Opinião

Como as emoções são a melhor arma nas guerras

A história também demonstra que o isolamento a que um dos países fica votado nem sempre é bom conselheiro, podendo originar o recurso às piores opções. A inexistência de negociações no conflito ucraniano é preocupante, porque, sem facilitar nos sentimentos que dominam a vertente racional, devemos sempre pugnar pelo caminho do compromisso e da negociação, evitando que nenhuma das partes se sinta irremediavelmente encurralada.

Como as emoções são a melhor arma nas guerras

por Alexandre Faria
Escritor, advogado e presidente do Estoril Praia

Quem conquista a vertente emocional da opinião pública, durante um conflito armado, acaba por ter melhores chances de sucesso. Temos vários exemplos no passado e a guerra na Ucrânia não é diferente. E apenas nessas emoções podemos encontrar alguma esperança na humanidade, visível no modo como entende a defesa intransigente de uma identidade própria e condena as invasões, a devastação de cidades e o sofrimento humano.

O neurocientista português António Damásio consegue explicar este facto como poucos, porque, de facto, o papel principal que as emoções e os sentimentos desempenham no comportamento social constitui a pedra basilar que nos permite enfrentar as questões mais difíceis neste mundo global. Reconhecendo que os nossos pensamentos têm origem nos sentimentos, poucos serão aqueles que conseguem manter um estado emocional de bem-estar perante as violentas imagens de uma guerra.

Estas emoções originam, por isso, uma onda crescente de solidariedade para com as vítimas, o lado que consideramos mais fragilizado e vulnerável, e provocam um isolamento progressivo do agressor, tanto na opinião pública como junto de outros Estados. A saída da Rússia de diversas organizações internacionais e a última conferência de imprensa no Kremlin, onde Putin surge apenas ao lado dos escassos países que dependem de si em exclusivo, são paradigmáticas. Dão origem ainda à quebra de tradicionais neutralidades, seja por empatia, receio, medo ou desejo de proteção, como se depreende dos pedidos de adesão à NATO da Suécia e Finlândia.

Ao longo da história encontramos várias situações semelhantes, seja no posicionamento italiano na Primeira Guerra Mundial, integrando, de início, a Tríplice Aliança e mudando de lado mais tarde, nas adesões posteriores da União Soviética e dos Estados Unidos da América na Segunda Guerra Mundial, ou até na Guerra do Kosovo, com a entrada em cena da NATO perante a Sérvia de Slobodan Milosevic.

O mediatismo que se confere a uma guerra é, em grande parte, responsável pela sua manutenção nesta agenda das emoções das pessoas, podendo rapidamente alterar-se e desviar a atenção da opinião pública, acontecendo com frequência nos casos que se prolongam em demasia. Só assim se compreende a falta de atenção dada ultimamente, por exemplo, ao conflito israelo-palestiniano, apenas interrompida pela morte da jornalista palestiniana da Al Jazeera, Shireen Abu Akleh, morta com uma bala na cabeça quando noticiava um raide militar israelita no campo de refugiados de Jenin, na Cisjordânia, território palestiniano ocupado por Israel desde 1967. Se o envolvimento e o mediatismo emocionais desta terrível guerra na Ucrânia fossem extensíveis a outros campos de batalha espalhados pelo planeta, teríamos seguramente menos mortes a ocorrer em tantos continentes.

Mas a história também demonstra que o isolamento a que um dos países fica votado nem sempre é bom conselheiro, podendo originar o recurso às piores opções. A inexistência de negociações no conflito ucraniano é preocupante, porque, sem facilitar nos sentimentos que dominam a vertente racional, devemos sempre pugnar pelo caminho do compromisso e da negociação, evitando que nenhuma das partes se sinta irremediavelmente encurralada.

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