Economia

Turismo: Algarve com taxas e preços de 2019

Apesar do preço médio dos alojamentos ter aumentado, as taxas de ocupação para este verão estão aos níveis de 2019 no Algarve. Mas acontece assim um pouco por todo o país.


por Daniela Soares Ferreira e Sónia Peres Pinto

O sucesso está quase garantido: taxas de ocupação em máximos no Algarve e preços que deverão acompanhar o aumento da procura. Tudo indica que os números de 2019 deverão ser atingidos, ou até mesmo, ultrapassados. Pelo menos, é esta a expectativa dos responsáveis do setor contactados pelo Nascer do SOL. «A perspetiva que temos é positiva e poderemos estar à beira de chegar aos números de 2019 ou poderemos ultrapassar, mas mesmo que isso não aconteça não andaremos muito longe disso, e isso é um sinal muito positivo», revela Hélder Martins, presidente da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve (AHETA).

Também o preço médio deverá sofrer alguns aumentos, mas aí também surgem dúvidas face ao aumento de custos, derivado da subida da taxa de inflação. «Mesmo que faturemos mais, não quer dizer que o resultado das empresas seja melhor porque o aumento dos custos tem sido terrível. Assistimos a alguns ajustes ao nível do preço a cobrar, mas esses ajustes na sua esmagadora maioria, para não dizer na totalidade, são absorvidos pelos aumentos de custos operacionais que temos», salienta o responsável.

Já presidente executiva da Associação da Hotelaria de Portugal (AHT), Cristina Siza Vieira admite que face a este aumento de procura e acima de tudo à subida da taxa de inflação é de prever um crescimento em termos de valor. «Naturalmente a inflação existe e não só os preços terão de acompanhar a inflação como se queremos crescer em termos de resultados efetivos não se podem limitar a absorver a inflação, caso contrário o resultado é neutro».

Uma opinião que vai ao encontro à de João Fernandes, presidente Associação de Turismo do Algarve (ATA), ao garantir que essa retoma está a ser marcada por volume, mas também por preço. «Estamos a praticar preços mais elevados porque temos custos também significativamente mais elevados em todos os fatores de produção», e dá como exemplo, as subidas que vão desde os recursos humanos, à energia, às matérias primas. «Naturalmente a venda tem que suportar também esses custos adicionais. Mas, felizmente, com os dados que hoje dispomos, o nível de procura estará, no verão, muito próximo – e poderá até superar 2019 quer em volume quer em preço, o que é importante para as empresas do Algarve e portuguesas em geral. Foram dois anos de perda que vai levar muitos anos a recuperar».

 

E preços?

A nível de preços, há para todos os gostos. Segundo uma breve pesquisa realizada pelo Nascer do SOL há ainda muita oferta para julho e agosto, apesar de algumas já contarem com poucas vagas. Por exemplo, no resort As Cascatas Golf Resort & Spa, em Vilamoura, uma semana em julho para dois adultos – de 18 a 24 – fica por 3.190 euros na suíte de luxo. O mesmo quarto, na semana de 15 a 21 de agosto, tem um preço ligeiramente superior: 3.310 euros.

Mas há opções mais baratas, ainda que dentro do luxo. Na mesma semana, em julho, para um casal, um apartamento com um quarto no Vila Luz, na Praia da Luz, pode custar 1.674 euros. Em agosto,  já não é revelada essa disponibilidade.

Dentro do mais económico, o Hotel D’Alcoutim para um casal na semana de 460 euros. Preço que sobe em agosto: na semana de 15 a 21 o valor é de 595 euros. Acessível também é o Hotel Made Inn, em Portimão, onde o quarto duplo é de 558 euros na semana de julho em análise, o mesmo valor praticado em agosto.

