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Argélia. A fuga dos rebeldes

Mais de dois anos antes de a Argélia se libertar do colonialismo francês já uma seleção de futebol do país percorria o mundo declarando a sua independência.

Argélia. A fuga dos rebeldes

No dia 13 de abril de 1958, o futebol francês entrou em choque. No fim dos jogos que compuseram a 30.ª jornada do campeonato, nove jogadores argelinos abandonaram os seus clubes, atravessaram o Mediterrâneo em direção a Tunis, na Tunísia, e juntaram-se à equipa do Front de Libération Nationale (FNL) que se batia pela independência do país há mais de quatro anos numa guerra que provocou uma terrível mancha no tecido social francês. E, atenção, não se tratavam de uns quaisquer pés-descalços, por mais pied-noires que lhes chamassem no interior do Hexágono. Três deles já tinham jogado pela seleção de França – Mustapha Zitouni et Abdelaziz Ben Tifour, do Mónaco, e o jovem Rachid Mekhloufi, de apenas 22 anos, prodígio do Saint-Étienne – e eram considerados peças indispensáveis na equipa que iria disputar o Mundial na Suécia, onde conseguiu o terceiro lugar, melhor classificação dos franceses até então.

«On allait jouer au foot pour une liberté totale, bref pour une cause noble», diria anos mais tarde Mekhloufi num documentário televisivo. «Ces joueurs sont partis dans l’incertitude la plus totale parce qu’ils ne savaient pas comment allait évoluer le conflit». Outros os seguiriam. Formaram aquela que ganhou o nome de Onze de l’Indépendance, uma equipa representativa da FNL que procurava jogar com adversários que reconhecessem o seu direito de se apresentarem em campo como os verdadeiros representantes de uma Argélia Livre. Poucos serão os casos da História Universal em que o futebol se tornou fundamental para a declaração de independência de um país.

Claro que os franceses não iam ficar mudos e quedos perante tamanha bofetada que levaram na cara. Logo eles que têm um orgulho tão intrínseco. Foi com a maior das facilidades que obtiveram uma declaração do organismo controlador do futebol mundial, a FIFA, considerando que os rebeldes tinham perdido o seu estatuto de profissionais e proibindo os seus filiados de defrontarem o Onze da Independência. Terão os senhores da FIFA ficado surpreendidos quando perceberam que o que não faltava à equipa da FNL eram adversários prontos a recebê-la?

 

Fruto da Batalha de Argel

Foi no outono de 1957, após a dolorosa Batalha de Argel, que levou à morte ou ao desaparecimento de cerca de três mil argelinos, que a FNL decidiu apoiar a criação de uma equipa de futebol que servisse de bandeira para os seus ideais independentistas. O treinador escolhido foi Mohamed Boumezrag, antigo jogador do Bordéus e do Red Star de Paris, por exemplo, cabendo a Mohamed Allam o apoio político._Entretanto, já muitos profissionais argelinos dos campeonatos franceses, entregavam religiosamente 15% dos seus salários à FNL, aquilo a que chamavam a taxe révolutionnaire.

Quando chegaram a Tunis, onde o presidente Habib Bourguiba adotava uma atitude de tolerância para com as ideias de independência argelina em nome de uma aliança pan-árabe, os oito rebeldes encontraram uma seleção pronta a entrar em campo. Foi apresentada à imprensa e jogou pela primeira vez, com as camisolas esperançosamente verdes, cor da Argélia, no dia 9 de maio, contra o clube marroquino FUS_de Rabat, vencendo por 2-0. Dois dias depois, subia um degrau importante ao enfrentar a seleção da Tunísia, vencendo por 6-1. No mês de junho, sai pela primeira vez das fronteiras da Tunísia para ir disputar um jogo à Líbia. Erguia-se a bandeira; cantava-se o hino – Kassaman, O Juramento.

As ordens da FIFA começaram a ser acatadas. O Onze da Independência assumia-se como a seleção nacional argelina, mesmo que a verdadeira independência do território só tenha chegado no dia 5 de julho de 1962, mas era pária. Instalou-se em Marrocos, depois no Cairo. Os adversários escasseavam, acabaram por ser recebidos no Leste, nos chamados países não-alinhados, defrontando a Bulgária, a Jugoslávia (vitória por 6-1!), a Roménia (vitória por 5-2!) e a Hungria. Partiram para uma digressão ao Oriente, pelo Vietname e pela China. Os jogadores cumpriam a sua tarefa com coragem e com qualidade. Entretanto muitos outros dissidentes de clubes franceses juntaram-se à maravilhosa aventura da liberdade: Bouchache, Smaïn Ibrir, Mazouz, os irmãos Soukhane et Zouba, Haddad e Doudou. A_FNL velava pela sua sobrevivência. Todos os jogadores que tivessem família tinham garantido um apartamento mobilado em Tunis e uma verba mensal de 50 mil francos por mês. Mohamed Maouche, que fez parte da equipa do Stade de Reims que atingiu a final da Taça dos Campeões em 1956, perdendo para o Real Madrid, confessou: «Avec le recul du temps, je peux dire qu’aucun d’entre nous ne regrette. Nous étions révolutionnaires. J’ai lutté pour l’indépendance!».

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