Cultura

Martinho da Vila. "A alegria é uma forma de estar na vida"

Tem 84 anos de vida e mais de 50 de carreira. Diz que vive dentro de cada uma das suas músicas e que, através delas, seria possível escrever a sua biografia. Descreve-se como um otimista, pois são eles ‘que mudam o mundo’. Depois de um dia preenchido, sentou-se à secretária com um copo de vinho numa mão, um cigarro na outra e um sorriso que parece que faz a vida brilhar. O palco do Coliseu de Lisboa recebeu no passado sábado o ‘senhor Samba’.

Martinho da Vila. "A alegria é uma forma de estar na vida"

DR  


Disse há uns anos, numa entrevista, que se considera um otimista, que são esses que mudam o mundo. Com 84 anos, continua a ver-se dessa forma? Qual a importância de olharmos para a vida com otimismo?

Os otimistas não são muito bem vistos por algumas pessoas, mas são eles que mudam o mundo! [risos] São aqueles que acreditam que as coisas podem mudar. Os pessimistas não acreditam nisso. Eu gosto de trabalhar para continuar a ser [otimista], para continuar a acreditar no mundo e nas pessoas. Se não acreditarmos somos muito menos felizes! 

E o passar do tempo não acaba por sabotar essa vontade? Essa forma de estar na vida? 

Não! O otimismo está sempre presente. Eu alimento-o. Tanto o otimismo como a alegria. São duas coisas fundamentais na minha vida e, na minha opinião, no mundo. Temos de ser alegres. Mesmo quando acontece uma coisa muito séria, devemos tratá-la e falá-la de uma maneira alegre. Aliás, devemos desconfiar dos carrancudos, os casmurros, gente muito fechada, que franze a sobrancelha muitas vezes. Quando assim o é, significa que as pessoas têm alguma coisa para revelar, não se querem deixar conhecer! [risos] Eu gosto que as pessoas me conheçam, que saibam exatamente aquilo que sou! E é isto aquilo que sou, o que tu está a ver!  

Será que ter nascido num sábado de carnaval ditou o sorriso constante que nos oferece? De onde vem essa alegria de viver? 

A alegria é uma forma de estar na vida. Vem do meu interior, nasceu comigo. Eu acho que sendo alegre, transmito alegria. Sendo triste, transmito tristeza. É muito importante preocupar-nos também com aquilo que transmitimos aos outros. Eu prefiro transmitir sempre coisas boas. Uma coisa de que gosto muito é, por exemplo, quando chego a um lugar e me deparo com uma pessoa pensativa. Ela me vê e sorri! [risos] Contagio as pessoas. Basta a presença. Sempre fui assim! É muito bom!

O que é que significa ser um filho da Fazenda do Cedro Grande, em Duas Barras, no ano de 1938? Quais as memórias que ficam da infância?

Eu nasci em 38 e, tal como você disse, precisamente no mês do carnaval, em fevereiro. Pode, sim, ter tido influência! A minha infância também foi uma infância alegre. Eu acredito que dificilmente alguém tem lembranças de uma infância que não foi boa.  As coisas ruins? Elas passam… Tudo o que é ruim que acontece na minha vida eu ‘deleto’! Não me lembro mais! Se me perguntar: ‘Martinho, você já teve dor de cabeça?’. Eu vou ter de parar um tempinho para pensar. Claro que tive, mas vou ter de pensar, porque já não me lembro. É tão simples quanto isso. Devemos fazê-lo, para sermos mais felizes. Não tenho muitas recordações da minha infância na fazenda, porque eu saí de lá muito miúdo, com quatro anos de idade. Aí, fui para o Rio de Janeiro, morar numa favela! 

O que recorda dos tempos em que chegou à grande cidade?

Recordo que era muito bom! [risos] Só voltei a Duas Barras, já em adulto, com 30 anos de idade. O mais surpreendente é que nada lá me foi estranho! Porque os meus familiares falavam muito de lá! Parecia que eu conhecia tudo aquilo que estava a ver pela ‘primeira vez’. É um bom lugar para você passear, quando vier ao Brasil! É fresquinho, tranquilo, muito bom! 

E na fazenda?

