Desporto

Clássico. O espanhol Melcón...

Corria o ano de 1933 e já ninguém dava grande crédito aos árbitros portugueses. Para o Benfica-FC Porto mandaram vir um do lado de lá da fronteira.

Clássico. O espanhol Melcón...

Chamava-se Ramón Melcón Bartolomé, nasceu em Madrid no dia 30 de novembro de 1900 e tinha uma terrível falta de jeito para dar pontapés numa bola, embora vivesse fascinado por ela como todos os garotos da sua idade. Tentou tudo o que pôde para se tornar futebolista. No Recreativo Español de Madrid tiveram para com Ramón uma paciência digna de Job. Suportaram a sua trapalhice até à protérvia. Mas o problema é que o rapaz parecia ter dois pés esquerdos. Ou melhor, tendo em conta que, para Maradona, por exemplo, ter dois pés esquerdos o elevariam a um lugar à direita de Deus, por mais disputado que ele fosse: tinha, digamos, os pés trocados. Ou virados ao contrário, como os de Curupira, embora se fosse como o grande Sócrates, o do Brasil, não o da cicuta, até se desenrascasse muito bem tendo os calcanhares para a frente. Enfim, já que não encontro uma comparação e jeito que evite ser contrariada pelas evidências, termino dizendo que Ramón Melcón Bartolomé chutava bolas cheias de carapaus com as esquinas das patas inferiores que a natureza lhe ofereceu à nascença. Um autêntico podão. De dar cabo da pachorra até aos seus santos treinadores lá no Recreativo. Mas gostavam dele e deixaram-no ficar por lá, a chutar bolas para o mais longe possível das balizas, até que ele próprio resolveu que estava a abusar da boa-fé dos amigos e foi chatear outros, não muito distantes, no Colegio Centro, mais tarde renomeado Colegio Castellano, por onde se arrastou até ao fim da sua inexistente carreira. Foi então que Bartolomé resolveu, finalmente, ter alguma utilidade.

 

Árbitro de truz

Aos 21 anos, Ramón Melcón tornou-se árbitro. E dos bons. Um árbitro de truz. Ou do quilé, como dizia o meu querido Assis Pacheco. Exalava uma autoridade muito autêntica que eximia os jogadores a abusarem de palhaçadas. Ainda por cima no futebol espanhol, que é a arena de todos os atrevimentos. Franzia as sobrancelhas, erguia o pescoço comprido, mantinha-se uns centímetros acima dos provocadores de tranquibérnias e ignorava-lhes por completo as diatribes. Tipo teso! Foi preciso vir a Portugal para perder as estribeiras, mas já lá vamos. Ao longo da sua vida de árbitro teve um desgosto profundo: nunca ter atuado em nenhuma fase final de um Campeonato do Mundo, embora tenha conquistado as insígnias de internacional em 1930, ainda antes do Mundial do Uruguai. Também nunca escondeu essa frustração e tornou-a pública em diversas entrevistas. Mas é, ainda hoje, considerado um dos mestres da arbitragem espanhola, tendo sido eleito para presidente do Comité Nacional de Árbitros mal pendurou o apito, em 1948.

As estatísticas revelam que entre 1927 (quando foi promovido árbitro de categoria nacional) e 1948, Ramón Melcón Bartolomé dirigiu nada menos de 85 partidas da Liga Espanhola e da Copa do Rei, três confrontos internacionais amigáveis e um jogo do Campeonato de Portugal. Pois: exatamente esse em que Melcón não conseguiu ser o mesmo homem fleumático que fora durante toda a sua existência até então.

 

Maldita Lisboa!

No dia 11 de junho de 1933 disputaram-se as segundas-mãos dos quartos-de-final do Campeonato de Portugal e o ambiente entre Lisboa e Porto era, como habitualmente, irrespirável. No primeiro jogo, o FC_Porto vencera confortavelmente o Benfica por 8-0, pelo que a reviravolta ganhava ares de milagre impossível de concretizar. Ainda assim, havia benfiquistas que acreditavam. Despudoradamente. É assim o amor fanático pelos clubes. Ganhariam 4-2. Não chegou.

Com receio de que a confusão campeasse dentro das quatro linhas, os dirigentes do futebol português jogaram o ás de trunfo e convidaram o prestigiado Ramón Melcón Bartolomé para vir do país vizinho dirigir tão renhido embate. Ramón, com o seu estilo bonacheirão, aceitou. Mais tarde viria a arrepender-se. Logo aos 16 minutos expulsou o benfiquista Vítor Silva por carga violenta sobre o guarda-redes Siska. Foi o fim do mundo! Silva bateu o pé e recusou-se a sair. O público ferveu de raiva e insultou Ramón de tudo, não lhe poupando os familiares até à quinta geração, incluindo a porteira. Então disse: «Não estou para aturar isto!». E foi-se embora. Só Ribeirdos Reis, treinador dos encarnados, um cavalheiro sem aspas, conseguiu convencê-lo a voltar ao campo. Mas Melcón jurou que era para nunca mais.

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