Bernardo Reino, Gigi empresário de restauração

'Os restaurantes que têm Wi-Fi viraram autênticos velórios'

Dá o ‘nome’ a um dos restaurantes de peixe e marisco com mais fama além-fronteiras. Dia 10 de maio abre o novo Gigi, mas com a tradição de sempre.


Conhecemo-nos em 1996 numa festa do Champanhe, no T-Clube do Algarve. Eu andava um pouco perdido por ali, os meus colegas do Vidas do Expresso estavam em reportagem, e às tantas um personagem vira-se para mim e diz: ‘VR?’. Eu ainda fiquei mais sem jeito, até que ele diz: ‘Não é o Vítor Rainho das Noites Vagas? Leio sempre’. Desde esse dia que criámos uma amizade especial, e como tal não é fácil entrevistar um amigo assim. Mas como sempre gostámos de  ‘sacanagem’, aqui fica o retrato de um dos homens mais emblemáticos da restauração portuguesa e que nos últimos dois anos enfrentou um cancro, e agora luta contra as sequelas da radioterapia nas vésperas de abrir o novo Gigi, que deverá acontecer a 10 de maio. O velho, a 30 metros, já foi demolido. Por lá passaram grandes vultos das artes, reis e rainhas, princesas, grandes músicos internacionais, futebolistas de renome, e muitos ilustres desconhecidos. Era na mesa 13, a primeira da entrada, que adorava partilhar o seu almoço, com muito marisco, com os amigos convidados, ficando, muitas vezes, a tarde toda na conversa, mas sempre com um olho no restaurante. Como o fizemos nesta entrevista no Paixa, que ‘colou’ o almoço ao jantar.

Estás a duas semanas de reabrir o restaurante. Completamente novo.
Sim, é verdade. Tenho de respeitar os meus senhorios, a administração da Quinta do Lago, porque respeitaram exatamente o Gigi antigo. O resultado final fez-me lembrar o Buñuel, que antes de fazer os filmes ia embebedar-se para o Plaza de Nova Iorque, onde pedia um Dry Martini – que levava o gin Tanqueray e Noilly-Prat, este só podia entrar no Dry Martini como o Espírito Santo passou pela Virgem Maria. Passou e não estragou nada. A administração quis manter a traça e a tradição do Gigi original, melhorando-o para o século XXI. Citando Oscar Wild – hoje estou a citar muito! –, as modas são tão horríveis que têm de ser mudadas de seis em seis meses. A administração quis manter a tradição que o Gigi tinha para que, quando os clientes entrarem no novo, não se choquem e digam:’Oh, estragaram a beleza disto tudo’. Mantiveram a traça, as cores e as mesas (novas) do velho Gigi.
 

Nos últimos dois anos passaste por uma fase muito complicada de saúde.
Faz parte da vida. Tive um cancro, que agora está controlado, mas a radioterapia ‘apalpou-me’ um pouquinho. Este inverno foi muito chato porque tive várias hemorragias. Mais uma vez lembrei-me de uma história que se dizia (para falar mal) dos Jaguares quando algum passava na rua. ‘Ou vai para o Palma, representante da marca nos anos 60, ou vem do Palma’. Eu, como vivo em Alcântara, quando apareço na rua, é porque ou vou para a CUF ou venho da CUF. Nos corredores da CUF vi pessoas num estado muito pior do que o meu, e só pensava que a doença faz parte da vida. O que mais me incomodava era ver crianças com graves problemas, mas temos que encarar as doenças e seguir em frente. Durante o verão cheguei a ir a Lisboa fazer radioterapia e depois voltava para baixo para o restaurante. A radioterapia deixa sequelas em tudo, a mim foi na bexiga, mas conseguia vir trabalhar depois das sessões. Tenho 71 anos, até aos 69 encarava a vida de outra maneira, agora sou obrigado a vê-la de outra forma. Curiosamente, tento animar-me a mim próprio pensando que a noite de hoje não tem nada a ver com a do meu tempo. ‘Olha, não perdi nada’. A noite já não é o que era.

A tua paciência também não é a mesma.
Tudo tem um timing.

O que mudou na tua vida depois da doença?
Comecei a fazer uma revisão da minha vida, tenho saudades da vida na Beira, onde passei muito tempo em miúdo, nomeadamente nas férias, apesar de ter estudado lá até à quarta classe. Eu frequentava a Praia Grande, onde há sempre muito vento e nevoeiro e sonhava com os dois meses na terra, era assim que se falava antigamente. Ficava no Sabugal, Aldeia da Ponte. Gostava muito mais do que da Praia Grande. E até vou dizer um sacrilégio, pois tenho um restaurante na praia, mas acho a praia uma enorme seca. Talvez por ter estado tantos anos na praia, pelos 70 anos e pela doença, tenho tido nostalgia desse tempo na terra. Também tenho saudades da vida do Bairro Alto, onde tive uma loja de vinhos e onde fui muito feliz. Vendi muito vinho ao antigo Pap’Açorda. Quando chegavam clientes que pediam vinhos especiais, tipo Barca Velha, eles diziam que tinham de ir ver à garrafeira se tinham. A garrafeira era a minha loja, que ficava muito próxima. Tenho saudades da vida de bairro em Lisboa.

