Cultura

Índia. A morte dos homens da não-violência

Ao mesmo tempo que o Mahatma Gandhi lutava pela independência através do ahimsa e foi suficientemente ingénuo para escrever duas cartas a Adolf Hitler, milhares de indianos morriam na Itália, no norte de África, na Malásia e na Birmânia lutando pela unidade do Império Britânico.

Índia. A morte dos homens da não-violência

NOVA DELHI – Como disse uma vez o escritor belga Henry Michaux: «Na Índia não há nada para ver; é tudo para interpretar». Às vezes até os momentos da História entram nos caminhos da contradição. Nos tempos duros em que Mohandas Karamchand Gandhi, o Mahatma, a Grande Alma, calcorreava o país bradando pela independência e agitando a bandeira da não-violência, o princípio do 24.º tirthankara do jainismo, essa religião milenar que tira Deus do centro da criação no universo, o ahimsa, conceito da não violência para si próprio e para quem os rodeia, milhares de indianos pegavam em armas por todo o planeta, sobretudo no norte de África, em Itália, na Malásia e na Birmânia.

A II Grande Guerra custou a vida a mais de 87 mil indianos, viu cerca de 35 mil ficarem mutilados e mais de 67 mil feitos prisioneiros. Pode dizer-se que, na verdade, a Índia não tinha nada que ver com o conflito entre os Aliados e as Potências do Eixo, mas o Império Britânico tinha uma opinião completamente diferente. Ou seja, interpretava de outra forma.

Em 1939, no início do confronto, aquele que ficou conhecido pelo British Indian Army recrutou em bloco 200 mil indianos para avançarem para as frente de batalha. A Índia tinha gente, muita gente. Carne para canhão, se quiserem. De tal forma que, no dia do armistício já eram dois milhões e meio de indianos fardados e de armas na mão. Lutando por alguns dos seus interesses, mas sobretudo pelos interesses da Rainha Vitória, que via os japoneses porem em perigo as suas valiosas colónias da Malásia e da Birmânia.

Não por acaso o maior exército de voluntários da história de todas as guerras, embora aqui a palavra voluntário seja, como diria Michaux, alvo de diferentes interpretações. Espalhados por divisões de Infantaria, Artilharia e apoio terrestre à Aviação, deram as vidas em três continentes, na Ásia, na África e na Europa. Pau para toda a obra. No fim de tudo, uma palmadinha nas costas dada pelo adorado Wiston Churchill: «I have to pay tribute to the unsurpassed bravery of Indian soldiers and officers». Ao menos isso...

Desde a I Grande Guerra

A primeira experiência do Brittish Indian Army deu-se precisamente em 1939, mas ainda antes de a IIGrande Guerra ter início. Foi na IIIGuerra do Afeganistão. Uma série de escaramuças fronteiriças que tinham sido iniciadas em 1936, na zona de Waziristan. Para sermos mais fiéis à verdadeira interpretação dos acontecimentos, há que dizer que já na I Grande Guerra muitos indianos foram incorporados no Exército Britânico. Mas desta vez a organização levada a cabo foi muito mais profissional.

Tudo começou com o voluntariado de 12 brigadas de infantaria para defenderem as fronteiras do Noroeste da Índia. Aí, a ameaça vinha sobretudo da atitude expansionista do Japão, cujos senhores da guerra, cansados de viverem em ilhas, mantinham a convicção de que o Império do Sol Nascente devia estender-se pelo continente asiático, sobretudo em território chinês. A exigência britânica levou a que, quase de imediato, fossem criadas duas divisões de Cavalaria que deveriam apoiar os regimentos de Artilharia. Os gurkhas, esse extraordinário povo guerreiro que tem as suas raízes no Nepal, entraram em liça a seguir, formando dez regimentos. Para voluntários não era nada mau. E o recrutamento continuou, tapado pelo véu dessa mal amanhada fantasia.

