Sociedade

Morre-se cada vez mais por afogamento

Nos primeiros cinco meses do ano, Portugal atingiu um pico de mortes por afogamento dos últimos cinco anos. Nadadores-salvadores contam as suas experiências, assim como uma mãe que perdeu a filha, e dizem o que é preciso mudar.

 

Alexandre Tadeia DR
Renato Jacobs DR
Carlos Ferreira DR

Entre 1 de janeiro e 31 de maio, morreram 52 pessoas por afogamento: é esta a contagem oficial do Observatório do Afogamento da Federação Portuguesa de Nadadores Salvadores (FEPONS). Contudo, o Nascer do SOL sabe que aproximadamente 10 pessoas terão perdido a vida pela mesma causa até esta sexta-feira, perfazendo, deste modo, um total de, pelo menos, 62 mortes, um recorde ainda mais elevado do que o das 52 que se encontram registadas.

No período homólogo – os primeiros cinco meses do ano – de 2021, este número era de 30, 48 em 2020, 31 em 2019, 46 em 2018 e 45 em 2017. Ou seja, atingiu-se um pico destes cinco anos.

As mortes por afogamento acontecem, geralmente, em praias não vigiadas, em praias fluviais e em piscinas, sendo frequente neste meio crianças perderem a vida. Para analisarmos este problema, podemos recuar até ao final de julho de 2009, quando Sílvia Batista deixou a filha Gabriela, de sete anos, a dormir em casa do avô. «Era a única pessoa em quem confiava para isso», confirma, hoje, com 42 anos, recordando igualmente que combinara com o pai que iria buscar a criança por volta do meio-dia e seguiriam para a praia.

«Foram visitar um amigo a uma quinta ali perto e ele tinha uma piscina que nem sequer estava em condições de ser utilizada. Não estava previsto, a menina não tinha fato de banho, mas caiu na piscina e morreu por afogamento», constata a mãe que considera ter passado por uma fase muito negra.

«Fui a um psicólogo, à minha médica de família, mas sou uma pessoa mental e espiritualmente forte e nunca aceitei as depressões. Para mim, não fazia sentido. Achava que as pessoas eram fracas de cabeça. Entretanto, passei por essa situação, não a assumi. Hoje, consigo entender», avança Sílvia que «estava, como todas as mães que perdem filhos, à procura de respostas».

«Porquê eu? Porquê comigo?», questionava a mulher, até porque os amigos que lhe eram mais próximos afastaram-se por se sentirem constrangidos, na ótica da progenitora. «Foram anos de reformular a minha vida e a minha própria pessoa. Então, andava por todo o lado, pela psicologia, pela psiquiatria, não dormia, estive internada duas noites em Santa Maria para fazer a cura do sono», afirma, reconhecendo que tal somente acabou quando uma conhecida, «que era muito da onda das energias e do zen», foi ter consigo e começou a frequentar um centro de meditação para lidar com esta perda.

«Durante 10 anos, tive sonhos em que a minha filha apareceu e mostrava-me um menino. Eu dizia ‘Tu é que és a minha filha’ e corria atrás dela» e, por este motivo, há cerca de três anos, quando descobriu que estava grávida, disse de imediato: «É um menino!». E, de facto, Sílvia é hoje mãe de Dieggo, de dois anos, cujo um dos Gs no nome é uma homenagem à irmã que partiu.

«Uns cinco meses antes de engravidar, sonhei com ela e disse-me ‘Tenho de deixar de vir, agora vou chamar-me Jennifer e não Gabriela’. Como se fosse reencarnar. Não sei se isto é possível, não faço ideia, mas foi a conversa que ela teve comigo. Hoje em dia, olhando para trás, até eu tenho pena daquilo que passei, mas o pequeno retiro que criei foi a minha tábua de salvação», adianta a terapeuta complementar em meditação sensorial.

Mas o caso de Gabriela não é isolado. Em quase três décadas, 6 057 pessoas morreram afogadas em Portugal, na maioria adultos. Destas mortes registadas entre 1992 e 2019, 1 649 constituíram afogamentos intencionais, ou seja, 27%. Sabe-se que os homens representam 69% das mortes por afogamento a nível nacional e o número de pessoas com 65 ou mais anos que morreram afogadas representam mais de um terço do total de óbitos (38%).

