Cultura

Antonio Stradivari. Em busca da perfeição das cordas

Nasceu em Cremona, Itália, e foi um artesão extraordinário. Construiu cerca de 1200 instrumentos de corda, 960 dos quais violinos, e ainda hoje 650 deles estão em perfeitas condições. Não se diferenciou apenas pelo desenho variado que impunha nas suas obras mas também na sonoridade até aí nunca ouvida que conseguia retirar delas.

Antonio Stradivari. Em busca da perfeição das cordas

Uma das questões que mais se tem colocado ao longo da história da música é: afinal o que é que um Stradivarius possui de especial? Terá muito, independentemente de quem pergunta e de quem responde. Sinceramente, depois de ter vasculhado em pilhas de papéis e páginas on-line sobre o Stradivarius, com mais ganas com que madame Curie foçou na penchblenda em busca do rádio, não consigo responder a tal pergunta. Aliás, era o que faltava se conseguisse. Teria descoberto um dos segredos mais bem escondidos da existência humana.

Cremona: provavelmente no ano de 1644.

Cremona: cidade da Lombardia que tem, hoje por hoje, cerca de 70 mil habitantes.

Cremona: a terra onde nasceu Antonio Giacomo Stradivari, mais conhecido pelo seu nome latino, Antonius Stadivarius.

No ano de 1680, Antonio abriu uma loja. Ficou preso a ela até morrer, construindo instrumentos de corda. Não apenas violinos: violas, violoncelos, harpas. Era um viciado no trabalho. Toda a gente lhe reconhecia uma competência fora do comum.

A loja de Antonio ficava na piazza de Sam Domenico. Agora chama-se piazza di Roma.

1644? Muito provavelmente. Ninguém sabe ao certo em que ano nasceu Antonio.

1737: é certo! É sempre mais fácil saber-se a data da morte do que a da vida. 18 de Dezembro - Antonio ocupava o seu lugar nessa imensa planície da eterna saudade onde esvoaçam as almas dos homens simples e dos homens complicados. Ele fazia parte do grupo dos segundos.

Nicolò Amati: o mais velho de uma fileirinha de irmãos que se dedicou à construção de violinos. Foi o primeiro grande mestre de Antonio.

1666: o ano em que Antonio pôs a sua marca num violino construído por si. Um instrumento pequeno, muito parecido com os de Amati, mas com um envernizamento castanho-amarelado. Era o início!

1684: Antonio é um homem livre. Não é mais pupilo de ninguém. Pode até considerar-se mestre. Já constrói instrumentos maiores, mais vistosos. A forma como os enverniza, sempre com tons mais claros do que era hábito até aí, distingue-os. Mas não só: são mais longos, mais bem desenhados, mais agradáveis à vista. Transformam-se numa marca. Naquilo que todos querem ter. Os que podem e os que não podem.

Antonio já se dedicava, igualmente, à construção de violas e violoncelos. Com as suas alterações aos aparelhos, conseguira obter um som mais precioso, mais potente e penetrante do que todos os violinos, violas e violoncelos até então. Era um homem satisfeito consigo próprio. Toda a gente em Cremona aprendera a soletrar o seu nome. Toda a gente em Itália já tinha, pelo menos uma vez na vida, ouvido falar dos stradivarius.

Antonio não era apenas um artista. Era, fundamentalmente, um arquitecto. Percebeu a evolução das curvas, a textura da madeira, os poros das várias espécies que serviam para modelar o som dos seus instrumentos. Um revolucionário. Ou um visionário, enfim.

Não tardou a arrastar os filhos, Francesco e Omobono, para o vórtice da sua paixão. Também eles começaram a construir violinos. Com o entusiasmo irrepetível do pai.

Dizem os contabilistas, coca-bichinhos, que Antonio construiu, com as suas mãos, 1.116 instrumentos, dos quais 960 foram violinos. 

Dizem os mesmo coca-bichinhos que sobreviveram intactos, até ao dia que corre, 650 instrumentos. Desses 650, entre 450 a 512 são violinos.

Talvez por isso Stradivarius tenha ficado eterno...

Família fina

Antonio Stradivari era um menino de família fina. Não encontramos, nesta história, um protagonista sofrendo as angústias de uma vida difícil de olhos e mãos erguidos para o céu em súplicas divinas. Há referências ao nome Stradivari desde 1188, o que demonstra uma inequívoca fidalguia.

Os pais de Antonio eram Alessandro Stradivari e Anna Moroni, por sua vez filhos de Giulio Cesare Stradivari e de Leonardo Moroni. Casaram-se em 1622 e, nos seis anos seguintes, a igreja reporta o baptismo de três filhos: Giuseppe Giulia Cesare, Carlo Felice e Giovanni Battista. Depois, um silêncio.

As famílias Stadivari e Moroni tiveram de abandonar Cremona entre 1628 e 1630. Primeiro por causa da guerra, em seguida por causa da peste que devastou a cidade. Durante esse tempo não há registos oficias das suas atividades. Foi como se desaparecessem da face da Terra.

Também não há muitos dados disponíveis para que se possa reconstituir, com segurança, a infância de Antonio. Alguns historiadores deitaram-se a adivinhar e assentaram entre eles que dos 12 aos 14 anos foi empregado de Nicola Amati. Usam-se, para isso, de um violino datado de 1666 e assinado da seguinte forma: «Alumnus Nicolai Amati, faciebat anno 1666». Uma frase que, para eles, não deixa dúvidas. Além disso é tido como comprovado que os primeiros violinos construídos por Antonio são muito semelhantes aos fabricados por Amati, algo que com o passar dos anos parou de acontecer. Acrescente-se: esse violino de 1666 será o único em que Antonio faz referência ao seu mestre.