Eu jogava muito à bola, brincava muito! Lembro-me da terra. Do cheiro da terra… Agora não tem muito. É tudo cimentado [risos]. Vou contar para você uma coisa muito engraçada: quando era pequeno, eu tinha a mania de comer terra. Naquele tempo, as crianças andavam muito no chão, tinham muito contacto com a natureza, me baixava e comia terra [risos].

A minha avó disse à minha mãe: «Quando ele comer terra, guarda sempre um pedaço de cigarro e bota na boca dele, que ele vai aprender, lembrar esse gosto quando voltar a fazê-lo!» [risos]. Mas aí eu passei a querer um cigarro! [risos] Fumo até hoje e adoro! Era muito diferente antes. 

Antes de se tornar músico profissional trabalhou como auxiliar de químico industrial. Acredita que tudo aquilo que fazemos dita a pessoa na qual nos tornamos?

Exatamente! Eu fiz um curso de auxiliar de químico industrial, até tenho um diploma a sério! [risos] Diz: ‘Laboratorista! Auxiliar de químico industrial! Preparador de óleos, graxas, ceras, perfumes e sabões!’. Não tenho nem sou nada disso! [gargalhada] Mas esse curso foi muito importante, porque até hoje tem reflexos. Por exemplo, o nome do meu novo disco, Mistura Homogénea [risos], tem a ver com o curso! 

Mais tarde, serviu o Exército Brasileiro como sargento burocrata. O que é que esse período lhe ensinou?

Eu fui sargento por acaso! Aliás, eu nem precisava de servir o exército! Eu era órfão de pai. Mas quando eu terminei aquele curso, fui encaminhado para um laboratório químico e farmacêutico do exército. Mas para trabalhar lá eu teria de ter o serviço militar em dia, tinha de o ter prestado. Por isso, entrei como voluntário. Acabei por ficar lá e, nessa altura, vi uma repartição mista que tinha militares e civis.

Disse a um químico que vi lá: «Quando eu sair do exército eu vou ser igual a você! Auxiliar de químico, vou fazer a faculdade, estudar, etc.». E queria saber quanto é que ele ganhava! [risos] Aí ele falou: «Olha! Você vai ganhar muito pouco!». Já não queria mais não! [risos] Tenho boas lembranças desses tempos, foram três anos! É muito bom! Tenho uma música que é assim: «Três anos de caverna/Me deram boa lição/Sou formado lá na vila/Fiz do samba profissão!» [cantarolou].

Sente que veio de lá com mais sonhos?

Eu saí do exército por causa da música! A carreira artística surgiu no III Festival da Record, em 1967, quando concorri com a música Menina Moça. Depois, uma editora me chamou para gravar, gravei o disco e aí eu pedi licença sem vencimentos durante dois anos e, depois, fiquei para sempre de baixa! [gargalhada] Fiz uma boa troca! Não me arrependo nada! Mas, mais uma vez, só trouxe coisas boas dessa altura! 

E o movimento negro? Qual a importância do negro na história do Brasil, mais particularmente na cultura do país?

O movimento negro no Brasil não é unificado. Tem vários segmentos do próprio movimento. Mas ele é muito importante para a cultura brasileira, de uma maneira geral. Porquê? Porque a principal bandeira é o combate ao racismo. Por exemplo, tem uns que são combativos, tem outros que são mais maleáveis, trabalham mais com a conquista – eu sou dessa linha – e acho que nós devemos conquistar as pessoas, em vez de combatê-las. Tem outra que só reclama, que, na minha opinião, não leva a nada. 

E como é que vê o racismo no século XXI? Acredita que a inclusão ainda está muito distante? Quais são os desafios atualmente?

No Brasil, quem observa bem, vê que o racismo é estrutural. Por exemplo, você não vê negros em posição de destaque no Brasil, na classe dominante. Temos muito negros que podem perfeitamente exercer grandes cargos, formados, muito intelectuais… Mas eles não chegam aos lugares. É um racismo diferente do americano. Os americanos são claramente racistas, mas lá o negro que tem capacidade, ele está nos postos. Tem até uma mulher negra que está na NASA! Há vários tipos de racismo ainda nos dias de hoje. Uma das formas de combatê-lo é se consciencializar que ele realmente existe! Começa pela educação. Não podemos fugir do assunto, não podemos mascará-lo. Tem de ser falado, discutido!