Passaste por muitas histórias.
A vida tem várias fases. Tive um cancro aos 70 anos, se tivesse acontecido aos 30 ou aos 40 como é que teria reagido? Não sei. Só há uma coisa que me afetaria profundamente. Se alguém descendente, filhos ou netos, tivesse uma tragédia. Isso seria a tragédia da minha vida. Mas, voltando ao meu problema, no hospital vi como há pessoas com problemas muito mais graves do que o meu. Pessoas que sofrem muito mais. Eu, além do SNS, tenho um bom seguro de saúde, há muitos anos, mas olho para toda a situação que estou a viver e penso na pessoa que me acompanha há quase 50 anos. O percurso da vida que temos, a primeira é a da loucura – e tive imensa até à saída da tropa – depois uma loucura já com uma rede de espuma, que foi o casamento, que foi a da partilha e de uma pessoa que tem paciência para me aturar, que é mutua, e depois a fase final da vida. Na segunda, ou melhor, na terceira fase da vida o que é importante é a entreajuda. Agora sou muito ajudado pela Leonor, mas se fosse ao contrário eu também ajudaria. Faz parte da vida. Uma velhice sem assistência faz-me lembrar os lares onde as pessoas são abandonadas por desumanos.

O que te leva aos 71 anos querer continuar a trabalhar, em vez de estares a gozar os teus carros antigos, uma das tuas grandes paixões.
Costumo dizer por piada que se deixar de trabalhar ‘viro’ velho. Mas não é só por isso. É pelo staff, pelos clientes e pela família, que é muito importante na minha vida. 38 anos depois, é obra. Sempre defendi que os restaurantes têm de ter o dono à frente. Por isso é que só frequento sítios onde o dono está lá. Seja uma tasca ou um restaurante conhecido. Para entrar nas grandes cadeias vou a um McDonalds.

Antes de virmos almoçar para fazer a entrevista fomos ver as obras e foste muito interpelado por estrangeiros que até entoaram a ‘tua’ canção. ‘Gigi amoroso quando abre’?
Na verdade, já bati todos os recordes da Quinta do Lago. Sou o animal mais antigo e é natural que tenha feito muitos amigos entre os clientes. A comunidade estrangeira adora estar no restaurante e está desejosa que reabra o espaço. Cá em baixo, quando cheguei havia o Centro Cultural de S. Lourenço, que já desapareceu – onde passei quase uma segunda vida – onde conheci os Gunter Grass, os artistas todos do centro da Europa. Cheguei em 1985 e tornei-me amigo do Volker Hubber, de quem tenho muitas saudades, que era uma verdadeira turbina cultural. Fazia concertos, exposições, sessões de leitura e tudo o que vinha para o Algarve e pertencia às grandes orquestras europeias passava pelo Centro Cultural. O Volker Hubber até criou a Associação dos amigos de Música de S. Lourenço.

Foi nessa altura que começaste a adquirir uma verdadeira coleção de arte.
Sim, umas comprava e outras trocava por refeições. O Volker depois ia descontando nas suas idas ao restaurante com os seus amigos Gunter Grass, Jean-Marie Boomputte, Philippe Claisse, Alfredo Garcia Revuelta, um amigo-irmão, Ingo Tinto Kuhl. Saskia Bremer, entre muitos outros. 

O mundo foi mudando.
Praticamente sou o último moicano da Quinta. Comecei na administração do André Jordan, e depois disso passaram nove administrações, e agora estou nesta com os meus senhorios e amigos irlandeses. Assisti à entrada de Portugal para a Comunidade Económica Europeia, que foi uma alegria, e assisti à saída da Inglaterra, que foi uma tristeza. E estou agora a assistir, com alguma satisfação, à união da União Europeia face à Guerra na Ucrânia. Tenho o privilégio de viver aqui no concelho de Loulé, onde há trabalho para toda a gente, desde jardineiros, empregados de restaurante, tratadores de piscinas, seguranças, taxistas, ubers... Sempre fui avesso aos Wi-Fi nos restaurantes, porque considero que os restaurantes que têm Wi-Fi viraram autênticos velórios. As pessoas não falam umas com as outras e parece que estamos numa sala de velório. Há muitos anos que brinco com isso das redes sociais. Para mim, redes só a dos pescadores de Quarteira. Não tenho Instagram, Facebook, nem Twitters. Fiz uma brincadeira de filmes, nos tempos da pandemia, pois os meus filhos ofereceram-me um Iphone com câmara. Acho a internet igual às portas das casas de banho das bombas de gasolina. É onde os anónimos e os cobardes se exprimem e debitam o seu ódio reprimido. É mais ou menos como aqueles vizinhos que vão passear o cachorro e só apanham os dejetos quando alguém está a ver.

Como vês a moda dos chefs?
Respeito toda a gente que chega ao mercado, mas tive o privilégio de fazer várias viagens como convidado, passei a França e a Espanha toda, e vejo que há uma grande imitação de Espanha em Portugal. Não vejo cá nenhum chef só com um restaurante. Acho um exagero essa moda, pois chegamos a um restaurante e perguntamos pelo chef e dizem-nos que está noutro restaurante ou nalgum programa de televisão. Como sabes, sou muito influenciado pelo Brasil e quando lá chegou a moda do vinho, os personagens que só falavam de vinho ficaram conhecidos como os ‘enochatos’. Agora temos uma moda que é os ‘gourmet chatos’. Não falam de outra coisa. Liga-se a televisão e é só receitas a dar. Mas chegar a um restaurante que antigamente era tradicional e apanhar com a mudança do menu, porque levaram aquilo para a cena do micro-ondas, ou do chef que não está lá, não é muito estimulante. Para mim, um restaurante tem que ter pratos  do dia fumegantes, cozinha fumegante. Peço logo uma sopa do dia, que tem de ser fumegante. Como lido com estrangeiros há 40 anos, sei perfeitamente que eles querem é comida mediterrânica, mas o mercado logo dirá de sua justiça.