Avançam outros estudiosos da vida de Antonio Stradivari que este terá abandonado as oficinas de Amati para se tornar aluno de outro famoso construtor de instrumentos de corda chamado Fracesco Rugeri. Provar tal facto é que é o busílis da questão. Não há um único papelinho sobrado dessas eras que o comprove. De qualquer forma, vejam bem o ponto de perfeição a que chegaram os violinos de Stradivari para que toda a gente continue numa busca desenfreada pelos seus eventuais mestres. E tal confirmação faria, certamente, que tantos os instrumentos ainda sobrevivos de Amati e Rugeri atingissem valores excecionais, tendo como base a teoria de um bom aluno faz um bom mestre.

Francesca Ferraboschi: era o nome da primeira mulher de Antonio e o casamento teve lugar no dia 4 de Julho de 1667. Francesca era jovem, mas já viúva. O falecido fora carniceiro de  profissão, de sua graça Giacomo Capra, que lhe dera dois filhos antes de ser furado de um lado ao outro do esqueleto pelo uma seta disparada pela besta do cunhado na piazza de Santa Agata no ano de 1664. Perdoem-me a esquisitice, mas a frase tem de ser mais bem burilada. De facto não quis dizer que o cunhado de Capra, e irmão de Francesca, era uma besta, a despeito de até poder sê-lo muito provavelmente, e logo com 128 patas. O facto é mais corriqueiro: Giacomo foi abatido por uma besta disparada pelo cunhado, fosse este último uma besta ou não, é um daqueles casos em que a doutrina se divide.

Giacomo morto, viva Antonio. A boda teve pompa e circunstância como na marcha de Elgar. Stradivari não tardou a aproveitar-se da herança da sua nova esposa e instalou-se principescamente num palácio que lhe pertencia (a ela, não a ele) e que era popularmente conhecido por Casa del Pescatore. Se deitarmos um olhar ligeiramente irónico ao nome da habitação, podemos dizer que lhe ficava a matar. E, por falar em matar, o cunhado do falecido foi expulso de Cremona e só o autorizaram a voltar à cidade muitos anos mais tarde.

Enriquecendo...

Antonio não tardou a engravidar Francesca por várias vezes, sendo Giulia Maria o primeiro fruto da união entre ambos. Talvez aborrecido pelo desdobramento das más-línguas de Cremona que sussurravam pelas suas costas que o grande Stradivarius vivia por conta da mulher, Antonio foi, finalmente, ao fundo das algibeiras, já na altura bem fornecidas, e comprou um casarão no nº 1 da piazza Santo Domenico em 1680, despendendo com o negócio qualquer coisa como sete mil liras, duas mil das quais postas nas mãos do anterior proprietário no momento da assinatura do contrato de compra e venda. Esperava, assim, pôr uma mordaça na boca dos maledicentes. Já se sabe como é nas terras pequenas...

A nova casa de Stradivarius ficava situada, nem de propósito (ou talvez mesmo de propósito) na vizinhança das lojas dos grandes construtores de violinos da cidade, como eram os casos, por exemplo, dos Amatis e dos Guarnieris. Dedicado por completo à sua arte, Antonio raramente se deixava ver, encafuado numa das divisões do palacete a esculpir violinos únicos no universo.

Francesca morreu no dia 26 de Maio de 1698.

Deixou órfãos Giulia Maria, Catterina, Francesco e Omobono, além dos dois rapazes do primeiro casamento.

Antonio não era homem para ficar a lamentar-se das desgraças da vida durante muito tempo. O seu espírito era essencialmente prático e desafiava por completo o romantismo dos compositores que compunham peças extraordinárias para serem tocadas nos seus extraordinários instrumentos. Um ano depois já estava outra vez casado, agora com Antonia Maria Zambelli, uma senhora ainda não invernal mas também já não primaveril, de 35 anos, algo que não a impediu de parir mais cinco novos Stradivari entre 1700 e 1708: Francesca Maria, Giovanni Battista Giuseppe, Giovanni Battista Martino, Giuseppe Antonio, e simplesmente Paolo.

Antonio tinha-se tornado um homem grandemente abastado. Afinal, os instrumentos que lapidou, ainda em vida, tinham uma fama de qualidade que se espalhara por todo o mundo. Ter um Stradivarius era, para qualquer intérprete, um motivo de profundo orgulho e algo que acrescentava muito à sua interpretação. Ele próprio não durou para sempre, mas quase. Morreu de causas naturais no dia 18 de Dezembro de 1737, muito provavelmente com 93 anos, e tratou de largar sarilhos na sua esteira, logo a começar por Antonia Maria, sua viúva, a quem deixou apenas a roupa, lençóis, aparelhos domésticos e metade da sua coleção de joias. Paolo, o mais novito, teve de se contentar com seis violinos já concluídos, nada de muito mau já que valiam mais de mil liras cada um. Maria, que escolhera ser freira, recebeu uma anuidade, aliás tal como Alessandro, que seguira a vocação de padre. Francesco, o único que continuara a trabalhar na loja do pai até à morte deste, foi quem ficou com algo de jeito já que herdou a casa e a oficina e tudo o que lá estava dentro, incluindo a reputação paterna. Omonobo, que aos 18 anos se pusera na alheta para Nápoles, contentou-se, tal como Paolo, com seis violinos acabados. O homem que construíra instrumentos de cordas dos mais diversos estilos e com as mais diversas configurações, conseguindo tirar deles a sonoridade mais pura, parecia que tinha dedicado as horas livres a inventar uma forma de deixar a família baralhada. Ou a sentir por demais a sua falta.

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