Estes são alguns dos resultados de um estudo levado a cabo pela investigadora Catarina Queiroga, do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP), sendo que este foi publicado no passado mês de novembro na revista Injury Prevention. Começando pelas crianças até aos quatro anos, entendemos que se verificaram 232 óbitos, 4% do total.

Passando para aquelas que têm idades compreendidas entre os cinco e os 14 anos – a faixa etária em que Gabriela se inseria – correspondem a 4% dos afogamentos que tiveram como resultado a perda da vida (255). Outra tragédia que espelha esta percentagem é aquela que deixou família, amigos e o futebol de luto esta semana: o falecimento de Afonso Cardoso, de 14 anos, atleta do CRAC, clube do concelho de Vagos, no distrito de Aveiro. Segundo informação veiculada pelos órgãos de informação, o adolescente foi arrastado pela corrente e o corpo encontrado após quatro horas de buscas, a aproximadamente 300 metros do local onde havia desaparecido.

Já nos jovens até aos 19 anos, as mortes ocorrem, maioritariamente, em ambientes sem supervisão, como praias, piscinas, lagoas, rios e riachos, represas ou poços, por exemplo, sendo que este grupo diz igualmente respeito a 4% das mortes por afogamento (266). No dia 7 de junho, um rapaz de 18 anos morreu após ter desaparecido no rio Douro, junto ao cais do Peso da Régua (Vila Real), na sequência de um mergulho, como revelou a Autoridade Marítima Nacional (AMN).

Já os jovens adultos representam 12%, com 740 óbitos declarados, a maioria acidental. No dia 13 de junho, um jovem de 23 anos desapareceu e esteve a ser procurado pelas autoridades marítimas na praia de Paredes da Vitória, no concelho de Alcobaça, segundo informação divulgada então pela Capitania do Porto da Nazaré.

«O jovem encontrava-se na praia com um grupo de amigos, quando foi tomar banho e desapareceu no mar, cerca das 17h40», disse à agência Lusa o capitão do porto e comandante local da Polícia Marítima da Nazaré, José Zeferino Henriques. Há três dias, as buscas foram suspensas e, de acordo com o Jornal de Leiria, o Gabinete de Psicologia da Polícia Marítima encontra-se a prestar apoio aos familiares da vítima.

Em relação aos adultos a partir dos 35 anos, estes são, de facto, o grupo com mais mortes por afogamentos. A 6 de junho, era noticiado que um homem, de 38 anos, morrera e outro, de 25, sofrera ferimentos ligeiros na sequência de afogamento na Praia Pequena, em Colares, Sintra. O alerta foi dado por um surfista e no resgate das vítimas estiveram envolvidos meios dos Bombeiros de Almoçageme, VMER, Polícia Marítima e psicólogos do INEM.

‘Se for para morrer, morremos aqui os dois’

Isto é, se juntarmos os dois grupos, entendemos que 75% dos óbitos por afogamento em Portugal aconteceu em pessoas adultas, maioritariamente do género masculino. Contudo, se recuarmos até à sexta-feira da semana passada, lembramos um episódio que contraria as estatísticas. «A senhora, antes de morrer afogada, ficou em pânico, engoliu muita água e ficou inconsciente. Estava para aí a 200 metros da praia, fui a correr e entrei na água. Fiz uma leitura rápida do mar. A miúda de 13 anos disse-me ‘Não me deixe morrer’ e eu respondi ‘Se for para morrer, morremos aqui os dois’», recorda o nadador-salvador Renato Jacobs, de 32 anos, que deu uma entrevista às estações televisivas, em que estava visivelmente consternado, no rescaldo deste resgate.

«Fomos ao fundo do mar, empurrei o chão com força e voltámos à terra. Ela engasgou-se, tapei-lhe a boca, mas estávamos mesmo a chegar. Tive uma cãibra na perna direita, quase que ficava ali. A senhora de 57 anos, e não 40 como se tem dito, estava com as vias aéreas dentro de água e vi que mesmo que a trouxesse para terra, ela já ia ter morte cerebral», observa o licenciado em Turismo e mestre em Gestão de Empresas que se apaixonou pelo mar e pelo ofício de salvar vidas.

«Trazê-la para a terra foi a parte mais sofrida. Quando vi a senhora a boiar na água, vieram-me as lágrimas aos olhos porque achei que era mãe da rapariga e isso deu cabo de mim. Ouvi os meus colegas apitarem e chamarem os banhistas à atenção», refere o jovem que salvou a adolescente e o pai da mesma – que foi atrás desta e da amiga – na praia da Lagoa, na Póvoa de Varzim, mas não conseguiu salvar a amiga da família.

