Sociedade

'Recebemos muito mais do que damos'

Ernesto Rebelo, de 86 anos, Sofia Magalhães, de 56, e Beatriz Guterres Soeiro, de 22, são três dos cerca de 40 mil voluntários do Banco Alimentar Contra a Fome que, este fim de semana, participarão na campanha de recolha ‘Seja o próximo a ajudar o próximo’.

Bruno Gonçalves
Bruno Gonçalves
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No Armazém 1 da Avenida de Ceuta, sente-se o cheiro a morangos e brócolos frescos. Dezenas de caixas podem ser vistas a serem carregadas pelos voluntários que separam os bens alimentares, preparam boxs de alimentos – devidamente separados –, recebem quem necessita de ajuda, conversam com quem passa por eles e, enquanto fazem estas e outras atividades, ouvem música e conversam sempre que possível.

A passar perto do gabinete de Isabel Jonet, envergando o típico colete azul com o logótipo do Banco Alimentar, está Ernesto Rebelo, de 86 anos. «Quase 87!», avisa, em tom jocoso, enquanto se mexe energicamente e realiza as tarefas. Afinal, é voluntário há 27 anos e dedica-se a esta causa todos os dias.

«Fui funcionário do Banco Totta & Açores até aos 59 anos. Estava habituado a sair cedo de casa, de fato e gravatinha, sempre arranjado, e ir trabalhar. Reformei-me e pensava que ainda tinha muitos anos pela frente e não podia ficar de braços cruzados», diz, sendo interrompido pela colega Sofia Magalhães, de 56, que chegou há sete meses. «E é claro que tinha! Tinha e tem», garante. 

«Primeiro, pensei em ir para um hospital, mas não queria apenas dar copos de água e bolachinhas às pessoas. Bem sei que precisamos de pessoas que façam isso, mas queria estar num sítio em que tivesse mais atividades», explica, indo ao encontro da perspetiva de Sofia que, após ter tido os mais variados empregos, por exemplo, como consultora imobiliária, decidiu que podia virar-se para o voluntariado depois de ter passado anos a investir e ter rendimentos suficientes para não ter necessidade de procurar um trabalho no imediato.

Receber mais do que dar
«Aquilo que as pessoas não percebem, muitas das vezes, é que recebemos muito mais do que aquilo que damos», afirma Ernesto, narrando episódios que tem vivido e que, apesar de o revoltarem, contribuem para a boa disposição que demonstra. «Dá-me a impressão de que as pessoas acham que levo as compras daqui. Como se viesse ao supermercado buscar azeite, arroz, massa... Não é nada disso que acontece! Quem é apanhado a roubar, vai logo para a rua», assevera, recebendo o olhar de concordância de Sofia.

«Sim, o Ernesto tem razão. Quem sabe que sou voluntária não entende como é que faço isto sem receber ‘nada’. Já chegaram a perguntar-me se sabia se seria contratada. Simplesmente não entendem que o Banco Alimentar dá-nos muito: ajuda-nos a desanuviar, esquecemos os nossos problemas individuais, fazemos exercício físico quase sem nos apercebermos disso, conversamos com pessoas de todas as idades e países... É gratificante», esclarece, enquanto Beatriz Guterres Soeiro, de 22 anos, se aproxima e junta-se à conversa.

«Estudei no estrangeiro e voltei para Portugal com o objetivo de fazer o mestrado em Engenharia do Ambiente. Os meus colegas passam o tempo todo a estudar e, no pouco tempo livre que têm, fazem exercício físico, saem à noite e pouco mais. Acho que o voluntariado ainda não está muito enraizado nos jovens, mas isto vai mudando», sublinha, realçando que chegou há poucos meses ao Banco Alimentar, tal como Sofia, mas tem aprendido todos os dias.

«A vantagem é que os horários são super flexíveis. É claro que nos comprometemos com x ou y dia, mas se não tivermos disponibilidade para vir em determinado momento, está tudo bem. E se, por outro lado, tivermos mais tempo e podermos fazer mais horas, está tudo bem também! Há imensa liberdade, mas não é por isso que deixa de haver responsabilidade», acrescenta a jovem, trocando olhares cúmplices e gargalhadas com Ernesto e Sofia, assim como concordância.

