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Dérbi. Angola era nossa

Em agosto de 1969, numa exibição de prepotente colonialismo, Benfica e Sporting disputaram jogos em Lourenço Marques e Luanda.

Dérbi. Angola era nossa

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O Império Português ainda ia do Minho a Timor, embora já espoliado da pérola da Índia Portuguesa cujos mapas, nós, miúdos do meu tempo, continuávamos a decorar nas aulas na completa ignorância de que já tinha passado para as mãos da União Indiana. Mandava o regime não tolerar essa invasão, Goa, Damão e Diu, e os enclaves de Dadrá e Nagar-Haveli continuavam a ser portugueses até à inconsciência, também não foi por isso que ficámos menos cultos.

Sem Índia, Angola passou a ser, definitivamente o grande orgulho colonial do Estado Novo. E assim sendo, fazia todo o sentido que o maior dos jogos do futebol português fosse jogado, pelo menos uma vez, no Estádio dos Coqueiros. A lotação de vinte mil lugares esgotou num ápice.

Os jogadores de ambos os clubes viajaram juntos desde a cidade da Beira, em Moçambique, e foram recebidos de forma apoteótica pelo povo angolano, sedento de ver ao vivo os seus ídolos. Como aperitivo, Lourenço Marques tinha sido palco do primeiro dérbi em terras de África três dias antes, um jogo maçador e mazombo ganho pelo Sporting por 1-0 mas no qual, de um lado e do outro, pareceu mais tratar-se de um frete do que uma disputa de rivais acesos como era o caso.

Talvez por isso, o embate de Lourenço Marques tenha tombado de cabeça no poço do olvido generalizado, dedicando-se a imprensa a promover o espetáculo que teria lugar em Luanda no dia 10 de agosto de 1969.

Para tristeza de quase todos, Eusébio não estava. A contas com mais uma lesão no desgraçado joelho esquerdo que tanto prejudicou a sua carreira, via-se igualmente numa batalha com a direção do Benfica em relação à renovação do seu contrato. Um tira-teimas que estava destinado a perder por via da maldita Lei da Opção que o impediu de ser contratado por qualquer um dos maiores clubes do mundo.

Otto Glória já tinha declarado que, na ausência do Pantera Negra, iria caber a José Augusto partilhar o ataque com José Torres, ficando Simões, Jaime Graça e Coluna no apoio à dupla da frente. Por seu lado, o treinador dos leões, Fernando Vaz, mostrava-se satisfeito com o regresso de Hilário, após lesão, e prometia uma linha avançada composta por Morais, Lourenço, Nelson e Oliveira Duarte.

Os angolanos, excitados, esperavam um confronto recheado de golos e de movimentos ofensivos, um embate digno do nome de Benfica e Sporting. A frustração tomou conta deles à medida que o jogo foi decorrendo. O Sporting estava presente. Do lado do Benfica, apenas um fantasma...

O super e o sub

A vitória do Sporting foi claríssima e não deixou margem para quaisquer dúvidas. Toda a gente concordou que um Super-Leão esmagou facilmente uma Sub-Águia. «Fazendo alarde de uma notável superioridade físico-técnico.tática em relação ao adversário, o Sporting convenceu todos que, pelo menos no momento que passa, está acima do Benfica», escrevia um dos enviados especiais a Luanda.

«Jogando com clarividência, disciplinadamente, os leões desde o primeiro minuto que começaram a fazer jus ao triunfo final e a diferença de golos conseguida acentua, sem exageros, o seu predomínio ao longo dos noventa minutos. O Benfica não tem de se queixar. Foi sempre uma equipa com a sensação de que lhe faltava qualquer coisa (Eusébio?), nunca encontrando o melhor sistema para segurar o adversário».
O resultado final foi de 5-2.

Mas a verdade é que, durante largos minutos, perpassou a ideia de que a goleada viria a ser bem mais dolorosa para os encarnados. Logo no primeiro minuto, num canto marcado por Nelson, José Henrique e Torres atrapalharam-se nas alturas e a bola sobrou para Gonçalves que marcou sem dificuldade nenhuma. Bandeiras verdes e brancas esvoaçaram pelas bancadas dos coqueiros. 

Dez minutos mais tarde, nova confusão na defesa do Benfica. Desta vez foi Calado a tentar um passe de risco, atrasado, para José Henrique. Matreiro, Lourenço interpôs-se, ganhou a bola, e depositou-a suavemente no fundo das redes.

A equipa de Otto Glória parecia completamente perdida em campo. E estava. Os passes errados eram mais do que muitos, as falhas defensivas comprometedoras, o 3-0 surgiu logo no início do segundo tempo, aos 53 minutos, tão natural como a sede que apertava as gargantas dos espetadores africanos. Desta vez foi Nelson que bateu Humberto Coelho em corrida após um passe em profundidade de Gonçalves e, isolado frente a José Henrique, tratou de fazer o gostinho ao pé.

Quando, aos 68 minutos, os dois Humbertos da defesa do Benfica, Coelho e Fernandes, se desentenderam e deixaram Marinho à solta para o 4-0, já toda a gente estava na expectativa de uma goleada memorável.

Enfim, havia ainda que contar com o orgulho da águia ferida na asa. Torres, o Bom Gigante, irritou-se: um canto marcado por Simões e ei-lo a voar mais alto do que toda a gente na área do Sporting a a bater Damas. Tinha apenas decorrido um minuto. Mas, à entrada para o último quarto de hora, Nelson devolveu a vantagem aos leões concluindo um lance nascido do maravilhoso pé esquerdo de Fernando Peres.

O espetáculo iria terminar com o frango do enorme Vítor Damas. Mais uma vez Torres, desta vez num remate de longe, mas enrolado e frouxo que dava toda a sensação de ser tarefa fácil para o guarda-redes do Sporting. Estranhamente, atrapalhou-se. Um passo em falso e a bola a passar-lhe por entre as pernas. Houve quem se risse. Afinal era de uma festa que se tratava. Uma festa pintada a verde nas ruas de Luanda que, pela primeira vez, recebia um Sporting-Benfica. Malhas que o Império tece.

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