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Será que a paralisia facial de Bieber está relacionada com a vacina?

Ainda que esta hipótese esteja a fazer correr muita tinta, a LUZ teve a oportunidade de ouvir o cirurgião britânico Ankur Khajuria, que explicou que "apesar das sugestões de uma associação entre a vacina contra a covid-19 e a ativação do vírus VZV – que pode causar paralisia facial – ainda não foi encontrado nenhum nexo causal ou relação".

Será que a paralisia facial de Bieber está relacionada com a vacina?

A Síndrome de Ramsay Hunt tem dado que falar depois de o cantor Justin Bieber ter anunciado que sofre da mesma e, por esse motivo, cancelou os próximos concertos que já se encontravam agendados. Sabe-se que esta patologia constitui uma infeção do nervo facial e auditivo que provoca paralisia facial, problemas de audição, vertigens e aparecimento de manchas ou bolhas vermelhas na região da orelha, sendo causada pelo mesmo vírus que origina a varicela e a herpes.

A figura pública de 28 anos disse, num vídeo veiculado no Instagram, na sexta-feira passada, que a condição deixou-o incapaz de mover parte do seu rosto, demonstrando que não é capaz de piscar um dos olhos ou sorrir de um lado do rosto. Após ter feito esta partilha com os 241 milhões de seguidores, o cantor conhecido por êxitos como ‘Peaches’ ou ‘Yummy’ recebeu milhares de comentários em que os fãs associavam o sucedido à vacina contra a covid-19, sugerindo que este poderia ser um efeito colateral da inoculação.

«Obviamente, como provavelmente podem ver no meu rosto, tenho a síndrome de Ramsay Hunt, esse vírus que ataca o nervo do meu ouvido e do meu rosto e causou paralisia no meu rosto», afirmou. «Como podem entender, este olho não está a piscar, eu não posso sorrir deste lado do meu rosto, esta narina não se move, então há paralisia total neste lado da minha cara». 

Relativamente aos sintomas referidos, a síndrome provoca uma erupção cutânea vermelha dolorosa com bolhas cheias de líquido dentro e ao redor de uma das orelhas, fraqueza facial ou paralisia do mesmo lado da orelha afetada, sendo que a erupção cutânea e a paralisia facial geralmente ocorrem ao mesmo tempo, embora por vezes uma possa ocorrer antes da outra, e outras vezes a erupção nunca surge.

Para além destes problemas, se fizermos uma pesquisa em sites de instituições reconhecidas, como a Mayo Clinic, compreendemos que podem surgir dor de ouvido, perda de audição, zumbidos nos ouvidos, dificuldade em fechar um olho, uma sensação de rotação ou movimento (vertigem), uma mudança na perceção do paladar ou perda do paladar, boca e olhos secos. 

Para entender melhor esta situação, a LUZ falou com o cirurgião Ankur Khajuria, membro residente do Royal College of Surgeons of England, da American Society of Plastic Surgery (ASPS) e da British Association of Plastic, Reconstructive and Aesthetic Surgeons (BAPRAS).

«A Síndrome de Ramsay Hunt é causada pela reativação de um vírus chamado Vírus Varicela Zoster (VZV); o mesmo vírus que causa varicela e herpes zoster. Ele permanece no corpo em estado latente ou ‘inativo’ uma vez que a infeção tenha sido eliminada, mas pode ‘reativar’ após um gatilho – como febre, stress ou um sistema imunitário enfraquecido», assevera o docente universitário na Universidade de Oxford investigador no Imperial College London e editor associado do Systematic Reviews Journal.

«Se isso acontecer, pode levar à inflamação do nervo facial que supre os músculos do rosto – é disso que Bieber fala no seu vídeo. Também pode estar associada a erupções cutâneas ou bolhas ao redor da orelha, fraqueza facial no lado afetado, dificuldade em fechar o olho, perda de expressão facial, dor no ouvido ou no rosto, perda auditiva e zumbido no ouvido», adianta o profissional de saúde. 

«Mas pessoas com sintomas como os de Bieber não devem perder a esperança – o tratamento imediato (dentro de 72 horas) com medicamentos antivirais, esteróides e analgésicos podem ajudar. Muitas pessoas (70 por cento) têm uma recuperação completa se o tratamento for iniciado precocemente», avança o médico que fez uma análise semelhante a outros órgãos de informação, como uma crónica que publicou no The Independent.

«Então, e os rumores de que a vacina contra a covid-19 é a culpada?», questiona. «Bem, durante os ensaios clínicos de vacinas de mRNA, a paralisia facial foi observada em apenas sete casos de 35.654 pessoas (0,020%) no grupo da vacina – e apenas um caso de 35.611 pessoas (0,003%) no grupo que recebeu placebo (uma injeção de vacina ‘inativa’, projetada para atuar como substância de controlo para permitir que os cientistas estudem os diferentes efeitos)», acrescenta, explicitando que «apesar das sugestões de uma associação entre a vacina contra a covid-19 e a ativação do vírus VZV – que pode causar paralisia facial – ainda não foi encontrado nenhum nexo causal ou relação».

De seguida, o profissional de saúde elucida que uma equipa de investigadores do Departamento de Farmacovigilância, do Hospital Universitário de Grenoble-Alpes, em França, analisou 133.883 casos relatados de reações adversas a medicamentos relatados com vacinas contra o novo coronavírus no banco de dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Encontraram um número extremamente baixo (0,6%) de casos de eventos relacionados com a paralisia facial.