‘Os portugueses continuam a ser solidários’
Os três integram a equipa dos 40 mil voluntários que se dedicam ao Banco Alimentar. A 28 de novembro, na 61.ª campanha levada a cabo, já tinham sido pesadas 720 toneladas de alimentos. No entanto, este número correspondia a menos 90 toneladas do que em novembro de 2019, quando havia decorrido a então última campanha presencial.
A informação foi avançada, à época, pela presidente da organização, Isabel Jonet, à agência Lusa, deixando claro que os números não são «nada de estranhar, porque estamos em menos supermercados e ainda temos muitas doações aqui no pátio para pesar». A presidente do Banco Alimentar destacou a grande quantidade de voluntários presentes e a solidariedade demonstrada pelos portugueses: «É incrível ver a quantidade de alimentos que estão aqui doados e que apesar deste tempo difícil ou se calhar, sobretudo, por causa deste tempo difícil, em que todos nós conhecemos famílias que estão em situações mais desesperadas, que os portugueses respondam presente à campanha do Banco Alimentar».

A campanha do Banco Alimentar continuou, no dia seguinte, em cerca de 1200 estabelecimentos comerciais do país, contando com cerca de 20 mil voluntários. Para contribuir, como já é conhecido dos portugueses, basta aceitar um saco do Banco Alimentar à entrada do supermercado e, durante as compras, escolher produtos não perecíveis, como conservas, azeite, açúcar, farinha e massas, para doar. Além disso, era – e continua a ser – ainda possível comprar vales de produtos que estão disponíveis nas caixas dos supermercados em www.alimenteestaideia.pt

Os 21 bancos alimentares existentes no país distribuíram, posteriormente, a comida localmente, também com recurso a voluntários. 

Segundo a instituição, no ano de 2020 haviam sido recolhidas 29 939 toneladas de alimentos, com um valor estimado de 41,9 milhões de euros. Os bens foram entregues a 2700 instituições, contribuindo para a alimentação de cerca de 450 mil pessoas. As campanhas de recolha de alimentos realizam-se duas vezes por ano sendo que, no ano marcado pelo surgimento da pandemia de covid-19, não existiu campanha presencial devido à mesma. Os alimentos recolhidos foram recebidos através dos donativos por vales e da plataforma ‘Alimente esta ideia’.

As toneladas da solidariedade
Viriam a angariar mais de 1680 toneladas de alimentos. «Honestamente, não acho que os números vão descer porque os portugueses continuam a ser solidários mesmo com as dificuldades que existem. Até porque não sei se temos aquela necessidade de fazer aquilo que vemos os outros fazer ou se temos este ‘chamamento’, mas acabamos por ser muito solidários em todas as circunstâncias», avança Beatriz, reunindo o consenso dos colegas.

Em fevereiro de 2021, o Banco Alimentar do Porto registou um aumento de 600% nos pedidos de ajuda, desde o início da pandemia, como confirmou a responsável do serviço social, acrescentando que atualmente apoiam 60 mil pessoas no distrito do Porto. «Os pedidos de ajuda têm aumentado e o perfil das pessoas que pedem ajuda também mudou radicalmente», explicou Inês Pinto Cardoso, em declarações à agência Lusa.

Antes da covid-19 ter afetado o país, os pedidos chegavam, na maioria, de pessoas com o Rendimento Social de Inserção (RSI) ou de reformados, mas atualmente são «pessoas que perderam o emprego e que nunca se imaginaram a passar por esta situação» que mais recorrem à instituição.

«A maioria das pessoas que pede neste momento ajuda alimentar nunca a recebeu e nunca se imaginou nesta situação», sublinhou a responsável, admitindo que algumas pessoas «sentem vergonha em pedir ajuda». «As faixas etárias dos pedidos também se alteraram. Neste momento, estamos a receber mais pedidos de ajuda de pessoas nas faixas etárias entre os 20 e 45/50 anos», afirmou. «Já há pessoas em situação limite, que não têm alimentação em casa», lamentou.

Vítimas da pandemia
Mas o panorama trágico já se vinha a arrastar. Desde que os efeitos da pandemia tomaram conta da economia portuguesa em dezembro de 2020 eram já 60 mil pessoas que, vítimas do layoff ou desemprego, se juntaram aos milhares de necessitados que o Banco Alimentar Contra a Fome apoiava. A crise estendeu-se à classe média: pequenas empresas, consultórios médicos, ginásios são dos vários grupos que até aqui tinham uma vida estável mas viram-se obrigados a fechar portas. Faziam parte, à época, dos, eufemisticamente, chamados ‘novos pobres’.

