No Meio de Nós

O ídolo e a guerra

O que estamos a assistir com as guerras do mundo contemporâneo neste momento é muito similar ao problema que se levantava no contexto religioso. As ideologias cegaram-nos! Estamos paralisados! Não conseguimos ouvir ninguém! Não conseguimos ter palavras de elogio.

O ídolo e a guerra

Muitos são os que procuram encontrar na religião uma força portentosa de guerras… e assim o é, porque no passado, como no presente, a religião, sob o nome de Deus, tem gerado muitas guerras. Qual é, no entanto, a natureza e a origem da violência gerada pelas religiões?

Podemos dizer que é Deus o princípio das guerras entre os homens? Eu penso que não e o próprio judaísmo ajuda-nos a compreender esta mesma questão. Os judeus fazem uma diferença entre Deus e o ídolo. O grande pecado de Israel, na Sagrada Escritura, é mesmo o pecado da idolatria, isto é, o povo que abandona Deus e começa a adorar uma figura feita pelas mãos do homem. O próprio salmo diz: «Os ídolos dos gentios são ouro e prata, são obra da mão do homem. Têm boca e não fala, têm olhos e não veem, têm ouvidos e não ouvem, nem há respiração em sua boca» (Salmo 134). 

Isto é muito importante porque o próprio salmo vem dizer seguidamente: «Casa de Israel, bendizei o Senhor, casa de Aarão, bendizei o Senhor, casa de Levi, bendizei o Senhor, vós que temeis o Senhor, bendizei o Senhor» (Salmo 134). Isto é importante, porque o Salmo convida Israel a deixar a idolatria para se dedicar ao louvor de Deus.

Deus, de facto, não se confunde com um ídolo. O ídolo é rígido. O ídolo, não vê, não ouve, não fala. O ídolo escraviza, apenas! Por sua vez, Deus aparece com Aquele que liberta o homem de todas as prisões. Ele cria o homem – Adão – e sopra-lhe nas narinas e insufla-lhe o Espírito e o homem vive. 

Aquilo que Israel representa na figura dos ídolos, podemos, hoje, representar na figura das ideologias. As ideologias são cegas, são surdas, são mudas… elas não vêm nada mais do que a si mesmas, não vêm nada mais para além de si, nem escuta nada nem ninguém. As ideologias escravizam o próprio homem ao ponto de o levar à morte. 

Há uma tradição no judaísmo rabínico que diz que não havia qualquer deficiente entre o povo de Israel, quando recebeu de Deus os mandamentos. Então, quando é que começam a aparecer os cegos, os surdos e os mudos? Quando é que os homens começam a ficar paralíticos? 

É muito interessante perceber que a sabedoria rabínica diz que quando Israel faz o Bezerro de Ouro é que começam a aparecer as diferentes deficiências entre os membros do Povo de Deus. O messianismo de Jesus Cristo vem nesta direção. Jesus aparece, de facto, como aquele que dá vida aos mortos, que cura os paralíticos, que põe os cegos a ver, os surdos a ouvir e os mudos a falar. 

O que estamos a assistir com as guerras do mundo contemporâneo neste momento é muito similar ao problema que se levantava no contexto religioso. As ideologias cegaram-nos! Estamos paralisados! Não conseguimos ouvir ninguém! Não conseguimos ter palavras de elogio.

A ideologia é o ídolo a quem cada um presta culto. Este culto da ideologia incapacita-nos de nos ouvirmos, de nos amarmos, de falarmos uns com os outros. É, na realidade, isto que está a acontecer… 

Nós até podemos não gostar de Deus e achar que é Deus o culpado dos problemas de muitas das bulhas e das guerras humanas, mas talvez possamos aprender da sabedoria de Israel a considerar a idolatria. Precisamos de nos libertar das nossas ideologias, das nossas idolatrias, para que possa aparecer, como está expresso no salmo 134, as palavras de elogio e de louvor. 

Muitos dos problemas do cristianismo não têm propriamente a ver com Deus, mas com a ideologia, a idolatria das nossas ideias. Também muitos dos problemas do mundo contemporâneo, não tem a ver com os homens, mas com as ideologias que nos paralisam e não deixam que apareça o amor. 

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