Mas também foste um deslumbrado com os El Bullis da vida, com o Adriá, onde foste muitas vezes.
Deslumbrado, não. Ia uma vez por ano, convidado por dois grandes amigos banqueiros brasileiros. Numa dessas viagens ‘papei’ 36 estrelas Michelin. É uma experiência. Começámos no País Basco, saltámos para França, onde acabámos em Paris. Foi uma experiência ótima. Mas, às vezes, estamos numa dessas experiências, e temos que dizer que é bom. As experiências desses chefs atingem um ponto tão grande que aquilo não é bom. Já não sabe a nada. Entre um leite creme queimado a maçarico ou queimado à antiga com o ferro do fogão, prefiro o do ferro. Como costumo dizer, caneta é Parker 21, carro, Volkswagen carocha, e chefs vestidos de branco. Essa moda dos chefs vestidos de preto com barbas? Não quero barbas em cima da minha comida. Quem quer barbas vai para fuzileiro. Os chefs que me perdoem, mas estar à mesa a comer comida ‘decorativa’ e fria com uma bisnagada de molho com florzinhas comestíveis não é para mim. Bastaram as 12 idas ao El Bulli para eu ‘encerrar’ esse capítulo. Gosto de comida fumegante, de tacho ou de forno. De frios, só gaspacho, seja moilhos, saladas de peixe e vichyssoises nos casamentos – sou convidado, não posso falar.

Mas tens grandes chefs que frequentam o teu restaurante. O Dieter Koschina...
Ora bem, aí está a exceção. O Koschina não veste de preto nem tem barba. É um chef à moda antiga. Quando vou a Lisboa levo as minhas netas a jantar ao JNnQUOI Asia, numa viagem de sabores pelo mundo, mas reservo com uma ou duas semanas de antecedência. Hoje temos chefs que querem almoçar em agosto no meu restaurante e que ligam cinco minutos antes. Mas eles não têm restaurantes? Não sabem que é preciso reservar?

Há uns 10 anos falavas do Gambrinus, hoje falas no JNcQUOI. Não há o tal deslumbramento com o modernismo?
Mataram o Gambrinus ao mudarem de clássico para moderno. Perderam a peça fundamental que era o célebre senhor Brito e seguiram uma filosofia moderninha. Espero que nunca façam no meu restaurante, se o meu filho um dia ficar cá quando eu me reformar, o mesmo. Tornar-se moderninho e rebentar com tudo o que foi feito de bom ali. O Gambrinus, e falo como cliente que sou há mais de 50 anos, tinha a receita perfeita. Hoje mudaram até a farda dos empregados, obrigando-os a andarem de avental! Eles tinham casacos como os empregados do Botafumeiro, em Barcelona, como em todos os clássicos. Agora estão de avental moderninho, para quê? Essas modernices numa casa tradicional não fazem sentido. Para isso vou a uma casa mais moderna. O Gambrinus era uma instituição. Portugal está a perder um pouco o que era a tradição. No outro dia fui ao Chiado e fiquei doente. Tudo o que é moderno é assumido violentamente. Por que o Chiado tem de ser destruído de lojas tradicionais? No Rio de Janeiro há sítios que são ‘tombados’, que não podem mudar. Antigamente compravam lojas com história para fazerem bancos. Entretanto, acabaram com as lojas com história e com os bancos que estão pela hora da amargura. Ao menos tivessem salvo umas lojas tradicionais que existiam em Lisboa, apesar de nos últimos tempos se ter tentado fazer alguma coisa para as salvar.   

Porque mudaste dos seguros para a restauração?
Mudei precisamente quando começaram as fusões entre companhias. Assim como há agora a febre dos restaurantes da moda, também houve a moda das fusões de companhias. Estava um bocado cansado, até porque trabalhei sempre para patrões físicos, daí a minha aversão a grandes cadeias de restaurantes. Fui convidado para fazer Gigis em Lisboa, no Porto, em Londres, em Nova Iorque, na Praia do Peró, no Rio de Janeiro, e sempre gostei das coisas à moda antiga. Onde o patrão é o primeiro a chegar e o último a sair. Em restaurantes sou completamente contra o dono não estar presente. Por isso é que fazia sessões de radioterapia em Lisboa e voltava no mesmo dia para o Algarve, para estar presente. Houve dias que não foi possível, é certo. Mas tentei sempre. Quando estou com a porta aberta e perguntam por mim e eu não estou lá, não gosto. Às vezes também me prejudica um pouquinho, nomeadamente quando andava na radioterapia e não conseguia ir ao restaurante alguns clientes ficavam chateados. Por isso é que deixei a companhia de seguros quando deixei de ter um patrão físico, que fosse todos os dias ao escritório. Talvez eu esteja um pouco desatualizado e não perceba esta história dos grandes grupos económicos; as nuvens que não sabemos de quem são.

Abriste o restaurante com o teu irmão Miguel, que hoje tem o Aqui Há Peixe, em Lisboa.
O meu irmão foi o meu apoio hoteleiro – ele já tinha estagiado com dois grandes chefs franceses num hotel do Rio de Janeiro – já que o meu curso era o da barra do Gambrinus, do Joaquim Machaz, do Manecas Moceleck, do Né Ricciardi... O meu irmão foi, digamos, a parte profissional daquele restaurante.

