Internacional

Tropas russas com fome, sede e a tentar voltar para casa

Alguns soldados russos tentaram usar casamentos falsos como desculpa para regressar a casa, dizem as secretas ucranianas. Outros arriscam deixar queixas nas redes sociais.


Dentro da máquina de guerra do Kremlin, cujo poderio foi concentrado em Severodonetsk, chega a passar-se fome, a sensação é de abandono, atreveram a queixar-se tropas russas, em vídeos divulgados nas redes sociais. Ao longo das últimas semanas, as forças de Vladimir Putin conseguiram avanços no Donbass, mas às custas da sua vantagem avassaladora em termos de artilharia, destruindo tudo no seu caminho, deixando apenas nas mãos dos seus desmotivados soldados ocupar ruínas.

“Os nossos efetivos enfrentaram fome e frio”, denunciaram combatentes separatistas do 113.º regimento, oriundo de Donetsk. “Durante um período significativo, estivemos sem qualquer apoio material, médico ou alimentar”, relataram. “Dada a nossa presença contínua e que entre os nossos efetivos há pessoas com problemas de saúde crónicos, pessoas com problemas de saúde mental, surgem muitas questões que são ignoradas pelos superiores no quartel-general”.

Os separatistas sentem esse abandono como ninguém. Ainda há umas semanas se soube que recrutas vindos de Lugansk e Donetsk tinham recebido velhas espingardas Mosin–Nagant, com ação de ferrolho – ou seja, é pôr e tirar os cartuchos manualmente entre cada tiro – e um design do século XIX. Mas não são os únicos que se queixam.

“É exaustivo, a minha unidade inteira quer uma pausa, mas a liderança diz que não consegue substituir-nos agora”, admitiu ao Guardian Andrei, que combate numa brigada mecanizada sediada em Buryatia, uma república siberiana, próximo da Mongólia, com uma população budista e xamanista significativa, que tem sofrido baixas desproporcionais na Ucrânia.

Como tantos outros militares russos, Andrei foi sucessivamente atirado contra as forças ucraniana sem descanso, combatendo na desastrosa ofensiva contra Kiev, em Kharkiv e agora no leste. Logo no início da invasão teve de lidar com a rasputitsa, ou ‘época da lama’ em russo, que deixa as estradas quase intransitáveis. Agora, enfrentam o abrasador calor do verão do leste da Ucrânia, com as temperaturas a subir em junho.

Algumas tropas do Kremlin até estão a ter dificuldade em conseguir obter água, revelou o Serviço de Segurança da Ucrânia (SSU), na terça-feira, que garantiu basear-se em comunicações interceptadas. “Estamos aqui sentados sem água. Tem estado quente ultimamente”, explicou um militar russo a outro. “A malta está aqui sentada também em choque. Moralmente deprimidos”, lamentou, contando que ainda estavam com os mesmos uniformes de inverno com que invadiram a Ucrânia.

O desgaste chegou ao ponto de invasores planearem casamentos falsos, de maneira a serem retirados da linha da frente. Um militar russo foi ouvido a explicar a um camarada que tinha pedido a uma amiga que fosse ao registo civil, anunciaram as secretas ucranianas no Facebook. O camarada terá retorquido que isso não ia funcionar e que o exército tinha começado a apertar com os desertores.

De facto, “a opção de um casamento fictício, não importa quão original fosse, não funcionou para estes soldados”, explicou o SSU. “Portanto eles só podem voltar a casa em três casos: ferimento, morte do ocupante ou de um familiar próximo”. Segundo as secretas de Kiev, alguns soldados do Kremlin já tentaram recusar-se a combater, outros desertar através da fronteira, sabotar o seu próprio equipamento ou veículos e um oficial chegou a ferir-se a si mesmo.

 

“Um poder que não consegue sustentar”

Tendo em conta o horror que se abate sobre Severodonetsk, a magnitude impressionante dos bombardeamentos, ou as imagens assustadoras divulgadas por Moscovo, mostrando bombas de vácuo a sugarem o ar em seu redor, seria dificil imaginar que fosse este o real estado das tropas do Kremlin.

No entanto, “a nova ofensiva russa pretende projetar um poder que não consegue sustentar”, argumentou Frederick Kagan, investigador do Institute for the Study of War, num texto de opinião na Time, esta quinta-feira. “Putin amontoou os escombros das forças de combate russas numa amálgama letal à volta de cidades como Severodonetsk e Lysychansk”, explicou Kagan. “Essa amálgama está a arrastar-se para a frente usando barragens de artilharia maciças para obliterar tudo no seu caminho, permitindo que os assustados e desmoralizados caminhem através do entulho”.

É uma tática que está, de alguma forma, a funcionar. As forças ucranianas, que esta semana surpreenderam ao conseguir lançar contra-ataques em Severodonetsk, após serem forçadas a retirar, voltaram a ser empurradas para os subúrbios desta cidade, admitiram autoridades locais, prometendo não oferecer ao Kremlin nem um metro de território. Já o Ministério da Defesa russo gabou-se deste raro sucesso tático das suas forças.

“O grupo ucraniano no Donbass sofreu perdas significativas de recursos humanos, armas e equipamento militar”, anunciou, em comunicado, garantindo que Kiev perdeu quase meio milhar os seus militares no Donbass nos últimos dias. Já Volodymyr Zelensky estimou que os russos estejam a sofrer baixas na ordem dos trezentos mortos por dia, desde o início da sua invasão.

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