Bruxedos

O Aeroporto Vasco Gonçalves

Ou seja, a melhor maneira de evitar que turistas maldispostos e péssimos cozinheiros reclamem do caos do aeroporto de Lisboa é criar um caos ainda maior nas ruas de Lisboa de maneira que aquela gente fique tão aturdida que perca a vontade de se queixar.

O Aeroporto Vasco Gonçalves

Num ranking elaborado pela AirHelp em maio, o Aeroporto de Lisboa – Humberto Delgado foi eleito como o pior do mundo, de acordo com as opiniões dos passageiros e a pontualidade dos voos. Além dos passageiros não apreciarem a o apoio ao cliente, as filas e a limpeza, também reprovam a qualidade dos restaurantes e das diversas lojas. Ou seja, não gostam de nada. E, como machadada final na credibilidade do aeroporto, os atrasos nas partidas e nas chegadas tornaram-se regra.

A única consolação para Lisboa é que o Aeroporto do Porto não está muito melhor cotado. Sá Carneiro e Humberto Delgado não mereciam isto.

Contudo, se é difícil rebater as críticas à pontualidade dos aviões, às filas caóticas, à sujidade e à antipatia de alguns funcionários, já custa mais a entender que turistas vindos de países onde não se sabe cozinhar se queixem da comida do aeroporto. Provavelmente comem ainda pior em casa e não reclamam. Eis um item que no próximo ranking de aeroportos deveria ser revisto. Os que incluem no seu menu refeições congeladas, McDonalds, Fish and Chips sem qualquer tempero e bebem leite ao jantar, não terão direito a votar.

Entretanto, Lisboa já começou a tomar medidas para mitigar esta vergonha internacional. A proibição de coexistência de habitação permanente e alojamento local no mesmo edifício depois de um acórdão publicado pelo Supremo Tribunal de Justiça é uma delas. A diminuição de oferta de alojamento barato em Portugal vai decerto diminuir também o número de passageiros que entopem o aeroporto de Lisboa, entre estes muitos dos que comem pizzas congeladas em casa para depois se armarem em chefs nos restaurantes do aeroporto. Pois que fiquem no país deles ou vão tramar outro aeroporto qualquer.

No entanto, a mais arrojada medida foi proposta pelo partido Rui Livre Tavares e aprovada pela maioria de Esquerda que domina a Câmara Municipal de Lisboa. A proposta determina a redução em 10 km/h da velocidade máxima de circulação permitida atualmente e a eliminação do trânsito automóvel na Avenida da Liberdade aos Domingos e feriados. O Presidente da Câmara, analistas de Direita e outra gente mal-intencionada criticaram a proposta com o argumento de que esta iria infernizar a vida aos lisboetas e aumentar a poluição. Não tinha sequer sido estudada, sendo por isso estapafúrdia ou destinada apenas a denegrir o mandato de Carlos Moedas.

Não perceberam que o partido Rui Livre Tavares estava, sim, a pensar na imagem de Lisboa perante o mundo. Ora uma vez que mesmo com o fecho de muitos alojamentos locais o número de viajantes em trânsito pelo Aeroporto de Lisboa irá aumentar, e tendo ainda em conta que não será razoável esperar que se consiga chegar a um consenso quanto à escolha de um novo aeroporto nos próximos cem anos, o partido Rui Livre Tavares percebeu o óbvio: se não se pode atuar a jusante, atua-se a montante (ou vice-versa).

Ou seja, a melhor maneira de evitar que turistas maldispostos e péssimos cozinheiros reclamem do caos do aeroporto de Lisboa é criar um caos ainda maior nas ruas de Lisboa de maneira que aquela gente fique tão aturdida que perca a vontade de se queixar. Se saírem furiosos do aeroporto e encontrarem ruas intransitáveis que os façam ter de esperar horas no táxi até chegarem ao hotel, então vão naturalmente aceitar que o anterior caos do aeroporto até não era assim tão mau. Se entrarem furiosos no aeroporto por terem tido más experiências com o trânsito e a poluição lisboeta, nesse caso nem vão reparar nas filas, na sujidade, na antipatia dos funcionários e nos menus dos restaurantes. 

Parecendo má para Lisboa, a proposta do partido Rui Livre Tavares vai salvar a cidade. Não, eles não estavam a pensar em derrubar Carlos Moedas e fazer fretes ao PS. O partido Rui Livre Tavares nasceu em Lisboa, só existe em Lisboa e apenas com Lisboa se preocupa.

No entanto, enquanto a bandalheira continua no Aeroporto de Lisboa e cada vez mais turistas associam Portugal a um país do terceiro mundo, talvez não fosse má ideia mudar-lhe o nome de Humberto Delgado para Vasco Gonçalves.

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