Ele é que inventou o célebre molho dos carabineiros à Gigi?
Justiça seja feita, foi um trabalho dos dois. Ele chegou dois meses depois de eu abrir o restaurante. Na altura não havia carabineiros, só o camarão do Algarve, encarnado e listado. Eu cheguei cá abaixo com o molho de alho, manteiga e limão e o meu irmão refinou-o. 

Consegues escolher 10 momentos na Quinta do Lago?
Um dos momentos que tenho de escolher, aconteceu logo no princípio. Um casal de belgas em lua de mel, que estava previsto passarem aqui uns dias antes de seguirem para outras paragens, chegaram com uma prancha de windsurf e um hobie cat, um catamarã pequeno que é transportável, e andavam tão felizes que foram adiando a partida. Sempre que lhes perguntava quando iam embora, respondiam: ‘Vamos amanhã’. E foram ficando até ficarem sem dinheiro, tendo no final necessidade de vender a prancha e o hobie cat. Fomos nós que comprámos. Calculo que ainda hoje estejam juntos, pois foi o casal mais feliz que conheci aqui na praia. Outro momento grande foi com o Lech Walesa.  Apareceu com dois guarda-costas enormes, que só existem no lado da antiga cortina de ferro, ele com um cajado, uma bengala, com a Virgem Negra de Cracóvia num daqueles blusões cheios de bolsos. Foi quando disse ao André Jordan quem estava no restaurante e ele conheceu-o pessoalmente. No fundo, estávamos em frente ao homem que mudou o curso da história, um homem que mandou abaixo a cortina de ferro. Ele era uma figura sofrida, muito sofrida. Mas tinha uma mística especial. Outro momento marcante foi a nossa entrada na CEE e o hastear da bandeira. O governador civil, Cabrita Neto, vestido de fato clássico de político, meias altas escuras e sapatos com atacadores a tirar uma foto dentro de água com as calças arregaçadas e a bandeira na mão. Estava cá uma revista alemã para fazer uma reportagem sobre a adesão de Portugal à CEE e também para falarem com o Karl Otto Pohl, presidente do Bundesbank, curiosamente quando chegou a Portugal tinha uma equipa enorme de seguranças com três carros de guarda-costas  – não nos podemos esquecer que a Alemanha tido o problema com o Baader-Meinhof – que foram dispensados ao fim de três semanas, pois descobriu que estava no paraíso. Achou que a segurança dava nas vistas e que podia ser prejudicial.    

Também o Ayrton se tornou uma figura da Quinta.
O Ayrton Senna foi uma figura, mas mais figura foi o meu grande amigo António Carlos de Almeida Braga, o Braguinha, que foi verdadeiramente quem fez o negócio da compra da casa  do Senna a um inglês. Como havia o receio de haver especulação, se o dono soubesse que a casa era para o tricampeão mundial de Fórmula1, foi o Braguinha que fez o negócio. Um dia o Ayrton Senna conheceu o inglês e o antigo proprietário perguntou-lhe qual era a sua profissão: ‘Piloto’. E o inglês disse: ‘Eu também fui piloto, da Royal Air Force’. O Senna entretanto disse-lhe que gostava muito da casa e o inglês disse-lhe que a tinha vendido a um banqueiro brasileiro. ‘Não, não. A casa é minha’.  ‘Mas eu julgava que a casa era para um banqueiro, não sabia que era para um piloto. Se soubesse tinha feito um desconto de 10%’, disse-lhe o inglês. O Senna quase arrancava os cabelos da cabeça. O Senna marcou muito a Quinta, mas não gostava de ser incomodado. Era muito tímido e procurava sempre restaurantes onde não o incomodassem, o que era difícil, mas havia dois ou três que eu lhe aconselhava e onde ficava tranquilo. Ah! Havia um onde ninguém lhe ligava nenhuma. Era no São Gabriel, uma casa de alemães. Devido à rivalidade com o Michael Schumacher, ninguém lhe pedia autógrafos nem o chateavam. 

Tu a Leonor e os três filhos chegaram a viver no pavilhão-restaurante que agora desapareceu.
Isso foi o primeiro momento marcante. Nós tínhamos um apartamento em Vilamoura, no Lago Azul. Vilamoura não era o caos que está hoje em dia. Tinha bares muito giros, tinha regatas, tinha marina com ar de marina, tinha tudo. Era mais lógico ficarmos em Vilamoura, mas os meus filhos ‘deram-me’ um ultimato, dizendo que  tínhamos de ficar a dormir no restaurante. Fazíamos banhos de Lua, em vez de banhos de sol, íamos apanhar banhos de lua nas cadeiras. Achei que estava no paraíso. Estávamos acampados num quarto. Mas atenção que na Quinta do Lago, na altura, havia dez por cento do que tem hoje de pessoas. E nessa altura deu-se um episódio curioso. Um iraniano quis comprar a casa do Gigi e ainda falou com o André Jordan. 

Qual casa do Gigi?
O restaurante! O André Jordan teve que lhe explicar que aquilo era domínio público marítimo e não podia ser vendido. Ele queria fazer a casa dele ali. 

