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Fiem-se na Virgem e não corram...

Vinga a tese de que a covid (apesar dos números) já não é o que era e até já nem se justifica confinar quem apresenta sintomas ligeiros, vá lá também entender-se estes cientistas – e o que eles diziam dos outros!!!

Fiem-se na Virgem e não corram...

Há um ano, a 13 de Maio de 2021, houve 438 novos casos de covid registados em Portugal.

Nesse dia, as máscaras eram de uso obrigatório mesmo nos espaços ao ar livre, o acesso ao Santuário de Fátima estava condicionado e havia círculos desenhados com tinta branca no asfalto para regular o distanciamento entre devotos, não houve peregrinação de milhares de caminhantes, tal como já acontecera no ano anterior e desde o início da pandemia.

Em vésperas da disputa da final da Liga dos Campeões transferida à última hora para o Estádio do Dragão, no Porto, anunciava-se uma bolha de segurança, com um corredor entre o aeroporto Sá Carneiro e as Antas.

Mas, nos dias seguintes, meio mundo haveria de escandalizar-se com a festa de milhares de adeptos ingleses dos dois clubes finalistas (Chelsea e Manchester City – já agora, o clube de Londres ganhou por 1-0 e foi campeão) sem máscara, acotovelando-se na Ribeira e na Foz, consumindo bebidas alcoólicas em plena via pública sem limitações.

Uns podiam, outros não? A simples pergunta equivalia à defesa do fim das restrições e valia, à época, a qualificação como negacionista, ignorante, irresponsável, cabotino.

António Costa liderava o Governo minoritário e executava um Orçamento aprovado com os votos favoráveis do PS e a abstenção do PCP, do PEV (que ainda tinha representação parlamentar) e do PAN, mas já não do BE.

Eduardo Cabrita ainda era ministro da Administração Interna e haveria de sacudir a água do capote em matéria de futebol, tanto no caso da violação da ‘bolha’ de segurança pelos adeptos ingleses como no das comemorações do título nacional pelos simpatizantes do Sporting que invadiram as imediações do Estádio de Alvalade e as avenidas até ao Marquês de Pombal.

E haveria também de recordar a Marcelo Rebelo de Sousa que, se não fosse ele e o sucesso da ‘sua’ estratégia de prevenção e combate aos incêndios, não teria sido reeleito Presidente da República – porque nem teria sido candidato, uma vez que condicionara a recandidatura à não reedição dos trágicos acontecimentos de Pedrógão Grande e de 15 de outubro de 2017.

Sobretudo, não havia guerra no leste da Europa, a gasolina custava entre 1,639 e 1,719 euros e o gasóleo entre 1,441 e 1,498 euros.

Um ano volvido, há guerra na Europa, o PS governa com maioria absoluta, Rui Rio está a dias de saber quem é o seu sucessor na liderança do PSD, o FC Porto é campeão e as comemorações do título começaram com a notícia da morte por esfaqueamento de um adepto portista, ao que parece por querelas passadas entre membros dessa agremiação de malfeitores que se intitula claque do FCP, os Super Dragões, pertencentes a gangues e a bairros diferentes... 

A inflação em abril chegou aos 7,2%, batendo recordes com 30 anos, e os combustíveis subiram mais de 25% , com a gasolina e o gasóleo acima dos 2 euros por litro.

E as notícias sobre a covid-19 passaram para secundaríssimo plano.

Diz-se que foi Putin quem acabou com a pandemia.

Na verdade, a máscara já não é obrigatória nem em espaços fechados quanto mais abertos, acabaram as restrições, voltaram os peregrinos e a romaria a Fátima, o Santuário tornou a encher-se de peregrinos de cara destapada e sem distanciamento preventivo.

O certo é que há mais de 20 mil novos casos de covid-19 registados por dia. E o número de vítimas mortais no último mês foi cinco vezes superior ao verificado no mês homólogo de há um ano.

Who cares?

Vinga a tese de que a covid (apesar dos números) já não é o que era e até já nem se justifica confinar quem apresenta sintomas ligeiros, vá lá também entender-se estes cientistas – e o que eles diziam dos outros!!!

E as festas estão aí de Norte a Sul. E os festivais também. E os charters voltaram a chegar com paletes de turistas.

O sol brilha e faz calor.

E o calor também mata.

Mas a vida continua.

Marta Temido que se cuide. A covid-19 foi chão que politicamente já deu uvas e agora só tem o lado negativo de continuar a pressionar um SNS exausto e exaurido, com manifesto défice de recursos humanos.

A solidariedade já tem outros desígnios e o que mais se exige é que os serviços de Saúde deem a resposta adequada. Que o SNS, só por si, é manifestamente incapaz de dar.

E, não, nem Putin acabou com a covid-19 nem ela deixou de existir por decreto.

Por decreto, só acabou a pandemia. Aliás, como começou.

O resto é tudo relativo. Como as bolhas, por natureza efémeras.

Qualquer dia, também a guerra, sem que termine, deixa de ser tema. Como a covid.

A bem de todos, esperemos que não.

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