«Trabalhei logo no dia seguinte porque há muitos colegas do 1.º ano. Eu não consigo virar costas. E disse-lhes logo para eles não entrarem no mar. Quase morri! Lido bem com situações de stresse e pânico. Desde aí, aconteceram mais salvamentos porque faltam nadadores-salvadores. Esta profissão exige muito. Levamos com sol, vento, chuva… Tudo», reconhece, constatando que há pessoas que respeitam a sua profissão, mas outras que a menosprezam.

«A longo prazo satura muito. O grande problema é ser, em grande parte, sazonal: faz com que as pessoas não apostem muito em nós. A maior parte são estudantes, vêm para pagar os estudos, juntam dinheiro e não querem saber mais disto. E existe a questão dos incentivos: pagam-nos o ordenado, mas temos de pagar comida, farda, seguro… São muitas coisas que temos de aguentar», explica o profissional que tirou o curso em 2012 quando ainda se encontrava no Ensino Superior e necessitava de dinheiro para pagar os estudos. «Primeiro, comecei na praia da Salgueira, depois fui para a Verde e tornei-me coordenador. Deram-me o contrato para trabalhar nas piscinas. E no verão venho para as praias».

«Quando estão as bandeiras vermelhas as pessoas até nos ignoram. Digo sempre que temos de dizer que é para o bem do próximo, não falamos como autoridade, porque assim as pessoas ouvem mais. Pedir ajuda e ser humilde. No fundo, é mesmo isso: há pessoas que conseguem estar bem no mar, mas há o próximo», diz, comparando a consciencialização cautelosa que faz com aquela que tem sido realizada pelas autoridades de saúde quando apelam à população que sigam as medidas de prevenção, controlo e vigilância do risco de infeção por SARS-CoV-2.

«Se veem um a entrar para a água, entram todos. Se disser para não irem, que eu é que mando, as pessoas não obedecem. Mas se falarmos dos outros, puxarmos pelas emoções, as pessoas respeitam. Hoje o dia tem sido tranquilo. Está bandeira verde. O fim de semana passado é que foi complicado. Está assim meio tempo de chuva, por isso o pessoal vem menos», narra Renato, que tirou o curso de professor de natação e pretende ensinar os mais novos assim como ser formador dos próximos nadadores-salvadores.

«Posso mudar a mentalidade da geração atual: ensinar as crianças. Não tive cunhas, fiz o percurso todo desde baixo. Pelo meu bom trabalho, passaram-me a coordenador. Sou muito pelos outros, por vezes, até demais. Mas sou muito humano e tenho empatia», conta o jovem que, até hoje, não esquece uma das situações que mais o marcaram. «Quando passei a coordenador, morreu um senhor no Mindelo, com enfarte do miocárdio, eu e os meus colegas ajudámo-lo. ‘Onde é que eu estou?’ foram as últimas palavras dele».

«O que me ajudou muito a ficar foi darem-me um contrato. Há bons e maus profissionais. Há banhistas que falam da má postura dos nadadores, mas acontece o mesmo com os banhistas. Temos de ver a bandeira antes de ir para a água e falar com o nadador se tivermos dúvidas», elucida. «Mesmo que o nadador tenha ido à casa de banho ou comer, temos a obrigação de ver a bandeira. Perceber qual é a melhor zona para nadar e mergulhar. Senão vêm a correr, mergulham e partem a cabeça nas rochas. O banhista tem de ter responsabilidade. E respeitar o nadador-salvador».

Quem vai ao encontro da perspetiva de Renato é o seu formador, Carlos Ferreira, presidente d’Os Delfins, Escola de Formação de Nadadores Salvadores Profissionais. «Sou nadador-salvador desde 1998, mas trabalho nas praias desde os 15, portanto, 1995. Sou das Caxinas, da Rua Alfredo Bastos, o meu jardim de infância era em frente ao mar, a minha escola primária também, o mar sempre fez parte da minha vida!», frisa com a paixão notória no discurso de quem dedica a vida ao mar há 28 anos.

«Andei muitos anos na carrinha de salvamento marítimo. Antes andavam militares. Vi imensa coisa mesmo: corpos encontrados no meio do mar, uma série de situações muito complicadas. Houve um ano em que num dia tivemos três ocorrências em que morreram três pessoas», elucida. «Isto nasce connosco. Temos de ser altruístas, mas ter a frieza de nos pormos em risco e saber salvar. E quando algo corre mal, saber ultrapassar».