Chegaste a ter grandes propostas de negócios nessa época.
Quando o príncipe Khaled al Faisal vendeu o hotel decidiu também vender os terrenos em frente. Aqueles lotes foram vendidos a 60 mil contos, estamos a falar de valores como 300 mil euros, na frente do meu restaurante. O promotor ofereceu-me um lote. Eu tinha um pé de meia de 50 mil contos e faltavam-me 10 mil. Disseram-me para hipotecar a casa, mas eu nunca dormi com a cabeça ‘hipotecada’. Hoje valeria 12 milhões de euros.

Tiveste reis e rainhas como clientes. A mulher do Xá Reza Pahlavi, Farah Diba, foi uma das clientes.
Tive o privilégio de conhecer Farah Diba num aniversário do professor André Gonçalves Pereira. Eu e a Leonor ficámos ao lado dela no jantar. Era uma pessoa encantadora, que se tornou nossa amiga e virou cliente do restaurante. Na altura, quando o Xá foi deposto, tive um certo orgulho de a Povoação, nos Açores, lhe ter oferecido asilo – não gosto que se persigam pessoas como agora está tanto na moda. Há uns tempos soube mais pormenores recentes da família dela e aquilo foi uma tragédia. Acho que dois filhos se suicidaram.

Vamos aos príncipes do Mónaco, personagens que almoçaram em tua casa.
A personagem principal é o príncipe Hannover. Ele é que levou a princesa a jantar em minha casa. Mas almoçaram muitas vezes no restaurante. O príncipe é uma excelente pessoa, apesar de ter um feitio difícil, bebe uns copos a mais... Talvez sofra daquilo que eu já sofri, copos a mais.

Também iam muitos músicos ao restaurante.
Muitos! Peter Gabriel, George Michael, fanático da Quinta,  Mark Knopfler, que eu achava que tinha um feitio difícil, até o ver passado. Quando chegou ao restaurante, pus o Brothers in Arms a tocar e ele veio ter comigo e disse-me: ‘Ó Gigi, tire-me rapidamente essa música que estou farto de a tocar, deixe estar o Pavaroti’. Agora quando voltou eu estava nos tratamentos e ligaram-me a dizer que ele estava no restaurante. Chamei a atenção para o feitio difícil dele e responderam-me: ‘Nada disso. Está encantado e acho que comprou uma casa na Quinta’.  A Quinta sempre teve a tradição de receber pessoas conhecidas, não estamos a falar das influencers cá do burgo... O Algarve, quer queiram, quer não, será sempre uma colónia de férias (colónia entre aspas) dos ingleses tradicionais. Vinham também muitos futebolistas, e tudo começou com o George Best, que vinha com as equipas de miúdos do Manchester United. O David Beckham era muito miúdo e também almoçava aí. Tradicionalmente, a Quinta do Lago e Vale do Lobo sempre foram uma ‘colónia’ dos ingleses. Os ingleses, fossem futebolistas famosos, artistas, atores, vinham muito para cá. A única ‘arte’ que tive na vida inteira, foi tratar as pessoas ricas, milionárias ou zilionárias, como pessoas normais, que é a coisa que eles mais gostam. Ser tratados normalmente. Com respeito, devido à figura,  mas normal. 

Há um episódio que me contaste há uns anos, que foi das maiores surpresas que tiveste no teu restaurante e uma das maiores aprendizagens. Um dia chega um indivíduo muito mal vestido, com uns calções todos rasgados e que depois fez uma despesa enorme.  
Achei que ele estava um pouco desadequado para a ocasião, isso foi em 88/89, mas essa figura viria a comprar quatro lotes na Quinta do Lago. Depois, haveria de me dizer que gostou tanto que decidiu ficar por cá. Faz grandes despesas, ainda hoje, e dá grandes gorjetas ao staff.

Mas anda sempre de guarda-costas.
Ele não adota cães, adota pessoas com problemas físicos. Um filho adotivo foi raptado e a partir daí é uma questão de segurança. Os guarda-costas são um fenómeno dos últimos dez anos digamos assim.

Não é bem verdade, os Agneli quando chegaram cá também traziam guarda-costas.
É bem verdade, tinham um guarda-costas discreto, mas apenas por prevenção. A moda dos guarda-costas foi inventada pelos futebolistas. Os futebolistas é que realmente andam sempre de guarda-costas e bem.

Os Agneli também foram figuras que frequentaram muito o teu restaurante. É verdade que chegavam à praia de barco? 
Sim, sim. Foram grandes clientes. Mas não eram eles que chegavam de barco à praia. Quem saía num barco ao lado da minha praia era o Rei de Espanha. 

Como foste parar ao Algarve?
O Manecas Moceleck estava no Bananas, em Vale de Lobo, em 1984. Em 85, o Manecas foi convidado para ficar com o Pátio e ficámos com o pavilhão na praia, na altura chamava-se Beach Pavilion. Ele convidou-me e eu à última da hora, disse-lhe: ‘Manecas, vou colaborar contigo, mas não vou ser sócio’. Tenho a noção de que se tivesse sido sócio tinha rebentado com uma grande amizade. O Manecas era um homem da noite e eu do dia. A noite para mim era para a boémia. Portanto, no primeiro ano colaborei com ele. Dei algumas ideias, fiz várias festas. No fundo, o primeiro ano foi mais o prolongamento da boémia do Pátio. Eu não queria ferir o Manecas, que não gostava de praia. A primeira vez que foi ao areal espetou logo uma palha do toldo no olho. Ia ficando cego. Tomava  banho de mar com o cigarro na mão. Também não sabia nadar, como tu. Eu dava muitos mergulhos e depois ficava a meter-me com ele: ‘Ó Manecas, pareces o Camões, estás com os Lusíadas de fora’! Era só rir. Foi uma coisa de brincadeira. No ano a seguir, ele já não vinha, eu desconfio que ele já sabia que estava doente – tinha um cancro no pulmão –, mas eu não queria forçar e queria que fosse ele a dizer. Eu vinha para comprar o Quebra Coco, na Praia dos Tomates, mandatado pelo meu irmão João, já tínhamos tido um bar de praia em Búzios, Brasil, e num dia à noite o Manecas  disse-me: ‘Por que não ficas com o pavilhão da praia?’. E eu respondi: ‘Mas já não vais’? ‘Não, não vou. Não tenho feitio para praia’, disse ele. Isso é rigorosamente verdade.