E não ser discutido apenas entre negros, mas sim entre toda a gente, na sociedade. No Brasil, no ano de 88, o Governo da época reconheceu que o Brasil é um país racista. Ele existe até na inclusão social de que você falou. Você vê uma foto do ministério, do poder executivo e não vai ter a cara do Brasil. Poderia ser uma foto de qualquer país europeu. Se você vê uma foto dos secretários de governos dos Estados e Municípios, vai parecer que é uma cidade de outro país… Se você vir um retrato do povo brasileiro, o perfil é outro!

Escreveu uma canção chamada Fado das Perguntas, sobre um amigo seu que veio morar para Portugal. Nela faz referência a algumas comidas tradicionais portuguesas. Qual a sua ligação com o país? [sorriso] Com Portugal?

Eu me sinto um pouco português! Geralmente o negro brasileiro, quando fala da sua ancestralidade, ele remete sempre para África e, na verdade, a minha ancestralidade é africana, mas eu também tenho uma ancestralidade europeia de Portugal. Quando estou aí, eu me sinto totalmente em casa! É o meu país também! Gosto dos portugueses, das portuguesas… Gosto muito da música portuguesa, do fado! Já criei até um fado à minha moda. O fado tem uma semelhança com o samba lento e, às vezes, tem ritmo de samba.

Por exemplo, a A Rosinha dos Limões: «Quando ela passa/Franzina, cheia de graça/Há sempre um ar de chalaça/No seu olhar faceiro/Lá vai Catita/Cada dia mais bonita/E o seu vestido de chita/Tem sempre um ar domingueiro (...)» [risos]. As pessoas gostam muito! Tem uma história de que o fado é brasileiro! Não foi criado por brasileiros, mas foi criado no Brasil! É uma teoria que existe… Os fados falam muito de saudades e os portugueses que vinham para o Brasil gostavam de cá estar, mas tinham uma grande saudade de Portugal. Por isso, criaram-no. Claro que há portugueses que recusam isso… Quando vou aí também gosto muito de ir ver os meus amigos… O Luís Represas, que é um grande amigo, já esteve na minha casa, eu na dele… A Kátia Guerreiro, que também já gravei com ela...

É uma pessoa que sente muitas saudades? Se sim, o que é que lhe faz mais falta?

Sinto muitas saudades das coisas, sim! Mas tenho principalmente saudades do tempo em que eu dirigia carro! [gargalhada] Parei de dirigir automóvel e foi bobeira. Comecei a ter motorista para dirigir por mim, aí comecei a deixar…

Nunca mais peguei a carteira, não a refiz… Então, às vezes, eu estou num lugar e queria deslocar-me e fico dependendo sempre de alguém. Ou tenho de chamar um uber, ou um táxi. Isso é meio chato. Sinto saudades do tempo que tinha essa liberdade de pegar o carro e sair. Gostava inclusive de sair à noite, numa noite bem clara e tranquila, e circular. Ver as pessoas… Era muito bom! Mas a saudade também é uma coisa que ‘dá e passa!’. Já era! [gargalhada]

E a música sempre fez parte da sua vida?

Quando é que surgiu o bichinho e quando é que ele se tornou na sua vida inteira? A música sempre esteve presente na minha vida! Sempre gostei muito de ouvir música. Quando eu entrei no Festival [da Record], de repente, vivi ao lado daquelas estrelas, cantores, cantoras, compositores, que eu via à distância. Eram para mim impalpáveis… Aí eu gostei muito, me tocou bastante. Nós somos iguais a todos! Dali, a música entranhou-se. Passei a apostar nela. Fui para os palcos, fui gravando… As coisas foram acontecendo. É assim que eu vivo minha vida: uma coisa acontece e eu trabalho em cima, não fico fazendo planos muito longos. Não gosto de pensar em coisas inatingíveis, eu penso no possível. Quando acho que posso chegar lá, eu trabalho. 

E qual é que é o poder da música? 

Eu sei que eu respiro música. A música é a minha vida! Através dela, uma pessoa pode me conhecer. Através do que eu canto, do que eu escrevo, do que eu componho. Ali está a minha história, a minha história toda! Pode escrever a minha biografia sem falar comigo! 

E a sua música é muita coisa… Embora internacionalmente conhecido como sambista, viaja pelos mais diversos ritmos brasileiros, tais como ciranda, frevo, samba de roda, capoeira, bossa nova, calango, samba-enredo, toada e sambas africanos. Como é que se desdobra dessa forma?