«Sou formador desde 2001 e aquilo que ensino nos cursos é o seguinte: temos de ter a consciência tranquila de que fazemos tudo como manda ‘a nossa Bíblia’, o livro do nadador-salvador. Se temos uma má postura e não cumprimos com aquilo que está estipulado, temos esse peso», declara, sendo importante mencionar que, há somente 16 dias, a FEPONS apontou que, no Sul do país, onde a época balnear já havia começado na maioria das praias, existia «uma média de 45% de nadadores-salvadores por contratar», no Norte a média era de 52% e no Centro de 44%.

Há duas semanas, a FEPONS salientava que, na zona Sul do país existiam 22 concessões de praia que, «embora já em período de época balnear, foram forçadas a permanecer fechadas devido à falta de nadadores-salvadores, o que eleva o risco de afogamento», lia-se na nota emitida.

No dia 10 de junho, a época balnear arrancou nos concelhos de Sines, Grândola e Odemira, no litoral alentejano, mas sabia-se que havia praias que não contariam de imediato com a vigilância dos nadadores-salvadores, como realçou o comandante da Capitania de Sines no dia anterior. Em declarações à agência Lusa, Rui Filipe avançou que, em Odemira, «o dispositivo estará quase na sua totalidade completo», mas a situação «é um bocadinho mais crítica nas praias do concelho de Sines e, amanhã [sexta-feira], apesar de ser o início da época balnear» haveria praias «sem nadadores-salvadores».

Por outro lado, a Norte, a Piscina Municipal da Ponte, em Braga, está em risco de permanecer fechada ao público durante a época balnear. Isto devido aos recursos humanos, como a dificuldade na contratação de nadadores-salvadores. De acordo com o ComUm, jornal online da Universidade do Minho, e outros órgãos de informação regional, o presidente da Câmara Municipal de Braga, Ricardo Rio, adiantou, na reunião do executivo municipal, na passada segunda-feira, continuar a existir «fugas de água».

Assegurou que é fundamental «não haver riscos de descolagem da tela, depois destes anos de interrupção» e garantiu que a população conhecerá uma decisão formal dentro de dias. «Queremos saber se temos os meios humanos necessários para apoiar. Temos tido ecos de preocupação de juntas de freguesia que não têm conseguido fazer a contratação de recursos humanos e vamos, nos próximos dias, saber quais vão ficar impedidas de funcionar por essa razão», rematou.

Mas os nadadores-salvadores estão mais do que prontos para trabalhar. «Temos mais formações do que aquelas que é suposto. Oxigenoterapia, primeiros socorros, suporte básico de vida, etc. Existe falta de autoridade do nadador-salvador porque muitas das vezes não somos respeitados. Queremos chegar à população com uma cultura de segurança aquática. Há praias em que, só o facto de se chegar à beira-mar, já estamos em perigo!», avisa Carlos Ferreira. «Quando está bandeira vermelha, não podem entrar na água! O mar é muito inconstante».

«Por vezes, chegamos à praia e o mar está calminho e uns minutos depois vêm as ondas grandes. É como a identificação de um agueiro: a zona onde não há ondas, é essencial! O fundo do mar é mais profundo: é enganador, vão para fora de pé. É mais perigoso aí! É por desconhecimento», constata. «A maior parte das pessoas nada em bruços. É mais fácil nadar numa água sem ondas do que com ondas. Basta tirar o pé do fundo do mar e a corrente leva-as. E depois há o erro de combater a corrente: têm de nadar lateralmente».

«As pessoas não podem procurar as zonas onde não há ondas! Têm de ter a noção de que se desrespeitarem a bandeira levam multa», diz e, de facto, no Edital de Praia 2022 está explicitado que «constitui contraordenação punível com coima de 55 a € 550 (...) o incumprimento dos sinais de informação estabelecidos, tais como bandeiras, placas, boias, das normas constantes no presente edital e das instruções dadas pelos nadadores salvadores relativamente a situações suscetíveis de colocar a segurança de terceiros em perigo».

