No meio de nós

O desejo do Espírito

Esta enxurrada de más notícias provoca, seguramente, um impacto negativo e depressivo em todos nós. É evidente que quem ouve as notícias diariamente há de pensar que estamos a caminhar para o precipício – e em certo modo talvez estejamos. 


Nestes vinte e dois anos de padre já fiz muitas coisas muito diferentes umas das outras. Estudei jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social (ainda não terminei a licenciatura). Trabalhei em jornalismo e em comunicação durante oito anos. Foi uma experiência incrível!

Há um princípio do jornalismo que me tem feito pensar muito e, ao mesmo tempo, me tem obrigado a confrontar com o Evangelho. Há vários critérios para a agenda mediática. Um dos critérios ajudou-me a compreender a necessidade do desenvolvimento do Evangelho na sociedade contemporânea. 

Como é que a agenda mediática elege uma notícia? Um dos principais critérios é o seguinte: ‘Bad news are good news and good news are no news’ (Más notícias são boas notícias e boas notícias não são notícias). Este princípio é transversal a toda a agenda mediática. Se repararmos, são poucas as notícias que anunciem algo de bom e de maravilhoso para a vida do homem. 

Sempre que existe um desastre, uma morte, uma guerra, um erro, um escândalo, as notícias movimentam-se para aí. Temos uma desgraça em mãos – a guerra – mas veremos que nos próximos dias, com a morte de João Rendeiro, a guerra passará para segundo plano, porque nos é mais próxima a morte do banqueiro. 

Ora, porque digo que este princípio me ajudou a compreender o Evangelho? Exatamente porque o Evangelho é uma boa notícia e, portanto, contrária ao princípio da má notícia inerente à agenda mediática. 

Esta enxurrada de más notícias provoca, seguramente, um impacto negativo e depressivo em todos nós. É evidente que quem ouve as notícias diariamente há de pensar que estamos a caminhar para o precipício – e em certo modo talvez estejamos. Acontece que o mundo é feito de uma enormidade de coisas e de gestos às vezes até heroicos, mas que ninguém fala.

Este impacto negativo das más notícias cria, no nosso interior, diferentes sentimentos. Algumas vezes sentimo-nos revoltados. Outras vezes, sentimos ódio. Outras ainda, desejamos a morte a tanta gente. 

Esta invasão da Rússia no território da Ucrânia tem ido buscar os melhores e os piores sentimentos que coexistem no meu interior. Vejo muitas vezes tanques russos a serem destruídos pelo exército ucraniano. Se por um lado o meu interior me diz que a justiça está a acontecer, dou comigo muitas vezes a pensar que dentro daqueles tanques estão homens e mulheres como eu.

É verdade, dentro dos tanques russos estão homens e mulheres como todos nós que, seguramente, queriam viver e casar e ter filhos, mas que com aqueles bombardeamentos vão desaparecer da face da terra para sempre. 

É necessário pensar que os russos também são homens, como nós! Se não pensarmos que os russos são homens como nós, perdemos a nossa humanidade. Somos muitas vezes levados a olhar para este conflito como uma espécie de jogo de computador de uns contra os outros e que quando abatemos os inimigos rejubilamos. 

Na realidade, isto não é um jogo… isto são pessoas. É evidente que a Ucrânia tem de exercer o seu direito de legítima defesa. Não tenho a menor dúvida. É evidente que a Rússia está a invadir um território soberano. Também é evidente que há atrocidades que foram cometidas pelo exército russo que não podem ser ultrapassadas de animo leve.

Os discursos estão todos enviesados e todos temos noção disso. Dizem os russos que os ucranianos estavam a maltratar os russófonos e era preciso defendê-los. Como é que é que eles os foram proteger? Destruindo-lhes as casas! Então agora temos os falantes de russo na Ucrânia protegidos pela Rússia, mas sem abrigo.

Apesar de tudo isto, temos de pensar que dentro de cada tanque destruído não estão bonecos ou soldados. Dentro de cada tanque estão homens, mulheres, jovens que irão perder a sua vida para sempre. 

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