Os Bancos Alimentares apelaram, nessa época, a todos os portugueses para que, entre 26 de novembro a 13 de dezembro, contribuíssem para a tradicional campanha de recolha de alimentos, na época natalícia, fazendo os seus donativos através do portal de doação ou utilizando os vales disponíveis nas caixas de supermercado.

Logo no início, em abril de 2020, oito meses antes das 60 mil pessoas apoiadas, em dezembro, havia recebido 10 668 pedidos de ajuda. Estes pedidos de ajuda representavam as necessidades dos respetivos agregados familiares, por isso, a presidente, Isabel Jonet, estimava que se tratasse de cerca de 50 mil pessoas de todos os estratos sociais representados nestes apelos.

«Temos [pedidos de ajuda] desde jogadores de futebol de ligas semiprofissionais e amadoras que ficaram sem rendimentos, até pessoas que trabalham em circos ambulatórios, pessoas que trabalham nas feiras, condutores de tuk-tuk, profissões ligadas ao turismo, as pessoas que trabalhavam em restaurantes, empregadas domésticas, cabeleireiras, manicures, há uma panóplia tal de profissões que foram atingidas que temos dificuldade em caracterizar», disse a dirigente em entrevista à SIC Notícias.

Por outro lado, numa notícia divulgada no JN, o jornal falava sobre como o Banco Alimentar tinha stock até ao final de maio daquele ano, contudo, face ao aumento do número de pedidos e de terem sido obrigados a cancelar as campanhas de recolha de alimentos, esta instituição temia que o seu stock de produtos chegasse ao fim. «É um grande constrangimento, uma vez que estas campanhas de recolha representam a grande maioria do abastecimento para os seis meses seguintes», referiu Isabel Jonet ao JN.

A vantagem da Rede de Emergência Alimentar
Para responder a este problema, a instituição criou a Rede de Emergência Alimentar – foi estruturada pela ENTRAJUDA, que se juntou aos Bancos Alimentares, às Instituições de Solidariedade Social, às Autarquias e outras entidades que prestam apoio, como elucida o Banco Alimentar no seu site oficial –, sendo que «a Rede de Emergência Alimentar é uma resposta à situação de emergência que o país vive. Visa levar alimento a quem dele carece, apoiando quem encontra numa situação difícil provocada pelo impacto social e económico da pandemia», lê-se no site oficial do Banco Alimentar, tendo sido explicitado que «as medidas tomadas, indispensáveis para prevenir o contágio da doença provocada pela Coronavírus, provocaram situações extremamente difíceis, até desesperadas».

«Afigurou-se urgente acautelar o risco de situações de rutura de apoio alimentar, de isolamento, de desespero. Muitas famílias ficaram sem qualquer rendimento ou renumeração de forma inesperada, impedidas de trabalhar pelo encerramento de muitos atividades ou com reduções substanciais do rendimento disponível. Famílias cuja vida estava perfeitamente organizada e que nunca antes se tinham encontrado numa situação de pobreza», foi redigido, sendo que Ernesto, Sofia e Beatriz estão cientes desta realidade.

Há quem esteja fragilizado economicamente
«Há situações trágicas. Trágicas, ainda mais do que dramáticas. Nós tentamos ajudar toda a gente, mas vemos que há quem esteja cada vez mais fragilizado economicamente», aponta Sofia. «Quem mais tem sofrido é a classe média-baixa. Porque os pobres continuam pobres e os ricos continuam ricos», indica Ernesto, arrancando uma gargalhada a Beatriz.

«É verdade, tem toda a razão», anuiu a jovem, recuando até março de 2020 alinhando-se com a nota veiculada pelo Banco Alimentar. «Por um lado, várias Instituições de Solidariedade foram obrigadas a encerrar algumas das respostas sociais de apoio disponibilizadas (como creches, infantários, ATL, centros de dia e de convívio, e até em algumas situações, a distribuição de cabazes de alimentos); por outro lado, verificou-se uma redução dos técnicos e auxiliares que colaboram nestas Instituições, na sua grande maioria mulheres, que, pelo encerramento das escolas e equipamentos escolares, foram obrigados a ficar em casa em assistência à família impossibilitando assim a prestação de alguns dos apoios sociais».