«Mais de 320 milhões de vacinas haviam sido administradas até ao momento em que este estudo foi realizado, e a taxa de paralisia facial relatada não foi maior do que a de outras vacinas virais e de influenza/gripe. E, embora haja relatos de paralisia facial isolada relatada há décadas com quase todas as vacinas virais – casos como o de Bieber – nenhum estudo estabeleceu um risco maior de paralisia facial após a vacinação», adiciona, sendo curioso verificar que a paralisia facial é, pelo contrário, associada às infeções por covid-19.

Este caso diz respeito a uma profissional de saúde, 31 anos de idade, em contacto diário com doentes covid-19. Recorreu ao Serviço de Urgência, por alteração da sensibilidade da hemiface direita e assimetria facial, tendo tido alta medicada e sendo assumido o diagnóstico de Paralisia de Bell. Cerca de uma semana após este episódio, recorre novamente por mal-estar geral, febre, náuseas e vómitos, procedendo-se ao despiste de covid-19, que se revelou positivo», lê-se num caso clínico estudado por médicos do Centro Hospitalar Lisboa Ocidental.

Na introdução, é especificado que «a capacidade de os coronavírus afetarem o sistema nervoso é conhecida, existindo múltiplos casos de envolvimento neurológico descritos durante as epidemias de Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus (SARS-COV) e de Middle East Respiratory Syndrome Coronavirus (MERS), de 2002 e 2012, respetivamente».

«Uma primeira análise retrospetiva de 214 casos, realizada por Mao et al, referiu a presença de sintomas neurológicos em 36,4% dos doentes internados por COVID-19. A semiologia/ patologias mais comuns foram tonturas (16,8%), cefaleias (13,1%), mialgia (10,7%), alteração do estado de consciência (7,5%), disgeusia (5,6%), hiposmia (5,1%), acidente vascular cerebral (2,8%), ataxia (0,5%) e convulsões (0,5%) (1,3)», realçam os autores, frisando que «desde então, vários outros artigos e séries têm sido publicados, relatando múltiplas manifestações ou patologias neurológicas, como a Síndrome de Guillian-Barré ou encefalites».

Regressando à patologia específica que acometeu Bieber, Ankur Khajuria deixa claro que analisou as pesquisas mais recentes à luz da experiência da celebridade e adianta «que um estudo publicado no mês passado não encontrou evidências significativas de que a vacinação contra a covid-19 estava associada ao aumento do risco de infeção viral por VZV», sendo que «uma revisão anterior chegou a uma conclusão semelhante».

Recorde-se que, no passado mês de janeiro, lia-se num comentário numa publicação do Correio da Manhã onde fora partilhado um artigo intitulado ‘Diretora-geral da Saúde apela aos pais para autoagendarem vacinação dos filhos’: ‘O meu filho tem 10 anos tomou a primeira dose da vacina [e] hoje teve uma paralisia facial. O hospital pediu o número do lote porque há mais casos’.

Questionado pelo Polígrafo, «o Hospital Fernando Fonseca confirma que observou, nas urgências pediátricas, no dia 1 de janeiro de 2022, uma criança de 10 anos de idade com o diagnóstico de paralisia facial periférica, a quem tinha sido administrada a primeira dose da vacina contra a covid-19 no dia 18 de dezembro», sendo que a instituição hospitalar garantiu que a situação foi notificada ao Infarmed e até àquela data, havia sido «a primeira notificação reportada por este hospital».

«Tal como acontece com qualquer medicamento, uma coincidência temporal não implica uma relação causal, pelo que esta questão encontra-se a ser tratada pelo Infarmed em conjunto com a Unidade Regional de Farmacovigilância de Lisboa, Setúbal e Santarém, no sentido de se proceder à recolha de dados adicionais para a sua análise e avaliação», esclareceu o Infarmed, dizendo que, á época, não havia «qualquer informação sobre suspeita de irregularidades em nenhum lote de vacinas contra a covid-19 destinadas à imunização de crianças».

«São necessários estudos em larga escala para estabelecer se existe alguma ligação entre as vacinas da covid-19 e a paralisia facial causada pela infeção pelo VZV, mas – como qualquer médico dirá – a importância das vacinas para acabar com a pandemia é primordial. Resumindo: as evidências científicas atuais mostram que contrair esse tipo de infeção pelo VZV é raro e o risco é baixo, semelhante ao risco de outras vacinas virais. Mas deve ser prontamente reconhecido, gerido e relatado», salienta, indo ao encontro dos dados divulgados pela plataforma Our World In Data na manhã desta quarta-feira.

Assim, até há três dias, 66,3% da população mundial havia recebido pelo menos uma dose da vacina, tendo sido administradas 11,95 mil milhões de doses globalmente e 5,47 milhões a cada dia. Contudo, apenas 18% das pessoas em países de baixo rendimento receberam pelo menos uma dose.

Em Portugal, a próxima campanha de vacinação contra a covid-19 e a gripe para maiores de 65 anos e pessoas com comorbilidades terá início a 5 de setembro, como anunciou a diretora-geral da Saúde, Graça Freitas, especificando que o objetivo é que esteja finalizada em dezembro. Em conferência de imprensa, há uma semana, a ministra da Saúde, Marta Temido, declarou que o país tem 6,9 milhões de vacinas armazenadas. 

O país gastou 15 milhões de euros na compra da vacina contra a gripe, para este próximo plano de vacinação, que este ano será tetravalente reforçada. e «será usada pela primeira vez em Portugal». Deste modo, Graça Freitas explicitou que se pretende optar «sempre que possível» pela estratégia da coadministração das duas vacinas, detalhando que o período entre doses (ou infeção) é de três meses, para «simplificar o processo». 

Sabe-se que o esquema vai começar pelos maiores de 80 anos e prolongar-se até ao último mês do ano de forma decrescente até chegar à faixa etária dos 65. 

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