Eu gosto muito! Eu sou classificado como sambista, mas na minha discografia toda, há poucos registos que são totalmente de samba! [risos] Quase todos têm outros ritmos misturados! É disso que eu gosto! Gosto de pegar uma música do sul, que descobri lá, e cantá-la no norte, por exemplo. Ver uma música em Portugal e cantá-la no Brasil. Trocar, dar a conhecer! Uma coisa que eu amo em Portugal são as casas de fado! Ai como eu adoro! Tomar um bom vinho, ficar ouvindo aqueles instrumentos… A guitarra portuguesa tem um som muito especial. Aquilo é muito bom! Às vezes nem entendo o que eles falam, porque cantam comendo as palavras no final… Mas sinto! [gargalhada] Eu adoro! 

Ao ir ‘beber’ a tantos sítios diferentes, sente que isso o torna num artista mais completo?

É! Eu acho que tem uma definição de que um bom cantor é aquele que tem a maior extensão vocal, que vai da nota mais baixa à mais alta… Que canta com força, que se vê a veia que salta do pescoço. Eu não acho que seja assim. Para mim, o bom cantor, é aquele que consegue cantar todos os registos. Eu sou capaz de cantar até um rock, se você quiser. Vai ter a minha marca lá, mas eu vou saber cantá-lo. Então, um bom cantor não é aquele que tem a melhor voz, é sim o que sabe passar a mensagem à música. Por exemplo, nós tivemos no Brasil cantores que tiveram uma voz pequena: Mário Reis, João Gilberto, Nara Leão… Mas grandes intérpretes que sabiam passar a música. Na música o principal é o sentimento!

Tendo contacto com tantas pessoas diferentes e já com 50 anos de carreira, sente que mudou muita coisa em si?

Muda sempre! Eu já trabalhei com tanta gente diferente… Nacionais, internacionais… Essas coisas alimentam-nos e mudam-nos. Isso sempre me enriquece. Gosto muito! 

E pisar um palco? Os nervos e receios ainda existem?

Quando eu vou cantar, eu já vou tranquilo. Por exemplo, essa turnê que eu estou fazendo, eu já pensei no roteiro, repensei, coloquei músicas que eu fico mais seguro. Às vezes há músicas que eu nem lembro direito a letra [risos]. São já tantas músicas! Então, eu já não fico nervoso! Vou tranquilo, fazer o espetáculo com segurança! Acredito que é isso que o artista deve passar no palco para a plateia se sentir bem. 

Em 2017 decidiu dividir o seu tempo entre a música e os estudos… Foi estudar Relações Internacionais. O saber nunca ocupa lugar? Como foi regressar à universidade já com 72 anos?

Eu estive na faculdade durante três anos. Fiz o curso de Relações Internacionais, presencialmente! O curso é de quatro anos, mas o último eu não fiz porque ele era preparativo para os alunos que queriam continuar… Preparar os alunos para o mercado de trabalho. Então eu isso não precisava! Mas foi muito importante, foi das coisas boas que eu fiz na vida! Primeiro, convivi com pessoas, com a juventude; depois fiz o estudo sobre a Universidade, perfil dos professores, dos alunos, etc.. E o que sobrou de mais importante é que só a diplomacia pode evitar uma terceira guerra mundial. Com certeza. Ela ainda não aconteceu porque nós temos muita gente, muitos diplomatas que primam por isso! As Relações Internacionais foram  criadas depois da Segunda Grande Guerra com o objetivo de evitar novas guerras. Isso está acontecendo. 

Tem 8 filhos e 12 netos, incluindo os bisnetos. Sempre quis ter uma família grande? Que tipo de pai e avô é?

[gargalhada] Se você me perguntar qual o nome de todos os meus netos eu vou ter de pensar muito! Vai ser difícil! A minha família é grande, sabe? Nós éramos 8 irmãos, todos tiveram muitos filhos… Tudo cresceu… É uma convivência maravilhosa. Anualmente a gente se costuma reunir num evento que se chama ‘Ferreiraço’ e, na família, tem gente de todas as tendências, de todos os lugares, de todas as religiões. E a gente convive nessa festa, nessa reunião. Cantamos, rezamos, fazemos tudo junto. É uma mistura da gente… 

A alegria está na família inteira?