Pior um pouco: desde o início da II Grande Guerra que Londres tentou convencer os soldados indianos que só em caso de urgência seriam chamados a combater, se é que alguma vez teriam de disparar as armas que lhes forneciam. Uma mentira piedosa que teve os seus custos e dolorosos: o exército indiano estava mal preparado e escassamente fornecido de armamento. Foi uma absoluta surpresa quando, de um dia para o outro, o 4º e 5º de Infantaria foram enviados para o Norte de África E para as campanhas da Etiópia, combatendo os italianos. Além disso, seguiram para França uns milhares de avulsos para apoiarem a Força Expedicionária Britânica. Havia gente que mergulhavas nas trincheiras enlameadas sem saber ao certo onde estava e o que tinha de fazer. Malhas que os Impérios tecem...

Em Calcutá, sede do governo da rainha na Índia, havia uma grande insatisfação em relação ao que se estava a passar. Não restavam grandes dúvidas que, em nome do Império onde o sol nunca se punha, muitos indianos estavam pura e simplesmente a ser chamados para uma morte praticamente certa, tal era a sua impreparação. Um incómodo que não tardou a chegar ao Parlamento de Londres. E se havia algo que os ingleses não precisavam era de mais chatices na Índia onde um tal de Gandhi já lhes dava água pelo cachaço. Claro que jamais se deve pôr em causa a capacidade de um inglês para a diplomacia. Seja sempre feita a sua vontade.

Em Maio de 1940, o governo britânico de Londres acordou com o governo britânico de Calcutá que seriam criadas mais seis divisões de soldados indianos, as  6ª, 7ª, 8º, 9ª e 10ª de Infantaria e a 31ª de artilharia. Enfim, quem mandava os indianos reproduzirem-se como coelhos? Se não havia controlo de natalidade, os ingleses estavam dispostos a arranjar-lhes um controlo (ou um descontrolo) de mortalidade.

As cartas!

No entretanto, o campeão do pacifismo, Mohandas Gandhi, tinha tido a ingenuidade ou inocência de pensar que uma besta como Adolf Hitler estava disposto a escutar as suas preces. O homem-meio-nu (palavras do próprio) que Winston Churchill teve de engolir com umas poucas de goladas de champanhe numa célebre visita a Londres, resolvera enviar uma carta ao fulano do bigodinho ridículo, numa tentativa de pacificação que, perante a personalidade do animal, também ganhou foros de ridícula. Datada de Wharda, Índia, dia 23 de Julho de 1939, a missiva resumia-se a poucas linhas. Gandhi terá tido em conta, ao resumir-se o mais possível, que a inteligência do seu interlocutor (que não chegou a sê-lo) e a sua incapacidade para entender qualquer gesto que revelasse o mínimo de humanidade não davam espaço a grandes eloquências. E assim, na sua máquina de escrever, tratou de ser o mais terra-a-terra possível.

«Caro amigo,

Pessoas amigas levaram-me a escrever-lhe com urgência em nome da Humanidade. Resisti o que foi possível, percebendo que uma carta a si dirigida pode ser considerada impertinência. Algo me diz que que não devo, no entanto, ser calculista, e pensar, pelo contrário, que esta carta pode ter o valor que quiser dar-lha.

É absolutamente claro que você é das poucas pessoas do mundo que pode impedir uma guerra que conduzirá a Humanidade a um estado de absoluta selvajaria. Continuá-la-á seja qual for o objectivo que tem em mente? Ouvirá a voz de alguém que, deliberadamente, acredita que o método da guerra nunca terá sucesso? Seja como for, peço perdão se errei ao escrever-lhe.

Herr Hitler

Berlim

Germany

Continuo como

             seu sincero amigo

                                                M.K.Gandhi»

Com toda a franqueza, a Humanidade deve ter ficado surpreendida com tal carta. Há quem diga que ela foi escrita com a completa bondade que era o símbolo da Grande Alma. Não deixa, no entanto, o Mahatma de referir, logo de início, que escreveu contrariado e apenas após a insistência de gente próxima. Já o facto de tratar Adolf por amigo revela uma humildade muito dele, mas absolutamente despropositada em relação ao bicho a quem tais linhas eram dirigidas. Como está bem de ver, Hitler não se deu ao trabalho de responder, se é que se deu ao trabalho de a ler, ocupado que andava a estudar o mapa da Polónia. Uma daquelas habituais teorias da conspiração afirma que a carta nunca chegou sequer a Berlim. Que foi intercetada pelos Serviços de Espionagem britânicos e não entrou na sacola do rapaz dos correios que fazia o caminho do reichtag. Afinal a Gandhi era, nessa altura, um dos perigosos inimigos do Império Britânico, decidido a levar a Índia pelo caminho da independência, tal como levou.

