Cultura

96 anos em retrospetiva

Isabel II já viveu muito em quase um século de vida. A morte do seu pai mudou a sua vida para sempre. Aos 25 anos, subiu ao trono e é hoje a única monarca britânica a completar sete décadas de reinado. Enquanto rainha presenciou o pós-II Guerra Mundial, uma pandemia, e agora uma guerra às portas da Europa.

96 anos em retrospetiva

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No número 17 de Bruton Street, em Mayfair, Londres, numa casa que foi destruída na II Guerra Mundial, e onde hoje funciona um restaurante chinês e um stand de automóveis, nasceu  Elizabeth Alexandra Mary Windsor, a 21 de abril de 1926. Aos 96 anos, Isabel II é a primeira monarca britânica a comemorar um jubileu de platina. 

Não era esperado que Isabel se tornasse rainha, mas facto é que completou sete décadas no trono. Era a terceira na linha de sucessão, depois do seu tio, príncipe de Gales, e do seu pai, o príncipe Alberto, duque de Iorque. O príncipe de Gales era jovem e todos esperavam que se casasse e tivesse filhos. Quando o seu avô, o rei George V morreu, em 1936, é o tio Eduardo VIII quem ascende ao trono. No mesmo ano, abdicou para se casar com Wallis Simpson, uma americana divorciada, abrindo uma crise institucional. É aí que o duque de Iorque, pai de Isabel sobe ao trono como George VI, colocando a então princesa como futura rainha, o que se veio a confirmar em fevereiro de 1952.

Durante uma visita ao Quénia, recebeu a notícia da morte prematura do pai, aos 56 anos de idade. Regressou no mesmo dia para ser proclamada rainha aos 25 anos de idade, a 6 de fevereiro de 1952.

Devido ao luto pela morte do pai, foi coroada apenas a 2 de junho de 1953, numa cerimónia para mais de oito mil convidados com três horas de duração, que custou mais de 43 milhões de libras, e que, por insistência do marido, contrariando Churchill, então primeiro-ministro, foi transmitida pela televisão, com uma audiência estimada de 277 milhões de espectadores em todo o mundo. Foi o primeiro acontecimento a ter direito a transmissão internacional – para chegar aos súbditos da Commonwealth. As câmaras da BBC só foram desligadas por breves instantes no momento em que a rainha, sem manto e joias, se sentou na cadeira de Eduardo I, feita no século XIII, e, envergou a colobium sindonis – uma túnica branca usada pelos monarcas britânicos durante parte da coroação que simboliza o despojar de toda a vaidade mundana diante de Deus –  e foi ungida com os sagrados óleos pelo arcebispo de Cantuária, nas mãos, no peito e na cabeça, assim se assinalando a natureza espiritual do seu mandato, como soberana do Reino Unido e chefe da Igreja de Inglaterra. 

Foi batizada na Igreja Anglicana, como é costume de toda a família real britânica e tal como os outros herdeiros, não frequentou a escola, recebendo formação em casa, tal como acontecia com muitas crianças da aristocracia. Como herdeira do trono teve aulas de História Constitucional e de Direito. Com as governantas francesas aprendeu a língua que ainda hoje domina, ao contrário do alemão, que não fala apesar de ser falada por parte de uma família real que em 1917 trocou o apelido germânico Saxe-Coburgo Gotha por Windsor. Nadadora premiada e música exímia, Isabel tinha 13 anos quando rebentou a Segunda Guerra Mundial. No ano seguinte, os pais, preocupados com a segurança das filhas, enviaram-nas para o Castelo de Windsor, enquanto eles insistiam em ficar em Londres, dando apoio às populações vítimas dos bombardeamentos da Alemanha nazi.

Aos 18 anos, alistou-se no Auxiliary Territorial Service, o ramo feminino do exército britânico, onde aprendeu a mudar pneus, consertar motores e conduzir ambulâncias. A 8 de maio de 1945, apareceu de uniforme, ao lado dos pais e de Churchill, na varanda do Palácio de Buckingham, para celebrar o fim da guerra. Consta que Winston Churchill foi o líder mais querido pela rainha entre os sucessivos com quem contactou, incluindo a histórica Dama de Ferro Margaret Thatcher. Isabel II é uma chefe de Estado especialmente experiente em receber (e ser recebida por) líderes dos Estados Unidos. Contando com Biden, durante o seu longo reinado, já conheceu 12 presidentes dos Estados Unidos. Há que recordar um 13º — Harry Truman (1945-1953) –, que a recebeu em Washington ainda como princesa, em outubro de 1951.

Foi também numa visita da família real à Marinha, em 1939, que conheceu o marido Filipe, que era cinco anos mais velho. Os dois trocaram correspondência durante a Segunda Guerra Mundial, tendo Filipe pedido a mão da princesa em casamento logo após o fim da guerra. Após a autorização, que obrigou Filipe a renunciar ao seu título de príncipe grego e a adotar o nome Mountbatten, o casal deu o nó em 1947. A cerimónia foi o primeiro momento de comemoração depois do fim da guerra, mas acabou marcada por uma exemplar contenção de despesas. Isabel II e o Duque de Edimburgo tiveram quatro filhos: o primogénito Charles, em 1948, seguido depois por Anne, em 1950, Andrew, em 1960, e Edward, em 1964.