«As pessoas sofreram e sofrem muito. Vivemos com muito menos restrições, mas não é por isso que estamos bem. Muito pelo contrário, sentimos cada vez mais os efeitos económicos, e não só, da pandemia», frisa Sofia. «Por outro lado, ainda, foi restringido ou até proibido temporariamente o acesso aos voluntários que colaboram com essas Instituições para evitar contágios, assim como aos familiares dos utentes no caso de lares de idosos e casas de acolhimento», lia-se no comunicado.

«Sendo essencial respeitar as recomendações das autoridades de saúde pública, destinadas a reduzir os contágios, foi importante estruturar uma rede de distribuição alimentar que, acautelando a higiene e a segurança, permita alimentar e apoiar quem foi impactado pela pandemia», era notado. «Nós fizemos isso, não quisemos deixar ninguém de lado. Mesmo que a recolha tivesse de acontecer no site, o nosso esforço não diminuía. Só que os vales são diferentes», reconhece Ernesto.

‘É diferente dar um vale ou entregarmos os sacos’
«Sim, uma coisa é fazer o pagamento de um vale e saber que x e y coisa será entregue a quem precisa. Já é ótimo, mas outra é irmos ao supermercado, vermos os voluntários, escolhermos aquilo que queremos dar, entregarmos os sacos», narra Beatriz. «Sem dúvida, tudo aquilo que acontece presencialmente tem outro impacto em nós e nos outros, principalmente, quando se trata de donativos», salienta Sofia.

«Várias iniciativas de solidariedade entre vizinhos e paróquias surgiram, de forma espontânea, com voluntários que se disponibilizam para fazer as compras aos mais idosos evitando que saiam de casa. Neste caso, são pessoas que podem suportar o custo das suas compras e as confiam a um voluntário do seu prédio ou da sua paróquia. Ficaram, todavia, sem qualquer apoio: as pessoas que habitualmente são apoiadas pelas IPSS que encerraram; as pessoas que não têm capacidade financeira para comprar os produtos de que necessitam, aquelas cuja única refeição era a refeição que consumiam na creche, infantário ou centro de dia» e «as pessoas que dependem do cabaz de alimentos que recebem semanal ou mensalmente».

«Depois daquilo que passámos, penso que todos temos vontade de ajudar. Há este sentimento de entreajuda que, se calhar, não estava tão presente antes, mas tornámo-nos mais solidários», aceita Sofia. «Toda a gente sabia que havia pobreza em Portugal, mas era algo meio...», reflete Beatriz, rematando «abstrato».

«Claro, claro, sabia-se que existia, mas desde março de 2020 que começámos a ser ‘bombardeados’ todos os dias com os números, as percentagens certas ou aproximadas, as histórias das famílias, as dificuldades de todos... Até daqueles que tinham uma boa vida antes do aparecimento da pandemia... Há este sentimento comum, esta vontade de estender a mão ao próximo. Acho que é isso que nos move e deve mover toda a gente que quiser vir para cá», raciocina Sofia, recordando que também existiam as pessoas que ficaram numa situação de desemprego, de baixa por assistência à família.

‘Fico surpreendido todos os dias’ 
«Existiram e existem, Sofia. Temos ouvido e visto tantas coisas... Já tenho esta idade e fico surpreendido todos os dias. Só queria que as coisas fossem melhores no meu país. Aquilo que me deixa muito triste é que, quando estou aqui, vou beber um cafézinho aqui pertinho e, quando me veem com o colete do Banco Alimentar, perguntam se é muito longe. Estão a apenas alguns metros... Parece que ainda não é divulgado suficientemente», constata Ernesto, enquanto mexe no rolo azul grosso de adesivo que serve para etiquetar todas as caixas em que embalam alimentos.

«Por mais incrível que pareça, não sabem mesmo. Apanhamos o metro e o comboio, só o comboio, autocarro ou até podemos vir a pé se vivermos perto. Espero mesmo que o Banco Alimentar não deixe de ser falado porque merece muito que as pessoas venham. Venham, venham ter connosco!», apela Beatriz aos leitores do Nascer do SOL e a todos aqueles que pensarem em disponibilizar uma parte do seu tempo livre para se focarem na solidariedade social.
«O melhor disto tudo é que, para além de fazermos voluntariado e recebermos muito mais do que aquilo que damos, como o Ernesto e a Sofia já disseram, damo-nos todos bem. Há uma dinâmica ótima na equipa e não discutimos nem nos zangamos. Estamos sempre na brincadeira uns com os outros e... Isto é espetacular!», finaliza Beatriz, sorrindo.