Seja como for, o Mahatma insistiu. E voltou a escrever ao homenzinho com um bigodinho à Charlot.

«Wardha

India

24 de Dezembro de 1940

Caro amigo

Tratá-lo por amigo não revela qualquer tipo de formalidade. Há trinta e três anos que o princípio da minha vida se move por encontrar amigos em toda a espécie humana, independentemente da raça, cor ou credo. Espero que tenha tempo e vontade para perceber quantos milhões de seres humanos que vivem sob a doutrina da fraternidade universal observam as suas acções. Acredito no seu amor pela sua pátria, mas recuso-me a vê-lo como o monstro que os seus inimigos descrevem. Mas muitos do seus discursos, muito do que faz e muito do que os seus seguidores fazem são actos monstruosos e desafiam todos nós que cremos na amizade entre os homens. Tal como aconteceu com a humilhação imposta à Checoslováquia, a invasão da Polónia e a forma como engoliu a Dinamarca. Sei que vê tudo isso como movimentos virtuosos. Mas eu fui educado desde a infância a vê-los como degradantes. Pelo que não posso desejar sucesso aos seus exércitos.

Combatemos o Imperialismo Britânico tal como tal como eles combatem o nazismo. Com uma grande diferença de métodos. Um quinto da população do mundo viu-se governada pelos britânicos sem ter tido qualquer escrutínio sobre o assunto. A nossa resistência não pretende ferir o povo britânico. Queremos convertê-lo e não derrotá-lo no campo de batalha. Mas, sejamos capazes ou não de os converter, estamos determinados a acabar com o seu domínio através da não-obediência e da não-cooperação. (...)  Os invasores podem ser donos das nossas terras e dos nossos corpos, mas nunca o serão das nossas almas. (...)Por isso posso garantir-lhe que temos milhões de pessoas na Índia preparadas para que, seja qual for a vontade contrária, dar a vida contra por aqueles que nos querem espoliar em vez de se ajoelharem perante eles. (...) Espero que esta missiva se torne num apelo a si, e ao senhor Mussolini, que tive o prazer de conhecer em Roma, e que sirva para que alterem as vossas atitudes».

Etc e tal e tal...

Se a primeira carta parecia um telegrama, esta tinha um tom de súplica de alguém que percebeu que nada faria quebrar a barbaridade de Adolf e dos seus capangas. Mas, tal como a anterior, não se sabe se chegou às mãos do Führer, se foi intercetada pelos ingleses. Se, por algum acaso, Hitler a leu, deu-lhe a importância que dava a tudo que não fosse a sua própria pessoa e à Vaterland: nenhuma.

Entretanto, o Império Britânico continuava a triturar indianos nos campos de batalha. A recompensa pela morte dos soldados que morriam que nem tordos a milhares de quilómetros de casa era bem à moda do imperialismo. Ou seja, fizeram o favor de lhes atribuir quatro mil medalhas por coragem e 18 Victorian Crosses, a mais alta condecoração do exército da Grande Ilha. Os discursos, apesar de poucos, foram bonitos. Sobretudo o do Comandante-de-Campo Claude Eyre Auchinleck, que passou a maior parte da sua carreira na Índia, formando recrutas indianos: «The British couldn’t have come through both wars, World War I and II, if they hadn’t had the Indian Army».

Não tardariam a ter de prescindir dele por completo. No dia 15 de Agosto, precisamente à meia-noite, hora de cá (agora são cinco horas e meia de diferença para Lisboa), nascia a Bhārat Ganarājya, a República da Índia, hoje em dia o segundo país mais populoso do mundo, com cerca de mil e quatrocentos milhões de habitantes, que se orgulha da sua bandeira e do símbolo que ela representa: «Satyameva Jayate», que pode ser traduzido para AVerdade Triunfa Sempre. «Protsaahit karana»: felicidades. 

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