Claro! Todo o mundo alegre, feliz! Como já está sendo muita gente, a gente vai começar a fazer dois eventos. Como há pessoas que não podem num, podem ir noutro! [gargalhadas] E, geralmente, alguém leva pessoas que não são da família! Fica aquela coisa imensa e é bom, as pessoas ficam encantadas. Como a gente se une, se junta… Tem uma veracidade incrível. Não tem nenhum marginal, alguém que já foi a uma delegacia… Não tem ladrão, nem bandido! Só alegria! 

Recebeu o título honorário de Embaixador Cultural de Angola e Embaixador da Boa Vontade da CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa), por «divulgar a lusofonia e incentivar as relações linguísticas da língua portuguesa». Qual a influência desses títulos na sua vida artística?

O título de Embaixador Cultural de Angola teve razão de ser. Eu estive em Angola no período colonial, durante as guerras da independência e no pós independência. Por isso, me sinto em casa, bem próximo! Depois da guerra da independência, Angola não tinha embaixada no Brasil. E a pessoa que eles mais conheciam, era eu! Quando vinha para cá um empresário para fazer negócios, ou político para encontros, me procuravam. Era eu que ‘abria as portas’ às pessoas. Me chamavam de ‘Embaixador Baixinho’ [risos]. Muitos residiam na minha casa! Depois de se formar a Embaixada, eles me deram esse título. Fiquei muito feliz. O outro, ligado à CPLP, ganhei por conta da minha atuação, no sentido de, naturalmente, promover a aproximação do Brasil com os outros países de língua portuguesa. Trouxe aqui ao Brasil muitos representantes, músicos e artistas. Uma ponte. Os títulos são especiais! 

Como vê a situação política de alguns desses países relativamente a direitos humanos? Por exemplo em Angola?

A política de cada país deve ser de cada país… Eu preocupo-me muito é com o intercâmbio cultural.  Não somos donos do universo, as coisas não estão resolvidas por aqui, nem em nenhum outro sítio! 

A língua portuguesa possui, por isso, alguma singularidade?

A língua portuguesa é muito rica… A CPLP devia fazer uma ação para ensinar o português em vários países do mundo! Precisamos disso! Damo-nos bem em qualquer parte do mundo. 

Como vê a evolução da indústria musical no mundo? Estarão os discos em vias de extinção?

A indústria musical está em transição. Porque, sim, os discos físicos estão desaparecendo. Agora se se faz mais uma ou duas músicas, ‘bota-se’ na internet e é lá que tudo acontece. Acho que todo o mundo se está tentando adaptar, perceber como é a melhor forma de se organizar.   

Tem-se adaptado bem a essas mudanças?

Sim! Eu adapto-me bem! Com o que eu me preocupo mais é em fazer, criar, trabalhar! O resto logo se vê! 

Aos 84 anos, onde é que vai buscar inspiração para as suas letras?

O que mais me inspira é mesmo a vida. A gente tem de pensar muito nela, no ser, no autoconhecimento e no conhecimento das pessoas. Os meus discos são muito isso. Servem para conhecer. Eu conversando com a pessoa, consigo colocar-me no lugar dela. Falta-nos isso! 

Mistura Homogênea é o seu último disco e tem a participação dos seus filhos e netos e também de artistas como Teresa Cristina, Zeca Pagodinho e Djonga. É um disco de família?

É, sem dúvida, um álbum familiar! Eu amo isso! Quero ter as pessoas próximas. A minha noção de família, para além da sanguínea, é a que vive comigo. As pessoas que me estão próximas, que trabalham comigo, são minha família também! O objetivo é que as pessoas gostem, que se sintam bem a ouvir, levá-las à reflexão… Com isso já estou feliz! Eu estou dentro de todas as músicas.

Afirmou que Mistura Homogênea é, possivelmente, o último trabalho que apresenta no formato de álbum...

Seria! Porque não vai ser! Eu já estou preparando outro! Vou fazer um álbum com o passado. Com 12 músicas, capa, informações, material gráfico e ‘botar’ na internet. De dois em dois meses lanço uma nova música! 

O que lhe falta fazer?

O mais importante na vida será sempre procurar beber do saber! Fazer com que a vida seja sempre melhor! 

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