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O processo, cem anos depois

Fazer de um julgamento um conteúdo de entretenimento até pode ser um bom negócio, tudo indica que sim, mas é extremamente perigoso...

O processo, cem anos depois

Não é a primeira vez que assistimos a um julgamento com os contornos do que opõe Amber Heard e Johnny Depp, por alegada difamação. O julgamento de O.J. Simpson há mais de vinte anos, acusado do homicídio da mulher e do amante terá inaugurado, pelo menos escalado significativamente, esta forma de lidar com a justiça. Mais o que uma investigação e consequente julgamento, foi sobretudo um espetáculo televisivo que durou mais de três anos. O processo que opõe Amber e Depp não vai durar tanto tempo. Já o valor do conteúdo que está a ser produzido é incalculável. É fácil imaginar as séries, os filmes ou os livros sobre todas as fases da vida dos atores. Além de uma previsível aceleração das suas carreiras, Depp está longe do estudo de ator mais bem pago de Hollywood que já teve.

Se para nós, comuns mortais, ‘lavar roupa suja’ em público é um comportamento muito deselegante, só por ingenuidade é possível acreditar que a mediatização deste julgamento acontece por acaso. As histórias são contadas na melhor tradição Hollywoodesca, o guarda roupa é criteriosamente escolhido, há o rigor do pormenor do preço das garrafas arremessadas. Todas as técnicas que conhecemos para criar interesse e desejo por um produto são utilizadas. Heard e Depp, juntos, separados ou em processo de separação são um grande grande produto e um tribunal em versão Big Brother o melhor palco para o apresentar e vender.

Quando se trata da vida privada de um power couple, os mexericos são conteúdo informativo, de interesse público. com direito a transmissão televisiva em direto qual evento desportivo. Soma-se à atenção e destaque atribuídos pela comunicação social, uma intensa atividade nas redes sociais, a hashtag #justiceforjohnnydepp já conta com mais de 15 biliões de visualizações só no TikTok, revela o Washington Post. O hashtag de Heard, #JusticeforAmberHeard, conta apenas uns modestos 51 milhões de visualizações, sendo muitas desses vídeos negativos para a atriz.

Fazer de um julgamento um conteúdo de entretenimento até pode ser um bom negócio, tudo indica que sim, mas é extremamente perigoso. Ou negamos a influência de todo o impacto mediático da opinião pública nos intervenientes no julgamento, nomeadamente os jurados, ou o que estamos a assistir num tribunal é consequência de um plano de marketing. Se assim é, não devia. Não pode. Um julgamento é um tema de justiça e esta abordagem mina totalmente a sua essência. Um julgamento é um acontecimento em que se avalia a existência ou não de crimes e o apuramento dos devidos responsáveis. Na base deste caso estão acusações de difamação, consequência de episódios de alegada violência doméstica, questões muito sérias que podem originar enormes prejuízos materiais e morais na vida de uma pessoa.

Depp, putativo agressor, tem mais poder mediático, logo está a ganhar esta batalha. Mas este julgamento dificilmente não resultará numa vitória para os dois, independentemente de quem terá de pagar uma enormidade de milhões ao outro. O plano dos dois atores é muito mais de comunicação do que legal e, mesmo que não concertados, ambos procuram atingir o mesmo objetivo que é rentabilizar ao máximo o momento.

Um julgamento não pode ser um conteúdo de entretenimento. Podemos achar piada às histórias com a justiça que o Keith Richards conta na sua biografia ou a algumas decisões mais insólitas de alguns juízes. Não se pode fazer justiça com base em likes e na opinião pública. Isso transporta-nos para tempos em que ninguém quer voltar a viver. Kafkiano, quase cem anos depois do original.

Senior Manager da Accenture Song

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