Aí entrou o André Jordan.
Sim, marcámos um almoço e ele perguntou-me por que queria trocar os seguros pela praia. Foi do género: ‘Ó Gigi, como é que você veio dos seguros e veio dar uma volta de 180 graus e veio aterrar na praia?’. E eu respondi: ‘Tenho uma grande vontade de trabalhar e de mudar de vida, quero ‘virar-me’ para a Quinta. O Jordan respondeu-me: ‘Está fechado’. E deixámos o contrato para depois. O Jordan deu-me um ano à experiência e depois assinámos por cinco anos. O André Jordan é a pessoa mais importante, o ‘padrinho’ dos primeiros tempos da minha aventura. Um verdadeiro amigo. Na Quinta do Lago posso andar às escuras pois conheço todos os cantos de olhos fechados. Eu e a Quinta do Lago somos uma espécie de Romeu e Julieta.

Não costumas referir, mas trabalhaste à noite, nomeadamente no Ad Lib, que depois foi a sala de administração do BES.
Isso foi muito depois. Foi em 88/89, aceitei o desafio, fechei a loja do vinho no Bairro Alto com o vinho lá dentro e aceitei o desafio na noite. Trabalhei três anos e depois fiz uma jura que nunca mais.

Onde há o célebre episódio da senhora duvidosa.
[Risos]. Há várias versões dessa história. Mas foi um cliente habitual que chegou à porta e o porteiro disse que a senhora não podia entrar porque tinha um ar duvidoso. Ao que o cliente respondeu: ‘Duvidosas são as que estão lá dentro, esta é mesmo puta’. 

Quais são as tuas grandes referências na gastronomia portuguesa?
O José Quitério e o David Lopes Ramos foram os últimos grandes papas da crítica da cozinha tradicional portuguesa. Não quero ferir suscetibilidades, mas os grandes defensores da comida portuguesa são milhares de pessoas que acordam de manhã e se agarram a tachos fumegantes, a fornos de lenha e a receitas tradicionais como o cozido à portuguesa. Chispalhada à transmontana, pescadinhas de rabo na boca com arroz de grelos, isto em Lisboa. No Porto, filetes de pescada com arroz ou filetes de polvo com arroz do mesmo. Sem querer esquecer-me de alguém, como defensores da comida tradicional, além dos dois que já falei, acrescento o Virgílio Gomes e a Maria de Lourdes Modesto. No fundo, são todos aqueles que ainda têm tascas que não foram invadidas por cozinheiros barbudos e de avental e que ainda não entraram na comida portuguesa de micro-ondas.  Portugal é um país muito rico e por isso há 50 cozidos à portuguesa, feijoada à transmontana ou à alentejana, as tripas e a dobrada... Isso, sim. É a riqueza da cozinha portuguesa. E é preciso preservar isso.  A comida do forno e do tacho. Tenho pena das casas de pasto de Lisboa e do Porto que foram à vida. Sou verdadeiramente viciado em tascas tradicionais. Ah! Fazem falta mais Alfredos Saramagos. Agora, à sexta-feira, compro o Correio da Manhã para ler a receita do Francisco José Viegas. 

Para o comum dos mortais, és considerado um símbolo dos ricos...
Hiiii. O que é isso?

Calma, ainda não acabei a pergunta. Um pobre não pode ir ao teu restaurante se não for teu amigo.
Lá estás tu. Não pode é ir um pretensioso.
 

Continuando a pergunta, apesar disso, tornas-te grande amigo de personagens como o Vila, um símbolo do esquerdismo.
O esquerdismo e o direitismo já passaram no século XX. O Vila era um comunista de quem tive o maior prazer de ser amigo. Eu era um grande admirador dele, com uma amizade profunda. Só depois de ele partir é que senti a falta que ele me fazia. Por causa dos diabetes dele e do álcool é que embirrava com ele. Como embirro com os meus amigos todos. Dizem eles que eu embirro... O Vila marcou-me profundamente e estava-me a esquecer dele como um dos grandes defensores da comida tradicional portuguesa. O Vila era uma fábula, como bebedouro, como cozinheiro, como companheiro, ou quando ficava tardes inteiras no meu restaurante a beber gins e a fumar charuto. Da minha geração de boémios praticamente sou o último moicano. 90% dos meus amigos já partiram. 

És um feroz defensor da comida tradicional portuguesa.
Sou! Um pastel de bacalhau com queijo da serra? Já aturei os ‘enochatos’ agora temos os ‘chatogourmets’! Prefiro os meus almoços em ‘pontos’ que têm os donos à frente.

