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Cancelando Picasso

Para quem pretende reescrever a história à luz das tendências e noções atuais, Picasso tornou-se um ídolo a derrubar, um alvo a abater.

Cancelando Picasso

A o longo dos últimos anos, Pablo Picasso deixou de ser visto apenas como o gigante incontestável da arte do século XX para se tornar algo mais parecido com um monstro detestável que abusava das mulheres e destruía as pessoas à sua volta. A instável Olga Khokhlova, a sua primeira mulher, acabaria por suicidar-se. O filho de ambos, Paulo, teve o mesmo destino. Dora Maar, outra amante do artista, só conseguiu reerguer-se a muito custo depois de consultas com Jacques Lacan. No seu livro de memórias, intitulado simplesmente Grand-père (Avô), Marina Picasso, filha de Paulo, culpa o avô por estas e outras tragédias.

Para quem pretende rescrever a história da arte à luz das tendências e preconceitos atuais, Picasso tornou-se um alvo a abater. Um machista impenitente, egocêntrico, cruel, amante de sangue e de touradas, capaz de descartar uma mulher com a mesma facilidade com que dava um quadro por terminado. Em suma, um terrível predador.

Talvez Picasso tenha sido tudo isso. Mas a ideia de ‘cancelá-lo’, como agora se diz, de esconder as suas obras ou boicotar as exposições que lhe são dedicadas é simplesmente idiota.

Para aqueles que queiram saber mais sobre o assunto e não se satisfaçam com simplificações absurdas, acaba de sair, a título póstumo, o quarto volume da biografia de Picasso pelo historiador da arte britânico John Richardson. Falecido em março de 2019 aos 95 anos, Richardson estava numa verdadeira corrida contra o tempo. Os três primeiros volumes da imponente biografia do artista espanhol cobriam os anos até 1932 - Picasso morreu em 1973, o que significa que quase metade da sua vida ainda estava por contar. O volume IV vai até 1943 e, com cerca de 300 páginas, é consideravelmente mais curto do que os anteriores.

Abrindo-o numa página ao acaso, encontro um parágrafo que me surpreende. «O bombardeamento de Barcelona [por aviões fascistas italianos, a 16-18 de março de 1938] inspiraria Picasso a doar somas imensas a organizações humanitárias espanholas. O artista fez contribuições para caridade que excediam tudo o que fizera antes. Em 1938, as suas doações para o Comité Nacional de Assistência de Espanha totalizaram 400 mil francos, e avançou muitos outros milhares para a construção de centros de ajuda às crianças em Madrid e Barcelona. Isto além do apoio que deu a refugiados espanhóis e catalães, muitas vezes estranhos, que o contactavam em Paris».

Quem diria? Afinal o ‘monstro’ também era capaz de gestos de solidariedade e generosidade de grande alcance.

Mas claro, mais importante do que a caridade que praticou são as obras magníficas que nos legou. Se as suas doações em dinheiro confortaram as vítimas da guerra, obras como a Guernica, só para falar da sua pintura mais célebre, são uma dádiva à humanidade que ilumina não apenas a nossa, mas a existência de sucessivas gerações.

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