Cultura

O novo mantra do rock ‘n’ roll. Live fast, die old

O peso da idade parece não chegar a todos. Com quase oito décadas de vida e um historial de excessos no corpo, os Rolling Stones continuam ativos e a esgotar estádios com fãs ávidos para ouvir músicas como Sympathy for the Devil. Não são os únicos, Paul McCartney, com 80 anos acabados de fazer, continua a ser cabeça de cartaz de festivais. Mas o que representa isto para os jovens músicos que tentam singrar na indústria?


Apesar de não ter sido James Dean a dizê-la, a frase “live fast, die young, and have a good-looking corpse” (“viver depressa, morrer novo e deixar um bonito cadáver”), que surgiu no livro de 1947, Knock on Any Door, de Willard Motley, tornou-se sinónima do famoso ator, que morreu aos 24 anos, e da atitude rock ‘n’ roll. Mas hoje a história não é bem assim – e aí estão os Rolling Stones para o provar.

No auge da sua criatividade musical, ninguém vivia mais no limite do que a banda britânica, com as proezas de consumos excessivos do guitarrista Keith Richards e do vocalista Mick Jagger a tornarem-se mitos da cultura popular (impossível pensar em Richards e não ouvirmos na nossa cabeça, de uma forma bem detalhada, a alegada lenda de quando inalou as cinzas do seu falecido pai), mas hoje os Stones têm uma mudança mais leve na caixa de velocidade.

Jagger e Richards, ambos com 78 anos, continuam a dar concertos e surpreendem, não só por ainda estarem vivos, dado todos os comportamentos pouco saudáveis que levaram ao longo da sua vida, mas por ainda terem energia para montarem um espetáculo que costuma durar cerca de 2 horas por noite. Houve quem especulasse até que essa vitalidade resultaria de transfusões de sangue que deixavam Jagger e Richards rejuvenescidos.

Mais recentemente, no início de junho, a banda de músicas icónicas como Sympathy For The Devil ou Gimme Shelter esteve no Estádio Wanda Metropolitano, em Madrid, para realizar o primeiro concerto da sua mais recente digressão europeia, Sixty, que pretende celebrar os 60 anos de atividade do grupo e que marca o regresso a espetáculos na Europa ao fim de cinco anos.

Apesar da tragédia que marcou o grupo no verão do ano passado, com a morte do baterista de longa data do grupo, Charlie Watts, os britânicos, perante uma audiência composta por mais de 53 mil fãs que esgotaram o Estádio Wanda Metropolitano, ofereceram um muito elogiado concerto, repleto de clássicos, como Satisfaction, Paint It Black ou Jumpin’ Jack Flash, que foi também marcado por um tributo ao baterista, como tem sido habitual nos concertos que tem feito desde o seu falecimento.

Apesar do facto de Jagger ter testado positivo à covid-19 ter sido um contratempo que resultou no adiamento de um concerto em Amesterdão, o grupo já regressou à estrada, com um concerto em Milão, no Estádio de San Siro, e este sábado marcou presença no festival londrino British Summer Time, no Hyde Park, onde atuaram no mesmo dia da banda War on Drugs e da cantora norte-americana Phoebe Bridgers. Curiosamente, nenhum dos membros destes projetos musicais era vivo quando os Stones lançaram as suas primeiras músicas.

A banda continua a aumentar os seus quilómetros de estrada, mas também está preocupada em imortalizar a sua história, assinalando a sexta década de existência do grupo com um documentário de quatro horas com estreia marcada para o dia 7 de agosto.

O documentário, realizado por Oliver Murray e Clare Tavernor e intitulado My Life as a Rolling Stone, será exibido no canal EPIX, em quatro episódios diferentes, com o objetivo de “realçar a criatividade dos Rolling Stones, as suas inspirações e como os artistas, individualmente e coletivamente, superaram adversidades, notoriedade e demónios pessoais, para escrever a banda sonora que marca os dias de hoje”, escreveram os produtores em comunicado.