É tendo em conta o que tem acontecido até agora, são as unidades hoteleiras a serem alvo de maior procura. «O Algarve tem produtos para todos os bolsos, o turismo é uma atividade democrática e o Algarve tem ofertas de 88 a 888 e há sempre um alojamento de acordo com aquilo que é o budget do cliente», acrescentando, no entanto, que «o que tem acontecido é que os que tiveram melhor ocupação foram os de  cinco estrelas. Há quem diga que o cliente de cinco estrelas tem mais disponibilidade para viajar, há também quem diga que a nossa relação preço/qualidade dos cinco». Mas não é por isso que, segundo o responsável, os clientes portugueses vão ficar de fora. «Também há boa ocupação previsível para os de quatro e os de três estrelas e, no caso das famílias, há sempre quem opte pode ir para apartamentos, onde pode fazer refeições e aí as ferias são muito mais económicas».

 

‘Ganhar com a guerra’

Os vários responsáveis do setor contactados pelo nosso jornal são unânimes em garantir que as projeções são animadoras. Além de Portugal estar longe do conflito beneficia ainda do facto de ser considerado um país seguro e ter uma taxa de inflação, apesar de alta, que fica aquém de outros países.

O presidente da Confederação do Turismo de Portugal não se mostra surpreendido com o sucesso do destino de Portugal. «Esperamos que este nível de ocupação se venha a verificar este verão, pelo que este será sem dúvida o ano de início da recuperação do turismo, depois de dois anos de pandemia e da quase estagnação da atividade turística», diz ao nosso jornal, Francisco Calheiros.

 O responsável garante que tem «plena noção que Portugal é um país seguro, em todos os sentidos, um destino que tem excelente qualidade, uma grande diversidade de oferta e um clima extraordinário, pelo que será normal que seja um país escolhido pelos turistas que antes escolhiam destinos como a Turquia e a Grécia, mas que devido à instabilidade que se vive naquelas geografias, optem por outros destinos, estando Portugal no topo das preferências».

Uma opinião partilhada por Cristina Siza Vieira que, apesar de reconhecer que é cedo para dizer se vamos atingir taxas na ordem dos 100%, garante que «apesar de ser um destino muito procurado pelos turistas nacionais é evidente que os proveitos vindos dos turistas estrangeiros são superiores. É um destino de excelência dos mercados inglês, francês, italiano e espanhol». A responsável acrescenta que «nos anos da pandemia foi o mercado nacional que mais nos procurou, mas desta vez, estamos a assistir claramente a uma afirmação do destino Portugal/Algarve nos mercados emissores estrangeiros».

Para João Fernandes não há margem para dúvidas: «Temos reservas, até outubro, superiores a 2019», não só no alojamento, mas na animação turística, no rent-a-car, no golfe e nas agências de viagens. «É um feito notável. Portugal como um todo – não é só o Algarve – é o segundo país a retomar mais rapidamente o nível de ligações aéreas para outros países. Também ao nível das reservas dos diferentes subsetores do turismo, há uma crescente componente das chamadas reservas pré-pagas. O que mostra confiança que se vai concretizar essa reserva e que, eventualmente, não haverá um cancelamento», diz, acrescentando que o mercado britânico e o irlandês são os que estão a dar melhores notas em termos recuperação.

 

Aumentos transversais

Não é só o Algarve que está a sentir este aumento de oferta e consequentemente subida de preços. Ao nosso jornal, José Paulo do Carmo, diretor de comunicação e de marketing do grupo Grupo Lux Hotels garante que os valores agora praticados em Lisboa estão a aproximar-se muito dos de 2019. «Se no início do ano, o preço por quarto rondava os 95 euros, neste momento varia entre os 250 e os 300 euros», lembrando que é preciso recuar para a altura antes da pandemia para atingir estes valores.

Mas não é caso único. Recorde-se que o presidente do Turismo do Alentejo, Vítor Silva, já tinha dito que o aumento da inflação e dos preços dos alimentos trarão consequências. «O aumento dos preços tem reflexos no custo das refeições e nos preços que os empresários do setor têm que praticar. As pessoas fazem contas e talvez se desloquem menos», lamenta.

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