Tens uma relação conturbada com o Algarve.
O Algarve, às vezes, chateia-me um pouquinho. É a minha terra adotiva, sou de descendências beirãs, Foz Coa e tudo. Mas a minha terra é o Algarve. Uma das minhas coisas que me chateia no Algarve – estou cá há 40 anos diretos a trabalhar – é que tornou-se mais sazonal. O que quero dizer com isto? Antigamente tinha clientes praticamente o ano inteiro. Até dezembro abria o T-Clube, o hotel da Quinta do Lago e estavam cheios de pessoas que vinham para o Algarve para jogar golfe e não só. Hoje em dia o Algarve tornou-se, mesmo na mentalidade de quem faz obras aqui, a terra de julho e agosto. É um fim de semana prolongado? Ninguém vem. Tem autoestradas para o Algarve? Ninguém vem.

Ainda no último fim de semana vieram.
Vêm só numa Páscoa, num Carnaval. Em agosto é fatal. É do dia 25 de julho ao dia 15 de agosto. E o Algarve passa de 30 mil pessoas para três milhões em quinze dias. 

Uma dos teus grandes investimentos são carros antigos.
Desde 1975. Sempre tive a mania dos carros.

Qual foi o teu primeiro carro antigo?
Morris Cooper S.

Compraste por quanto?
50 contos. E vendi, à época, por 70.

E hoje tens quantos carros antigos?
Três, quatro. Desde os anos 90.

E tens um histórico.
Foi o que inaugurou o Grande Prémio da Boavista, no Porto.

Em?
1950. Se eu nasci a 18 de setembro de 1950, esse carro nasceu em junho desse ano. 

Ainda o tens?
Ainda o tenho.

Deve valer quanto? 
É um investimento. Nunca gostei de bancos. Nunca gostei de bancos, não. Gostei sempre de bancos à moda antiga com o gerente na frente. Era vidrado no Bradesco e cá no Banco Português do Atlântico. Hoje em dia os bancos são coisas frias que servem para vender cartões de crédito.

Ainda continuas com a máxima que o teu sonho é passar férias em agosto?
O meu sonho é um dia passar férias em agosto. Passar férias no Algarve em agosto. Mas também quando um dia sair do restaurante não ponho mais os pés na praia.

Mas por que dizes isso? É o melhor mês comercial para ti.
Não vou fazer comentários, não é o melhor mês comercial da minha vida. É o mês dos apressadinhos, como eu chamo. Tem uma classe, seja na cidade ou seja no campo, chama-se a isso o mês dos apressadinhos. Por que é que eu chamo o mês dos apressadinhos? Andam sempre com pressa. Corresponde aos apressadinhos de um fim de semana em Lisboa ou numa cidade qualquer. Em Londres, uma vez, eu ia passar em frente ao Harolds quando o meu filho Duarte estudava e trabalhava em Londres, já nesta altura do turismo de massas, ia atravessar para o Harolds e passou uma multidão de chineses. Eram centenas, para aí 300. Perdi aquela porta de vista e fui parar à porta a seguir. Fui arrastado. Verdade seja dita que essas massas, isto agora é um comentário politicamente incorreto, têm esta mania da ecologia. Fui ecologista à minha maneira. Fui a uma praia deserta e deixei lá seis árvores. Na praia da Quinta do Lago. Do lado de lá da ria, até Olhão, estão vários pinheiros que nasceram espontaneamente. Preservei. Chama-se preservar. Não percebo como é que o turismo de massas, como é que andam cá em baixo a defender e a preservar o não andar de carro, o consumo de combustíveis fósseis, e depois andam milhares de aviões no ar a poluir. E, mais grave, um episódio que aconteceu e que ninguém deu muita importância que foi um barco que foi ao fundo a arder com milhares de carros lá dentro, Porsches e Volkswagens que iam a caminho dos EUA, carregados de baterias de lítio, foi ao fundo no meio do Atlântico. Uma bomba nuclear para o ambiente. Um gajo andar de carro é um criminoso e lá em cima os aviões com os combustíveis não poluem? São daquelas tretas da vida moderna. Temos que acreditar numas coisas mas depois não acreditar nas outras. A minha parte ecológica é que hoje em dia já não viajo muito para não gastar combustível aos aviões. 

Foste – e nunca escondeste – um bon vivant, um grande consumidor de álcool..
Um grande vivant e um grande consumidor de álcool.

Fizeste muitas diretas a trabalhar.
Muitas.

Saías do Bananas muitas vezes...
Às 7, 8 da manhã... ia a casa, tomava banho e voltava. Curiosamente, uma vez tomei banho na casa de banho do Bananas, bati um recorde. O Bananas tinha uma casa de banho e tomei banho lá. Bati o recorde do Bananas, o Banana Power, 24 horas lá dentro. Começou tudo num célebre almoço, ensopado de borrego no Fialho, em Évora. E às 5h da manhã estava a comer um tacho de pezinhos de porco de coentrada.

Tinham ido do Fialho?
Tínhamos vindo do Fialho. Hoje em dia praticamente abandonei os destilados. 

Uma das noites icónicas do Bananas é quando se dá uma grande cheia em Lisboa.
As cheias. 19 de novembro. Por acaso era o representante da companhia seguradora que cobriu o seguro.

