No Meio de Nós

O negacionismo revivido no século XXI

É curioso ver que o Governo português deu duas semanas para os ‘espiões’ russos saiam de Portugal. A sério? Então, os ucranianos têm muitas vezes dois segundos para fugirem das suas cidades, das suas famílias, das suas casas e nós damos quinze dias a quem anda a fazer atividades que colocam em causa a segurança portuguesa?

O negacionismo revivido no século XXI

Estive a falar com um amigo meu negacionista. Não acredita que a Rússia esteja a fazer esta barbárie na Ucrânia. Bem… eu penso que ele acha que temos de não acreditar em tudo o que ouvimos dizer.

Realmente, o negacionismo é algo que está na alma das pessoas. Ele também é negacionista da covid-19. Agora está a linha negacionista da ‘ação militar especial’ Russa. Começo a pensar que pode ser uma atitude de vida: colocar tudo em questão! Não querer ir em carneirada.

Penso, também, que, dentro de uns anos, seremos todos chamados de negacionistas ou, pelo menos, colaboracionistas!
Vejamos como vemos, hoje, o fenómeno da Segunda Guerra Mundial. 

Uma das críticas que está viva na memória coletiva é o suposto silêncio do Papa Pio XII sobre as atrocidades de Hitler. Os documentos históricos só agora estão para consulta. Começam a surgir os números de judeus salvos por ação direta ou indireta deste Papa em Itália. Também não sei se querem mesmo saber a verdade, mas vão ter a possibilidade de, ao menos, perceber a complexidade do seu pontificado.

Também nos faz impressão uma outra coisa: como pode uma sociedade, como a alemã, seguir uma personagem tão ignóbil como é o caso de Adolf Hitler? Não teria havido um conjunto de pessoas equilibradas capazes de romper com aquela atrocidade que se estava a fazer? Como é possível que uma sociedade inteira seja dominada por um só homem?

Talvez às muitas questões que surgem ao ler a história alemã do século XX possam ter a sua leitura na história desta invasão russa. Há um paralelismo incrível entre o imperialismo hitleriano e este de Putin! Hoje, como naquele tempo, percebemos que a sociedade onde vive este ditador não acredita que esteja a haver uma guerra iniciada pela Rússia. Também hoje, mas ainda mais grave do que há oitenta anos atrás, estamos a assistir ao extermínio de um povo e estamos preocupados com o aquecimento das nossas casas.

São poucos os russos que acreditam, realmente, que esta guerra seja injusta. A narrativa inventada dos ditadores daquele tempo, da Segunda Guerra Mundial, e de agora manipulam as massas e invertem as histórias. Daqui percebemos o quão importante é uma imprensa livre e bem formada, porque ela tem o poder de converter o pensamento humano.

Nós, porém, não vivemos na Rússia! Vivemos na Europa… e não estaremos também nós a ser negacionistas ou colaboracionistas? Não serão as vidas dos ucranianos mais importantes do que o conforto da casa de cada um de nós? 

Teremos de fazer sacrifícios no futuro, mas a culpa não é, na realidade, de Putin. A culpa é de quem deixou que um só país assumisse uma espécie de monopólio energético que nos deixa, hoje, de pés e mãos atentos. 

É curioso ver que o Governo português deu duas semanas para os ‘espiões’ russos saiam de Portugal. A sério? Então, os ucranianos têm muitas vezes dois segundos para fugirem das suas cidades, das suas famílias, das suas casas e nós damos quinze dias a quem anda a fazer atividades que colocam em causa a segurança portuguesa?

A história vai julgar-nos como heróis ou como cobardes. Heróis, se formos capazes de renunciar ao nosso conforto para salvação de muitos ucranianos. Cobardes, se continuarmos mais preocupados connosco do que quem está a viver por dentro de um autêntico inferno.

Nós, não podemos permitir-nos continuar a ver esta barbárie e, ao mesmo tempo, continuarmos a financiar a guerra dos inimigos.

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