 

McCartney aos 80

Mas os Stones não são os únicos a manterem-se ativos ao fim de décadas. No passado dia 18 de junho, o ex-baixista dos Beatles, Paul McCartney, celebrou 80 anos. Dois dias antes, o artista esteve em palco, no MetLife Stadium, em Nova Jérsia, a dar um concerto de duas horas que contou com Bruce Springsteen (de 72 anos e, também, ainda a dar concertos, tendo anunciado no final de maio uma tour de quatro meses na Europa em 2023, sem concertos agendados para Portugal), com quem cantou o dueto Glory Days e o clássico dos Beatles, I Wanna Be Your Man. No mesmo espetáculo, Jon Bon Jovi (de 60 anos, que tem recebido muitas críticas pelas suas performances nos últimos concertos, com vários a especularem se não terá uma lesão nas cordas vocais) esteve em palco para cantar os parabéns ao homem que deu voz a músicas como Band on the Run ou Maybe I’m Amazed.

Este sábado, McCartney foi ainda um dos cabeças de cartaz do festival Glastonbury, liderado também por Billie Eilish (20 anos) e Kendrick Lamar (35 anos), num espetáculo que contou ainda com a presença de Dave Grohl dos Foo Fighters e (novamente) com Bruce Springsteen.

Mas não é só em cima de palco que McCartney tem estado ativo. No ano passado lançou o seu 18º álbum a solo, McCartney III, que acabou por receber dois Grammys, protagonizou a série documental, McCartney, 3, 2, 1, onde explorou as maiores músicas da sua carreira com o produtor Rick Rubin, e ajudou a produzir o documentário de mais de 7 horas, Get Back, sobre a realização do último disco dos Beatles, Let it Be.

 

Como podem sobreviver os novos músicos?

O sucesso de bandas do “passado” – recorde-se que a tournée de reunião dos Guns ‘n’ Roses, entre 2016 e 2019, é a terceira mais lucrativa de sempre, ou o sucesso renovado de grupos como os Fleetwood Mac, com a música Dreams a tornar-se viral depois de um famoso TikTok, ou da música Running Up That Hill de Kate Bush a chegar aos tops mundiais 37 anos depois, relançada na série da Netflix Stranger Things – fazem parte da cultura da nostalgia que o mundo está a passar.

Esta tendência pode parecer um inofensivo regresso ao passado, mas, efetivamente, há quem considere que está a “matar” os novos artistas.

Num artigo da Stereogum, “Everything Old Is New Again, And Everything New Is Out Of Luck”, Rachel Brodsky cita o texto de Ted Gioia, “Is Old Music Killing New Music?”, publicado no The Atlantic, onde mostra que a música antiga está a sufocar os novos talentos.

“As músicas antigas agora representam 70% do mercado de música dos EUA, segundo estatísticas da MRC Data, uma empresa de análise musical’, escreve Gioia. ‘Aqueles que vivem da nova música – especialmente aquela espécie em extinção conhecida como músico trabalhador – devem olhar para essas figuras com medo e horror. Mas as notícias pioram: o mercado de música nova está a diminuir. Todo o crescimento do mercado vem de músicas antigas’”, citando o caso de bandas sonoras de filmes como os Guardiões da Galáxia da Marvel, que é constituído maioritariamente por artistas dos anos 1980.

Enquanto artistas como Kate Bush ultrapassam “jovens” como Harry Styles ou Bad Bunny nas listas de músicos mais ouvidos, ou os Rolling Stones competem com artistas que nem eram vivos quando Jagger e companhia começaram a atuar, surgem cada vez mais dúvidas sobre como podem sobreviver os novos músicos. Para Gioia, é preciso nada menos que uma revolução.

“As revoluções musicais acontecem de baixo para cima, não de cima para baixo. Os CEOs são os últimos a saber. Isso é o que me dá consolo. A música nova surge sempre no lugar menos esperado, e quando os poderosos estão a prestar menos atenção”, escreve. “Vai acontecer novamente. Certamente, é algo necessário. Aqueles que tomam decisões que controlam as nossas instituições musicais vão perder o fio à meada. Temos a sorte da música ser demasiado poderosa para eles a matarem”, conclui.

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