As propriedades do quartzo? A dureza é a primeira, apontou Galopim de Carvalho, mostrando que ocupa o sétimo lugar na escala de Mohs, que quantifica a dureza dos minerais. Mais duros só o topázio, o corindo e o diamante. Mais: está entre os minerais que conseguem riscar vidro mas não se deixam riscar por ele. Depois, fratura-se de forma conchoidal, o que dá por exemplo os desenhos em forma de concha que se veem em alguns artefactos primitivos. Há ainda as suas múltiplas cores, do quartzo rosa, raro, ao quartzo fumado ao quartzo translúdico, hialino, o cristal da rocha. Tão parecido com gelo que reza a história que Aristóteles, 300 a.C, considerava que era gelo que tinha solidificado tanto que já não conseguia derreter. Afinal era pedra.

Outra característica é a permeabilidade à luz. Para explicar por que é que existe quartzo branco leitoso e quartzo totalmente transparente, o tal quartzo hialino, Galopim de Carvalho foi buscar um exemplo doméstico, que se aplica também à natureza das rochas. «Todos sabem bater claras em castelo. A clara do ovo é transparente e a clara do ovo batido fica branca. Ao bater introduzimos bolhas de ar. Ao princípio as bolhas são grandes e a clara escorrega. Quando batemos muito bem, podemos virar a tigela que já não cai. É a mesma razão no quartzo: minúsculas inclusões gasosas, de água ou de dióxido de carbono, retiram-lhe o caráter translúcido».

Outra característica é a dispersão da luz, mas nisso nada bate o diamante e é um dos meios usados para distinguir as pedras e não comprar gato por lebre. E por fim a piezoeletricidade, que ficará para a sessão de 14 de junho, dedicada às aplicações industriais do quartzo.

De onde vem a cor? Por exemplo da radiação gama presente noutras rochas. Sim, a ametista é roxa por causa de radiotividade, emitida pelo granito e pelo feldspato, mais penetrante que raio-X, processos que ocorrem no interior da crosta. Há ainda o quartzo citrino, cor de limão, o quartzo ametrino, fusão dos últimos dois, o quartzo defumado, o quartzo verde ou prasiolite, o quartzo azul ou o rosa, todos estes muito raros na natureza e cada vez mais produzidos de forma sintética. Para não falar dos quartzos microcristalinos usados em decoração e joias como as ágatas (o sílex também entra na categoria de quatrzo microcristalino).

Com tanto cristal, a pergunta da sala virtual foi sobre isso mesmo: ‘espiritualmente’ é melhor usar os naturais ou sintéticos? Em termos químicos e físicos são iguais, mas resume-se ao mesmo: falsa ciência, respondeu Galopim de Carvalho, lembrando que já em criança a mãe lhe dava pedras como amuletos. «Em termos científicos, qualquer substância mineral é química e estruturalmente idêntica ao artificial. Um quartzo natural e um quartzo sintético são idênticos. Se vamos para o esoterismo, há um historial muito antigo que vem da Idade Média de dizer que esta pedra faz bem a isto e aquilo. Tudo isso é falsidade e alimenta um comércio mundial importantíssimo que decorre da ignorância das pessoas», observou. Será de resto um dos temas de um novo livro feito a quatro mãos com o filho gemólogo Rui Galopim de Carvalho sobre pedras preciosas, que terá as crenças de cada uma: «Do ponto de visto cultural, é importante falar sobre o esoterismo. Agora aconselhar alguém a trazer uma pedra azul porque lhe aumenta a inteligência ou faz bem ao fígado é pura falsidade e falsa ciência». Na próxima terça-feira, a segunda aula será dedicada à geologia das praias.

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