Ao longo destas sete décadas, foram muitos os acontecimentos que Isabel II testemunhou enquanto rainha. A reconstrução do país no pós-guerra, a Guerra Fria, a transferência de Hong Kong ao domínio chinês, e, mais recentemente, uma pandemia e, agora, uma guerra às portas da Europa. Um dos momentos mais aterradores que experienciou ocorreu a 9 de julho de 1982, quando na manhã desse dia acordou com um homem nos seus aposentos que a observava enquanto esta ainda se encontrava a dormir. O intruso era Michael Fagan, um pintor e decorador de 33 anos que fez o impossível: invadiu o Palácio de Buckingham e sentou-se no trono. O incidente é considerado a maior – e talvez a mais bizarra – falha de segurança em Buckingham do século XX e mereceu até destaque na quarta temporada da série original da Netflix The Crown, que retrata a vida da família real britânica.

Mas na história do longo reinado da monarca de Inglaterra, é impossível não falar do ano 1992. No annus horribilis, como a própria o definiu, Isabel II teve de lidar com o fim dos casamentos de três dos quatro filhos – Ana, André e Carlos. Com as peripécias escandalosas que os tabloides britânicos não se cansaram de noticiar sobre o assunto, até ao incêndio que destruiu parcialmente o Castelo de Windsor que gerou muita controvérsia pelo recurso a fundos públicos para as obras de recuperação.

Também a morte da princesa Diana, a 31 de agosto de 1997 num acidente de automóvel em Paris enquanto era perseguida por paparazzi, foi talvez o culminar deste período negro no reinado de Isabel II. Perante uma nação em choque com a morte da Princesa do Povo, como era conhecida a ex-mulher do príncipe Carlos, a rainha teve a árdua tarefa de pôr fim à   imagem manchada da família real, fomentada pelas desavenças que foi cultivando com a princesa. Só na década de 2000 é que a popularidade da família real começou a ser restaurada.

Com uma vivência programada ao minuto, por uma agenda carregada e uma rotina dura, nunca teve a privacidade dos comuns mortais ou direito a devaneios. Nunca fumou, ao contrário do pai e da irmã. Bebe com alguma moderação, a contrastar com a rainha-mãe, que morreu aos 101 anos. Apesar do aconselhamento médico para parar de beber diariamente, aos 96 anos, a rainha de Inglaterra mantém um ritual: bebe quatro cocktails por dia. Em 2012, Margaret Rhodes, prima da rainha, afirmava na altura que Isabel II tomava um gin com Dubonnet com uma casca de limão e muito gelo, antes de almoço. Ao almoço, bebia vinho e, à tarde, um Martini e um copo de champanhe.

Além desse ritual, a rainha, quem sabe por gosto ou superstição, só usa um único modelo de carteira, da marca Launer, contando cerca de 200 exemplares de cores diferentes no seu armário. Também as impressionantes joias de Isabel II são peças da História e com histórias que escondem memórias de família e símbolos da nação. Por exemplo, o colar Delhi Durbar com dois pendentes – uma esmeralda e um diamante Cullinan –, que pertenciam à duquesa de Cambridge, a avó da rainha Mary (que por sua vez é a avó da rainha Isabel II), faz parte de um conjunto de joias que a rainha Mary encomendou à casa Garrad para usar na Delhi Durbar, uma espécie de assembleia realizada na cidade indiana de Deli, para assinalar a sucessão de imperador da Índia, quando o país ainda fazia parte do império britânico.

O colar, pode ser apreciado pelo público durante uma exposição dedicada aos 80 anos da rainha Isabel II que esteve patente no Palácio de Buckingham, no verão de 2006.

O Cullinan é o maior diamante já encontrado e foi dividido em nove partes, todas pertencem à Coroa britânica e estão colocadas em diferentes joias.

A monarca tem ainda um amor incondicional: o Pembroke Welsh Corgi, uma raça nativa da Grã-Bretanha. No seu 18.º aniversário recebeu a sua primeira cadela, Susan. Já durante o seu reinado teve mais de 30 cães dessa raça.
Os corgis não são porém os únicos animais na vida da monarca. Isabel II cultiva ainda um grande interesse pela equitação e, em particular, pela criação de cavalos de corrida. Estima-se que teve mais de 100 ao longo das décadas, e que angariou vários milhões de libras em prémios a dinheiro pelas corridas.

Entre outras curiosidades peculiares, soma-se ainda o facto de ser talvez  a chefe de Estado mais viajada da história. Conta mais de duas centenas de viagens internacionais durante o reinado e é seguramente a única britânica que não precisa de passaporte para se deslocar para o exterior do Reino Unido. Apesar de também não ter carta de condução e ter à sua disposição vários motoristas oficiais, a monarca não abdica de assumir o volante e conduzir, perto das propriedades da família real ou em eventos privados, os seus Land Rover, Range Rover, Bentley ou Jaguar. 

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