Opiniao

Uma opção acertada

Para o doente, é sempre uma mais-valia poder ficar no seu domicílio no seio da família com o tratamento supervisionado pelo hospital

Uma opção acertada

Tive conhecimento, ainda não há muito tempo, de um caso clínico que me foi relatado pelo próprio, quando recorreu em situação de urgência a um dos hospitais da capital. 

Tratava-se do histórico Hospital de S. José, do qual guardo gratas recordações – já que foi ali, quando ainda era estudante, que comecei a tomar contacto com as urgências hospitalares.

A história passou-se num fim de semana, quando uma doença aguda, não-covid, o obrigou a procurar apoio médico. Dirigiu-se em primeiro lugar à urgência do Centro de Saúde da área da residência. Mas como a situação não podia resolver-se ali, atendendo aos seus antecedentes pessoais, foi de imediato encaminhado para o hospital – onde chegou pouco depois, passando pela barreira da triagem, como qualquer doente em idênticas condições. 

O serviço estava demasiado demorado, não só por se tratar de um fim de semana, onde a afluência geralmente aumenta, como pela pandemia que temos vivido e leva mais gente a recorrer aos serviços de saúde. Não admira, pois, que o tempo de espera fosse de muitas horas. 

Ao chegar a sua vez, o doente foi atendido e realizou todos os exames de que necessitava. Feito o diagnóstico – e antes de lhe ser indicado o tratamento endovenoso que teria de cumprir durante 10 dias –, foi-lhe perguntado se o queria fazer no seu domicílio, por pessoal do hospital, como se continuasse internado. 

Admirado com a proposta – pois desconhecia que tal fosse possível –, nem sequer hesitou. E foi então transportado para a sua residência pelos serviços do hospital.

Seguiu-se o período de acompanhamento extra-hospitalar em casa, apesar de continuar como doente hospitalar devidamente assistido, inclusive com exames complementares – para os quais era transportado pelos serviços do Hospital de S. José.

Feita esta descrição, o doente comentou o modo como, para lá da espera, foi excelentemente tratado na urgência; assim como os outros doentes, sempre atendidos de forma humana e carinhosa, apesar das grandes dificuldades. E não poupou elogios ao acompanhamento no domicílio, frisando que até os horários das visitas eram cumpridos!
Este episódio mostra, por um lado, como se consegue trabalhar nas circunstâncias mais adversas com o pouco pessoal disponível, perante um sem número de utentes, ainda para mais em tempo de grande afluência por força da pandemia; por outro lado, revela como foi possível encontrar, em situação excecional, uma estratégia para responder às exigências do momento.

É fácil trabalhar bem quando há condições para isso, isto é, boas instalações e muito pessoal, e em que o número de doentes permite uma resposta satisfatória em tempo útil. Difícil é o contrário: trabalhar com poucos profissionais, poucos recursos e muita gente para atender. Por isso, a opinião e os elogios deste utente, reconhecendo ser impossível fazer melhor, têm outro significado.

No que diz respeito ao plano posto em prática, acredito que tenha vantagens para ambas as partes, tanto para o hospital como para o doente. Ainda que esta medida comporte os seus custos e exija outro tipo de trabalhos, o hospital poupa no internamento. Qualquer cama hospitalar tem custos muito elevados – e por isso a sua utilização deve obedecer a regras bem definidas, onde tem de prevalecer o critério clínico associado ao bom senso. 

Uma coisa é certa: para o doente, é sempre uma mais-valia poder ficar no seu domicílio no seio da família com o tratamento supervisionado pelo hospital.

Esta louvável opção ‘conseguida’ em tempo de guerra e com as dificuldades que todos conhecemos, deve merecer o nosso aplauso e o maior elogio. É nosso hábito – e está na nossa massa do sangue – criticar, ver falhas em tudo o que existe e em tudo o que se faz, apontando o dedo aos inúmeros problemas que existem sem solução. Porém, quando alguma coisa boa se consegue ou se encontra uma alternativa capaz de melhorar ou minimizar aquilo que estava mal, ninguém fala, nada se diz e parece até que se esconde aos ouvidos da opinião pública.

Aqui fica pois o meu apreço, a minha admiração e os meus parabéns. Já tive conhecimento de que outros hospitais estão a adotar o mesmo procedimento, descobrindo estratégias de combate aos problemas das urgências hospitalares em alturas de crise. Afinal, o Serviço Nacional de Saúde está vivo e continua a ser um bem precioso que nós todos devemos defender. Alguém tem dúvidas?
 

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