Estavas lá dentro e a água estava a subir?
Fui o único que saí, porque quando saí já tinha um Land Rover e consegui sair. Estava tão bem disposto. A água começou a subir e o Manecas disse para a gente se sentar e pedir mais whisky e levantar os pés. Mas a água continuou a subir e eu disse que não levantava mais pés nenhuns e ia-me embora. A água estava a entrar, meti-me no carro. Lembro-me perfeitamente da cena. Quando arranquei o Land Rover já tinha água quase pelos bancos. A caminho de Sintra passei pelo autódromo do Estoril, que tinha um hotel. Saí do Bananas a caminho de casa, morava em Sintra, passei pelo Estoril. Depois, quando fui pelo autódromo, lembro-me de olhar para o hotel que era em baixo, só de dois pisos, e vi os hóspedes todos em pijama e roupões no terraço. Pensei que era caso sério. Era caso sério porque a parte de baixo estava toda inundada. Hoje em dia não bebo – ou evito – destilados. Só bebo vinho. E não posso beber os vinhos todos.

Falamos da Leonor, da tua mulher, um dos esteios do restaurante.
A Leonor é a pedra, aquela parte serena, o charme tranquilo. Faz parte, chamam-lhe às vezes desbocada.

Mau feitio?
Não. Não há mau feitio nem bom feitio. São feitios. Às vezes chamam-na desbocada mas a Leonor é aquela parte calma, aquela parte serena. É a minha torre... Como é que eu hei de explicar o que é para mim a Leonor? É o elo de ligação entre mim e a vida normal. 

Qual foi o cliente que terá bebido mais?
Esteve cá um grupo de dinamarqueses, tenho fotografias disso. Quatro caixotes de fotografias ainda para classificar. E está lá essa fotografia histórica. Foi um cliente que estava já a beber sangria, eu tinha uns frappés de vidro das gaivotas que parecem uns copos grandes, e ele já estava a beber sangria daí.

Terá bebido o quê?
Bebeu cinco litros de sangria. Numa tarde inteira não é muito. 

Os irlandeses batem recordes.
Os irlandeses são muito engraçados. Conseguem divertir-se, estar uma tarde inteira a falar de tudo e de coisa nenhuma. Estão mesmo para se divertir. É a raça que eu conheço, genuinamente, que se diverte mais e que mais alia o álcool e o beber à boa disposição e ao estar a confraternizar com amigos. Têm vários exemplos disso que é o Saint Patrick Day e o Good Friday que é a Sexta-feira Santa. Que eu tenho um desgosto enorme de este ano não estar aberto só por causa deles, porque virou tradição na Irlanda a festa de Sexta-Feira Santa no meu restaurante onde eles bebem qualquer coisa como três garrafas por cabeça, em média. Se uns bebem uma, adivinha o que bebem os outros. Está aqui uma nota assinada pelo governador da Irlanda, tive vários governadores de bancos centrais e esse uma vez pagou-me com uma nota e assinou. Fez uma ‘dupla assinatura’, em 2003. 

És considerado, pelos teus amigos, como a memória de elefante. Tens uma cultura geral vastíssima. O que é que te deu mais cultura geral? O que leste ou o que viveste?
Tenho um desgosto enorme e a televisão tem-me tirado, às vezes, o prazer dos livros. Os livros e o jornal em papel. Sou vidrado.

Lias até anúncios.
Até anúncios. No fundo, sou um marqueteiro frustrado. Gosto muito do jornal em papel, gosto muito de primeiras páginas. Gosto muito de cartoons. Sou vidrado em cartoons. Um cartoon diz o que às vezes uns palpiteiros dizem em três mil carateres. Mas acima de tudo os livros.

Quem são os teus escritores preferidos?
Talvez os brasileiros. Gosto muito das biografias do Ruy Castro sobre o Brasil. Por motivos óbvios. Sou muito influenciado pela cidade do Rio de Janeiro. Sou de ler biografias, documentários. Devorei um livro agora de um cliente que adorei, até pela minha ligação ao hospital. Hoje em dia tenho um receio enorme. Só quem passou pelos hospitais é que consegue perceber. Uma vez andei à porrada, ainda muito miúdo, com uns gajos que começaram a apitar para os homens da limpeza de ruas.  Eram os almeidas. Estavam a lavar a rua e ele começou a apitar para se desviarem. E eu digo ‘é pá, vem tu para cá lavar a rua e descarregar caixotes’. Há umas profissões hoje em dia a que eu dou um valor enorme. Já dava, mas dou mais. Almeidas, bombeiros... Entrei mais em hospitais nos últimos três anos do que entrei em 70 anos de vida. E, realmente, há uma coisa que a gente se apercebe. Às vezes, ao fim de sete horas a trabalhar num restaurante digo que estou farto de trabalhar, como é que alguém, quando vê um hospital e vê as pessoas que trabalham lá dentro, sejam médicos, enfermeiros ou auxiliares, que limpam... Quando às vezes vejo uma operação e um tubo se solta, como é que às quatro da manhã a gente toca numa campainha e entram com o ar mais bem disposto do mundo e mudam uma cama? Esse género de trabalho é uma coisa que me impressiona muito. Quase uma frase feita: foi uma razão pela qual li o último livro do José Roquete, o médico. Adorei. Li e fiquei muito impressionado, até porque conheci o mentor dele, o professor Machado Macedo. Conheci o hospital de Santa Marta, conheço todos os médicos. E é curioso quando falo com o médico, há médicos com quem falo sobre a minha doença, e consigo praticamente encontrá-los aos fins de semana sempre a trabalhar.

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