Internacional

Feriado de festa pela Rainha

‘Adoramos pompa e circunstância’, admitiu um jornalista da BBC. O custo da festa foi astronómico, mas os potenciais ganhos também.


Britânicos desfrutaram de um feriado de quatro dias jubileu de platina de Isabel II, aproveitando de um sol raro no Reino Unido, com alguma chuva claro, enquanto a rainha era celebrada de forma entusiástica. Uma multidão de fãs da realeza e de turistas reuniram-se numa maré de azul, branco e vermelho, próximo do Palácio de Buckingham, alguns até acamparam. Mostrando que, apesar dos sucessivos escândalos envolvendo a família real e de um certo ressurgimento do republicanismo, sobretudo nas antigas colónias, a monarquia continua a gozar de algum consenso entre o público britânico.

O preço desse consenso é elevado. A monarquia britânica custa uns 345 milhões de libras anuais, ou seja mais de 400 milhões de euros, equivalente a contratar 13 mil novos polícias ou enfermeiros, estima o Republic. Os dados deste grupo antimonárquico também tem em conta os gastos dos contribuintes em segurança, apesar das contas da casa real só mostrarem que a realeza vive com um fundo de 85 milhões de libras, uns 100 milhões de euros – um valor que tem aumentado ao longo dos últimos anos, com os gastos a subirem devido ao projeto para renovar a canalização e rede elétrica do palácio de Buckingham.

Já no que toca às celebrações do jubileu de platina, vão sair do orçamento de Estado cerca de 28 milhões de libras, o equivalente a mais de 32 milhões de euros. Já 12 milhões de libras estão reservados para munir as escolas primárias de novos livros intitulados de ‘rainha Isabel: uma celebração do jubileu de prata’ – levando vozes republicanas e insurgirem-se contra a doutrinação na escola – e se for tida em conta a perda de produtividade com os quatro dias de feriados, a conta aumenta exponencialmente. Um estudo do Centre for Economics and Business Research, de 2012, estimava que cada dia de feriado custasse 2,3 mil milhões de libras à economia britânica, quase 2,7 mil milhões de euros.

É mais difícil estimar os ganhos do jubileu de platina para a economia, com o turismo e a venda do infindável souvenirs da coroa britânica. Há canecas estampadas com a cara da rainha, bandeiras do Reino Unido, promoções temáticas, gnomos de jardim à imagem de Isabel II ou balões em forma de corgi, a raça canina favorita da família real. Mas a expetativa é se gaste o equivalente a 700 milhões de euros nesse género de merchandise. Enquanto festas e noitadas rendem cerca de 2,3 mil milhões de euros aos supermercados só em vendas extra de comida e bebida – quantas destas celebrações são devido a ser fim de semana prolongado, não pelo jubileu, é dúbio – e 3,5 mil milhões aos bares e restaurantes, parte de um total de mais de mais de oito mil milhões de euros de vendas, avançou o Guardian.

«Não há força na Terra que faça os ingleses não aparecer numa parada e dar uma festa. É impossível, nós adoramos pompa e circunstância», garantiu Michael Cole, antigo correspondente real da BBC, à conversa com a Times Radio. «Ninguém o faz melhor. Quando vim para aqui a pé, passei pelo palácio de Buckingham só para sentir a atmosfera, e era elétrica. Havia idosos e jovens com as suas medalhas, miúdos com bandeiras, senhoras nos seus melhores vestidos de verão», descreveu este antigo jornalista. «Claro que não dá para escapar ao facto de que há uma sensação do fim de uma era. Como sabem, a rainha tem 96 anos».

 

Escândalos reais

Com a rainha a envelhecer, o próximo futuro da monarquia é posto em questão. Isabel II já começou a delegar no seu filho, Carlos, mas muito depende da popularidade da monarca.

«A sua longevidade pessoal simbolizou a constância do Estado, mesmo quando outras instituições falharam», frisou um editorial do Economist. Apontando que «continuidade e consenso não são qualidades pequenas no Reino Unido moderno», algo que «importa ainda mais quando o Governo, longe de ser eficiente, está consumido por escândalo e introspeção», numa aparente referência ao chamado Partygate, o enorme escândalo causado pelas sucessivas quebras das regras contra a covid-19, no seio do próprio Governo de Boris Johnson.

Não que a família real seja imune ao escândalo, atenção. No jubileu de platina, escaparam à celeuma que causa a presença do príncipe André, dado este ter convenientemente dado positivo à covid-19. O príncipe tornou-se um ativo tóxico para a família real, devido à sua amizade próxima com infame Jeffrey Epstein, tendo André inclusive sido fotografo com o braço à volta da cintura de uma das vítimas deste bilionário pedófilo, Virginia Giuffre.

O príncipe André acabou por evitar ir a tribunal, tendo conseguido fazer um acordo milionário para que esta abandonasse as queixas. Parte da conta foi paga pela mãe, Isabel II, escandalizando muitos britânicos. Já o seu outro filho, Carlos, recentemente viu uma das suas instituições de caridade investigadas, sob suspeita de oferecer uma condecoração a um magnata saudita a troco de uma generosa doação.

 

‘Adocicar a política’

Após as vistosas celebrações do primeiro dia do jubileu, quem deu que falar foram os neto da rainha Isabel II, Harry, e a sua mulher, Megan Markle. Na quinta-feira houve a parada do ‘trooping the colour’, uma tradição que tem uns 260 anos, com a multidão a acenar enquanto passavam uns 14000 soldados, vestidos de túnicas vermelhas e barretes de pele de urso. Houve bandas militares e tropas montadas, uma saudação com 82 peças, batendo recordes, e 70 jatos e helicópteros fizeram acrobacias. No entanto, na sexta-feira todos especulavam se Harry e Megan compareceriam, tendo a imprensa britânica podido noticiar, extática, que surgiram na missa em honra do jubileu de platina, na catedral de São Paulo. Já a própria monarca não foi, tendo sofrido algum desconforto no dia anterior, quando assistia à parada na varanda do palácio de Buckingham.

«Muito do que se vai desenrolar ao longo deste festival de quatro dias é objetivamente ridículo», admitiu o editorial do Economist. Fazendo, no entanto, questão de salientar que a família real «adocica a política pela adição sazonal de eventos bonitos e agradáveis», como já dizia um dos diretores deste jornal no séc. XIX. É « uma ‘vida fútil’ que estará em plena exposição nos infindáveis dramas que giram à volta dos filhos e netos da rainha», remata.

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