«Não há tanta polícia marítima quanto isso e não vão lá verificar tudo. Os banhistas não acham que estão a pôr a vida em perigo. Outro erro comum: junto à língua do mar, as pessoas vêm para a zona mais baixa, a onda vai convergir no centro, aumentar o caudal e arrasta-as! Têm de ir para a alta!», aconselha, acrescentando que há banhistas que acreditam saber nadar quando não têm conhecimentos para tal. «Não sabem lidar com as correntes, é completamente distinto de nadar na piscina. Não queremos atacar a população, até nos respeitam, mas basta um desrespeitar para os outros fazerem o mesmo. O nosso trabalho não é fácil», admite. «Se lhes começar a pesar na carteira e não for só 55 euros, se calhar começam a pensar. Ainda hoje tivemos uma ação de sensibilização para mudar a mentalidade das crianças. Elas têm mais consciência do que os adultos. No ano passado, consciencializámos mais de 6 500 crianças e isso dá frutos».

Contudo, ainda não os suficientes devido à falta de conhecimento dos adultos de hoje. «Nos primeiros cinco meses do ano, batemos o recorde de mortes por afogamento dos últimos cinco anos. Não é uma perceção, é um facto, temos os piores valores», afirma Alexandre Tadeia, presidente da FEPONS. «E com tudo isto que tem acontecido em junho… Só tende a agravar-se», prevê.

«Conseguir uma causa para a morte por afogamento é das coisas mais complicadas nesta área. Mas há outros fatores que podemos compreender: as atividades que estavam a ser mais realizadas eram tomar banho em lazer e passear junto à linha de água. Temos um contexto», realça o também Presidente da BÚZIOS-Associação de Nadadores Salvadores de Coruche.

«Há duas grandes razões: por um lado, a falta de cultura de segurança aquática porque as pessoas não conhecem o risco nem os conceitos de segurança, infringem os mais básicos conceitos e, por outro lado, não têm propriamente a noção da sua capacidade e condição física em termos de natação. Julgam que sabem nadar e a maior parte só sabe nadar 5 metros», argumenta, denunciando a existência de apenas duas páginas sobre segurança aquática num manual de Estudo do Meio do 2.º ano do 1.º ciclo do Ensino Básico.

«Por isso, há uma gritante falta desta cultura. O pior é quando nos comparamos com os espanhóis: a nossa estatística percentualmente é superior à deles e eles têm uma costa muito maior e muitos mais habitantes. Embora não tenhamos os números de Grécia, Itália e França, parece-me que estamos com uma das taxas mais elevadas por morte de afogamento na Europa», informa Alexandre Tadeia, preocupado com este panorama. «Estamos claramente a pressionar o Governo porque os números falam por si».

«Quando falamos em afogamento, são muitos números, mas quando pedimos às pessoas para imaginarem que uma destas pessoas era da família delas… Temos de nos colocar no lugar das outras pessoas, de quem perdeu familiares e amigos. Desse modo, olhamos para os números com outra emoção», frisa, estabelecendo um paralelismo com a forma como encaramos os números veiculados no boletim epidemiológico da Direção-Geral da Saúde (DGS).

«Continuamos a não valorizar a prevenção do afogamento. Está provado que 85% dos afogamentos podem ser prevenidos. Gastamos rios de dinheiro a recuperar cadáveres, mas investimos zero na prevenção. Se morre alguém gastamos facilmente mais de 100 mil euros nas buscas e na recolha do corpo: helicóptero, navio da Marinha… Quando chega ao final, é essa a conta», calcula o também Diretor Pedagógico da Escola de Formação de Nadador-Salvador Profissional FEPONS, Formador do ISN, de SBV/DAE do Conselho Português de Ressuscitação e de Condução Defensiva e em Emergência.

«Os políticos estão habituados a que as coisas sejam esquecidas. Estamos com uma enorme falta de nadadores-salvadores e o Estado ainda nem legislou nesse sentido. Temos cada vez menos gente a querer fazer isto: aqueles que o fazem trabalham imensas horas por semana e é óbvio que não querem continuar nisto», reflete o Professor e Investigador de Salvamento Aquático, Socorrismo e Segurança Aquática.

«Os bombeiros voluntários têm incentivos para trabalharem durante a época de incêndios, por exemplo. Quando eu tenho um Estado que apenas investe duas páginas de um manual escolar em segurança aquática, isto é extremamente questionável», acusa. «O Supremo Tribunal de Justiça considerou culpados os proprietários de uma piscina onde uma pessoa morreu afogada, mas o Estado não é criminalizado».