À Esquerda e à Direita

Óleo de primeira prensagem e censores à coca

A procura, tão incompreensível como estúpida, já que não faltam óleos para fritar além do de girassol, fez com que as grandes superfícies tenham limitado o número de garrafas que cada um pode levar no carrinho de compras.

Óleo de primeira prensagem e censores à coca

Vivemos tempos estranhos. O óleo alimentar, um produto de segunda, usado para fritar peixe e batatas, está mais caro que o azeite! Por este andar ainda havemos de ver afamados chefs a usarem nas suas receitas óleo de primeira prensagem. A procura, tão incompreensível como estúpida, já que não faltam óleos para fritar além do de girassol, fez com que as grandes superfícies tenham limitado o número de garrafas que cada um pode levar no carrinho de compras.

Eu que uso uma ou duas garrafas por ano ainda vou ter problemas em encontrar uma quando quiser fritar uns jaquinzinhos, que espero que a minha peixeira os anuncie para os ir buscar. Qual a razão para esta loucura? O óleo de girassol vinha da Ucrânia, que agora, como é óbvio, não o pode exportar. Mas que raio. Há muitos outros, embora a preços ligeiramente superiores. Esta corrida aos óleos alimentares serve bem para ilustrar como as pessoas ficam irracionais em momentos de maior tensão.

O que se irá passar a seguir? Como o preço do trigo está a disparar, é natural que o preço do pão acompanhe essa subida. E o que irá fazer o Estado perante isto? Irá pedir aos supermercados para começarem a racionar também as farinhas? Ou os consumidores vão encher os seus congeladores com o pão antes deste aumentar?

Falando mais a sério, o Estado terá de diminuir os impostos de produtos básicos para as populações mais desprotegidas, o que não é o caso, obviamente, do óleo. Mas não pode permitir que o pão atinja preços que sejam incomportáveis para aqueles que têm menores rendimentos. Aí teríamos seguramente contestação social. Algo que não deve estar muito longe de acontecer.

Mas não são só os pobres que estão a ser afetados pela crise. Também a classe média, que gostava de comprar um bom berbigão, a preços em conta, agora começa a pensar duas vezes antes de não optar pelo de aquacultura. Os carabineiros a 120 euros ou até mais, nas praças, também se tornam proibitivos para aqueles que não pertencem ao topo da hierarquia salarial.

Não sei como, mas temos sempre a capacidade de nos adaptarmos, pois quando houve a mudança do escudo para o euro, como que por artes mágicas, determinados produtos dobraram o preço e ninguém tugiu ou mugiu.

Mas o que se começa a ver um pouco por todo o mundo são os protestos por causa de alguns aumentos exagerados. E aqueles que amam a democracia não devem ficar contentes com o caos, pois é nessas situações que os extremistas ganham espaço. Sejam eles de esquerda ou de direita.

E a vida está cheia de gente que tem tentações totalitárias. Vejam-se as feministas do movimento #Metoo que querem «derrubar» Picasso, por causa da vida que levou, tendo, segundo elas, subjugado as mulheres, amantes e prostitutas, e que, por isso, será preciso repensar a obra do pintor. Esta gente parva não tem mais nada com que se entreter do que andar a espreitar pelo buraco da fechadura da vida dos outros. Estes censores dos tempos modernos nem querem ter a mínima preocupação em enquadrar as épocas e os comportamentos.

Penso que até as noivas japonesas que se casam consigo mesmas – se não estiver a par do fenómeno pode sempre ler na edição de Páscoa do i, nas bancas até ao fim de semana – ainda irão enfrentar alguma associação a protestar contra esse ato, pois estão a discriminar potenciais noivas ou noivos.

Outra vez mais a sério, tentei não escrever sobre o que penso dos negacionistas do ataque russo à Ucrânia. Com as imagens que nos chegam é difícil compreendê-los, mesmo aceitando-os, é óbvio que sim. A liberdade é um bem precioso demais para perdermos tempo com esses tontos.

vitor.rainho@sol.pt

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