Opiniao

A 'ressurreição' de Medina…

Estava ‘escrito nos astros’ que Fernando Medina seria a escolha de António Costa para ministro das Finanças, num esforço para reabilitar o delfim e reposicioná-lo na primeira linha sucessória, depois do desaire eleitoral que o apeou no município da capital, e da história mal contada das informações passadas a Moscovo sobre ativistas russos, que se manifestavam em Lisboa contra Putin.

A 'ressurreição' de Medina…

Estava ‘escrito nos astros’ que Fernando Medina seria a escolha de António Costa para ministro das Finanças, num esforço para reabilitar o delfim e reposicioná-lo na primeira linha sucessória, depois do desaire eleitoral que o apeou no município da capital, e da história mal contada das informações passadas a Moscovo sobre ativistas russos, que se manifestavam em Lisboa contra Putin.

Sejamos claros: numa democracia amadurecida, menos tolerante e com uma opinião pública interventiva, um escândalo desta natureza - do qual o então presidente procurou, atabalhoadamente, subtrair-se e ‘sacudir a água do capote’ -, teria implicado a sua demissão e forçado a uma demorada ‘cura’ fora da ribalta política.

Pelo contrário, Medina apressou-se na desresponsabilização, arranjou um subalterno para ‘bode expiatório’, enquanto o Ministério Público abriu um inquérito, que, se não ficou no ‘tinteiro’, nada mais se soube.

O certo é que ficou provado que o Município lisboeta habilitava a embaixada russa com os dados pessoais dos organizadores de manifestações hostis ao Kremlin, enquanto o seu presidente ‘assobiava ao cochicho’…

Fosse ou não por isso, Medina foi castigado pelo eleitorado, depois de passear a sua soberba pela cidade durante a campanha, já esquecido dos ativistas russos, cuja segurança fora posta em causa por uma prática leviana. E reincidente. 

E essa foi a grande surpresa das eleições autárquicas, que deram uma merecida vitória a Carlos Moedas, festejada por Rui Rio sem ter feito nada por isso.

Percebeu-se logo após o revés, que António Costa tudo faria para recuperar o seu pupilo, que adotou um prudente silêncio a seguir à derrota. 

Mas foi ‘sol de pouca dura’. Investido nas Finanças, sem que se lhe conheça currículo para tanto, Medina herdou um Orçamento preparado pelo antecessor, João Leão - ‘chumbado’, aliás, na anterior legislatura - e chamou-lhe seu, desdobrando-se em entrevistas.

Mal sentado no Ministério, Medina declarou na RTP, sempre a jeito, que o Orçamento era «a melhor resposta ao momento que Portugal está a viver», assegurando que o executivo «está preparado para gerir a atual conjuntura de aumento da inflação». Mas não explicou como.

Afinal, Medina limitou-se aos ajustes mínimos para que o Orçamento não parecesse, apenas, um ‘caldo requentado’. Convenhamos que é muito curto, com uma guerra na Europa e o mundo a mudar rapidamente.

Quanto ao seu antecessor, João Leão, cuidou da vida e acautelou o futuro no ISCTE, ao qual regressou, empossado nas novas funções de vice-reitor pela a atual reitora, Maria de Lurdes Rodrigues, por acaso, ex-ministra da Educação socialista. Tudo em família.

Mas Leão não voltou à sua escola de mãos a abanar. Segundo o jornal Público, o ISCTE viu incluída no Orçamento uma choruda verba para o financiamento do ambicioso Centro de Valorização e Transferência de Tecnologias, projeto ao qual não terá sido estranho o ex-ministro.

Tratar da ‘vidinha’ não é inédito nas Finanças nem no histórico socialista. Já Mário Centeno o fizera, quando, mal saído do Terreiro do Paço, deu um passo ao lado e ungiu-se governador do Banco de Portugal que tinha tutelado, sem respeitar o menor ‘período de nojo’. 

A ética foi mandada ‘às malvas’, mas nada que fosse ilegal. Já a ex-ministra da Justiça, Francisca Van Dunem não precisou de ‘saltar de galho’ para ‘meter os papéis’ para a reforma como juíza conselheira do Supremo Tribunal de Justiça, sem nunca ter exercido essas funções, das quais tomou posse há seis anos. 

Não é de estranhar, portanto, que Leão tenha seguido estes e outros exemplares ensinamentos, enquanto Medina pode dormir descansado. Mesmo sem o palco de ‘comentador’ de televisão, não lhe faltará nas Finanças ‘tempo de antena’, para não se atrasar na compita com os outros delfins de Costa, candidatos à ‘herança’. 

Pode haver quem pense que a ‘ressurreição’ de Medina é um ‘presente envenenado’, colocando-o num lugar para o qual não dispõe de credenciais. Infelizmente, não está sozinho. 

Admitiu-se o mesmo com Pedro Nuno Santos. E, no entanto, foi reconduzido e arrisca-se a ficar na história como artífice empenhado na renacionalização da TAP. 

A ‘nossa’ companhia de bandeira tem servido para somar prejuízos e esbulhar os contribuintes, que já ali enterraram milhões sem retorno, para adiar a sua falência, a troco de miríficas promessas de lucro num o futuro imperscrutável. Palavras para quê?

Quase com meio século de vida, o PS está agarrado ao poder. É um partido-Estado hegemónico, que aproveitará a maioria absoluta para se consolidar, beneficiário das fraquezas da oposição.

Entretanto, Costa há de querer candidatar-se a Belém, ou a um cargo internacional… ou à reforma. A desgraça dos portugueses soma e segue, sem descolarem da cauda da Europa. 

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